Hoje eu pensei em te ligar.
Ainda tenho gravados aqui, no meu celular, o seu número e aquela última
conversa que tivemos. Queria contar que ontem de noite, depois de ir a um show
horrível, perder alguns ônibus, e encher a cara, eu entrei naquele bar de rock
no centro da cidade e trombei com o meu ex-namorado. Não nos víamos há seis
anos e três meses. Ele me olhou algumas vezes, incrédulo, cumprimentou
timidamente e foi embora antes da música acabar. A atual namorada, ao contrário
do que me disseram uma vez, não se parece nem um pouco comigo: é mais alta,
mais magra, mais loira e não tomaria cerveja sozinha, já meio bêbada, na mesa
de um pub no bairro mais nobre da capital. Eu encontrei também um moço que eu
beijei uma vez naquela festa da faculdade onde você se agarrou com a menina do
cabelo colorido. Eu pensei em te ligar pra contar como o meu coração ficou
apertado com todo esse espaço vazio da minha antiga casa, pedir um abraço,
perguntar o motivo de nem tentarmos, de não nos magoarmos e depois nos encontrarmos
como semi-desconhecidos em um bar qualquer. Eu não sei o que é pior. Mas gostaria
de ligar e tentar entender porquê começamos tão bem e não fomos até o fim. Eu
queria ligar e te convidar para conhecer o meu quarto, mesmo que a gente precise
sentar no chão e nenhum colchão amenize esse impacto, só pra não ter que te
deixar, de vez.
Estamos sem nenhum móvel
aqui, desocupamos tudo. As reformas começam na segunda e não dou quinze dias
para todas as histórias estarem apagadas das paredes espessas. Às dez da manhã de
um sábado eu me mudei dessa casa, levei as prateleiras para a nova; levei o
colchão, o lençol, o ventilador, as roupas, as tralhas, as fotos, a cortina
azul, o abajur, aquele veneno de colocar na tomada. Depois voltei, me sentei no
chão e olhei as paredes brancas do espaço que, por pouco menos de dois anos, chamei
de lar. Eu, que sempre penso em me mudar, até então nunca havia imaginado como
seria sair daqui. Lá fora, não tem mais nenhuma roupa de menina no varal,
nenhuma voz delicada no corredor, nenhum fundo de perfume doce pela sala de
estar. Os meninos que eu trouxe para cá, ficam aqui. Eu deixei aqui aquele
professor de guitarra, deixei o moço com cara de personagem de quadrinhos,
deixei o barbudo tatuado, o mais novo de cabelo bem arrumado e o ex-namorado
que me disse “quase não reconheci você” na noite passada. Deixei a cama
quebrada, as vasilhas de plásticos mais velhas, uns papéis da faculdade e uma
parte do meu coração.
Pensei em te ligar pra
contar que as meninas estão me fazendo muita falta, mas eu não quero que elas
saibam que estou sendo fraca e choramingando pelos cantos da casa. Queria falar
com você pra dizer que ainda leio aqueles textos e só não comprei o seu livro
porque não tenho mais o meu emprego antigo. Gostaria de mostrar o meu cantinho
pra ver se ele continua sendo meu em uma lembrança que não é a minha, tenho
desejado te trazer aqui pra levar daqui pelo menos você. Pelo menos você. Eu
pensei em te ligar e falar que muita coisa, mesmo que eu não queira, está sendo
deixada para trás nessa mudança. Eu só queria te contar que, quando eu sair de
vez por aquela porta, se você não voltar e decidir de uma vez por todas o que somos,
nós dois continuaremos aqui, eu e você, sem mim, morando nessa casa vazia sem
nenhuma lembrança ou um bom lugar para descansar os pés.

Nenhum comentário:
Postar um comentário