Ontem
de tarde, quando a chuva começou, tive a impressão de que as coisas iam
melhorar. O céu desaguava em toda a cidade, o quintal aqui de casa parecia um
lago profundo e escuro no qual eu teria imenso pavor de mergulhar; o vento
forte arrastava os tapetes da varanda e fazia dançar o lençol branco no varal;
as janelas se moviam num vai-e-vem fantasmagórico e as luzes se apagaram
minutos depois da tempestade começar. Acendi a vela que estava escondida no
fundo da gaveta do armário da cozinha, tirei da tomada os aparelhos eletrônicos
e fiquei olhando por trás do vidro da porta os raios que caiam do lado de fora.
Geralmente tenho medo do escuro, mas pensei que se a chuva levasse embora o
calor insuportável dos últimos dias, levaria também essa sensação de que vou
enlouquecer antes da hora.
Não
sei bem quando essa quase-loucura se aproximou de mim, mas já faz um tempo que
ela está aqui, e fica mais perto a cada dia, tanto que às vezes parece que
nunca mais vai me deixar, e cedo ou tarde será tão dona de mim quanto eu mesma.
No
começo imaginei que poderia ser saudades de casa. Eu sinto tantas saudades de
casa, dos plátanos na avenida, das hortênsias roxas espalhadas pelas calçadas,
do frio nas mãos e na ponta do nariz, da água aquecida na torneira da pia da
cozinha, das cobertas na cama, da geladeira vazia, das crianças correndo pela
sala e chamando o meu nome, dos amigos os quais nunca substitui. Mas essa
saudade já esteve comigo em outras temporadas e nunca veio acompanhada de nenhum
surto. No máximo um choro no fim da tarde, um apertozinho no coração e aquela
vontade de deixar tudo para trás e voltar para o alto da serra.
Também
cheguei a pensar que pudesse ser por causa de você, que me procurou na semana
passada, falou coisas bonitas e depois desapareceu. Achei que a quase-loucura
estivesse aqui porque eu me apaixono fácil e nos imaginei tão juntos que quase
fui capaz de acreditar que ficaríamos assim de verdade. Você tem os olhos tão
profundos quanto o lago que a chuva formou no meu quintal e os cabelos que o
meu pai quis ter naquele verão em Natal; você compõe músicas românticas, fala
italiano e sabe cozinhar, como é que eu podia não me apaixonar? Mas não, a
quase-loucura não pode ser só culpa sua. Apesar de ter ficado mais intima dela
depois de você, ela já estava aqui quando nos falamos pela primeira vez, ela já
morava um pouco em mim quando eu pensei que poderia te levar até a minha casa e
te apresentar à minha família, ela já dormia na mesma cama que eu quando decidi
que era melhor não te procurar porque você parece tão perfeito para estar ao
meu lado quanto parece perfeito para estar ao lado das outras garotas do mundo.
Imaginei
ainda que a quase-loucura pudesse ter sido trazida pela falta que o vovô me
faz, pelo dia em que uma amiga me deu um remédio e eu tive que pesquisar os
efeitos no Google ao invés de ligar para aquele que sempre entendeu tanto das
minhas dores hipocondríacas. Pensei que pudessem ser as provas da graduação, os
livros que eu não li, o santo que não bate mesmo com o da nova moradora do
condomínio, os ares ruins de um setembro que eu preferia ter passado para
frente sem respirar.
Mas
não é, a quase-loucura surgiu aqui muito antes de tudo isso chegar. Eu não
sabia bem, porém a moça é velha de casa e um dia se tornará tão chegada que
passarei a ser quase-eu para que ela se espalhe.
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