sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Coração



Acordo uns cinco minutos antes do despertador tocar, com a barulho do vento batendo à janela. Espreguiço na cama quentinha, jogo os cobertores pro lado e solto o cabelo. Caminho até o banheiro, ligo o chuveiro devagar e deixo a água, aos poucos, tirar das madeixas a marca do elástico que as prenderam durante o meu sono. Tomo o resto de suco de laranja da garrafa retornável e me arrumo para o trabalho. Olho o celular e percebo que Pedro me deixou, na noite anterior, uma mensagem de boa noite. Depois de alguns instantes, perguntou também sobre os meus planos para o fim de semana e disse baixinho do outro lado da linha: "vê se me liga, tá?". Nós nos conhecemos na noite cultural aqui do bairro, no primeiro dia da primavera, e descobrimos tantas coisas em comum que tenho a sensação de que Pedro sou eu num corpo de menino: os mesmos gostos, os mesmos gestos e o mesmo olhar profundo. Não sei, no entanto, o quanto isso me afasta ou me leva para mais perto do rapaz. Não tem nada mais perigoso do que se apaixonar por alguém tão parecido conosco. Não tem nada mais gostoso que isso também. Respiro fundo, engulo o sorriso bobo e decido não responder à mensagem por enquanto.

          No ônibus, um senhor carrega uma caixa de papelão cheia de guloseimas e pergunta de banco em banco se alguém quer comprar. Ele sorri, mas lhe faltam alguns dentes. Tiro da bolsa o dinheiro que havia separado para a hora do almoço e compro um pacote de canudos de doce de leite. Poucas coisas no mundo deixam o meu coração tão compadecido quanto um sorriso vazio, almoçar a sobremesa só por um dia não há de fazer nenhum mal. Guardo os doces na bolsa; aperto o botão para solicitar a parada e agradeço ao senhor, devolvendo o sorriso enquanto desço as escadas.

         Luca já está me esperando no portão da escola quando chego, e segura nas mãos uma bolsa plástica repleta de formas geométricas coloridas. "Me espera na aula, moçoilo, já disse!". Ele solta uma gargalhada, deseja bom dia e caminha ao meu lado enquanto conta sobre os filmes de que mais gosta. Diz ainda que nós deveríamos fazer um teatro, porque eu sou a cara da viúva negra e ele quer ser o arqueiro-não-sei-o-que. Luca tem uma doença degenerativa, às vezes fica dias sem aparecer por aqui, e aos poucos vai perdendo a memória, a visão, os movimentos. Sorrio concordando com a ideia de me tornar uma super-heroína, desejando assiduamente que um dia alguém com grandes poderes possa mesmo salvar do perigo meninos como estes que eu encontro no trabalho.

         O dia voa, volto pra casa, tomo outro banho e dirijo até a faculdade. Encontro os meus amigos no saguão do bloco principal e, como não temos a primeira aula, vamos juntos até o restaurante universitário, agora fechado, para rever uns exercícios da semana anterior. Eles estendem os materiais na mesa enquanto eu encaro a mocinha sentada, de costas pra nós, no fundo do refeitório. Caminho até ela com a desculpa de que preciso jogar um lixo no cesto. A garota janta sozinha, com a luz apagada. E gente comendo sozinha, acuada num canto, também parte o meu coração. Comento sobre os insetos horríveis que sobrevoam a lâmpada acessa: "tomara que seja chuva". Ela concorda comigo, e abre um sorriso. Despeço-me e volto aos estudos.

Tem dias que o mundo fica nos testando e, não tem jeito, nós nos abrimos. Tiro da bolsa os doces de mais cedo e divido com os meus colegas; pego o celular e envio uma mensagem ao Pedro: "fiz planos para nós dois no fim de semana". Talvez não seja assim tão ruim gostar de alguém que tenha um pouco de mim dentro do seu próprio coração.

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