Logo que cheguei ao velório,
pouco antes das nove da manhã, me sentei em um banco branco na enorme sala de
espera. De onde eu estava, não se conseguia ver nenhum corpo morto dentro do
caixão. Cinco salas rodeavam aquela praça e cinco corredores levavam a esses
espaços quem entrava pela porta principal. Nas laterais havia ainda dois
banheiros, masculino e feminino, e uma pequena cozinha com geladeira, fogão e
uma pia de mármore. Alguns vasos enfeitavam a parede do local com flores
brancas e amarelas, no teto apenas o barulho dos ventiladores desbotados e, vez
ou outra, havia também alguém que soluçava, chorando dentro de um dos cômodos
que eu não conseguia ver. Passei o dia no mesmo lugar. Sentada no mesmo banco. Com
um livro aberto nas mãos e nenhuma linha lida.
Quando o meu avô faleceu, há dois
anos, também preferi não encara-lo sem vida. Eu me sentei em um banco do mesmo
modelo, num cemitério com mais flores, e chorei por horas, a noite toda no
mesmo lugar. Hoje, quem nos deixa é a minha bisavó que, ao contrário do que diz
o letreiro brilhante e vermelho fornecido pela funerária, não completava 86
anos, mas 88. Ela foi forte e sã até quase o fim da vida, nunca se esqueceu de
mim, ou de seu marido falecido há mais de uma década.
Minha mãe anda de um lado para o
outro tentando resolver os percalços burocráticos que a morte traz, depois
cumprimenta os seus tios e sorri para mim quando não está chorando. Minha
madrinha cuida das crianças e, de vez em quando, oferece café aos visitantes.
Na sala fúnebre ao lado de onde
minha bisa é velada, um senhor chamado Antônio também se vai. Pelo que diz o
letreiro, ele tinha 92 anos e um sobrenome de família jovem e rica. No entanto,
poucos vêm se despedir. Eles aparentam ter a mesma idade do senhor falecido,
comentam sobre as dores nas costas, os olhos que já não veem mais e essa hora, essa
infeliz hora que chegará para cada um de nós. Nenhum deles chora. Ninguém
parece se importar de não vê-lo mais.
Alguém acena de longe, para que
eu pegue o meu celular. Encontro o aparelho e vejo que meu padrasto deixou uma
mensagem perguntando se quero almoçar. Olho de volta para o outro lado da sala
de espera e chacoalho a cabeça, respondendo à minha mãe. Ela está no telefone,
imagino que talvez seja seu marido do outro lado da linha e, assim, nem preciso
me dar ao trabalho de digitar. Levanto um pouco, para ir ao banheiro e, quando
retorno, minha madrinha está a minha espera, apontando para um moço bonito e
perguntando se me lembro dele. Eu sorrio, digo “oi” e me desculpo por não
lembrar. Ele me estende a mão e se apresenta: é um daqueles primos que
conhecemos aos três anos e, mesmo sabendo a óbvia resposta, todo o mundo
insiste em testar a enganosa memória infantil de quem não se lembra nem do
jantar do dia anterior.
Logo o rapaz se despede, e diz
esperar me ver mais vezes, em ocasiões menos tristes que essa. Eu concordo, e
me sento novamente. Minha avó fica um pouco ao meu lado e questiona se não
quero mesmo me despedir. Seguro a sua mão, beijo a aliança dourada ainda em seu
dedo e encosto a cabeça em seu ombro.
Poucas pessoas estiveram aqui
hoje, menos pessoas do que as que estiveram no velório do meu avô e menos ainda
do que todas aquelas que visitaram o meu colega de escola há uns seis anos. As
flores também vieram em menor quantidade, as lágrimas eu quase pude contar e as
mensagens bonitas, lidas em alto e bom som, nem estiveram na sala. De todas as
ocasiões mais tristes em que estive, mais triste foi não me lembrar. Mais
triste do que não viver, é não deixar nada para trás.


