sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ultimato


Hoje eu pensei em te ligar. Ainda tenho gravados aqui, no meu celular, o seu número e aquela última conversa que tivemos. Queria contar que ontem de noite, depois de ir a um show horrível, perder alguns ônibus, e encher a cara, eu entrei naquele bar de rock no centro da cidade e trombei com o meu ex-namorado. Não nos víamos há seis anos e três meses. Ele me olhou algumas vezes, incrédulo, cumprimentou timidamente e foi embora antes da música acabar. A atual namorada, ao contrário do que me disseram uma vez, não se parece nem um pouco comigo: é mais alta, mais magra, mais loira e não tomaria cerveja sozinha, já meio bêbada, na mesa de um pub no bairro mais nobre da capital. Eu encontrei também um moço que eu beijei uma vez naquela festa da faculdade onde você se agarrou com a menina do cabelo colorido. Eu pensei em te ligar pra contar como o meu coração ficou apertado com todo esse espaço vazio da minha antiga casa, pedir um abraço, perguntar o motivo de nem tentarmos, de não nos magoarmos e depois nos encontrarmos como semi-desconhecidos em um bar qualquer. Eu não sei o que é pior. Mas gostaria de ligar e tentar entender porquê começamos tão bem e não fomos até o fim. Eu queria ligar e te convidar para conhecer o meu quarto, mesmo que a gente precise sentar no chão e nenhum colchão amenize esse impacto, só pra não ter que te deixar, de vez.

Estamos sem nenhum móvel aqui, desocupamos tudo. As reformas começam na segunda e não dou quinze dias para todas as histórias estarem apagadas das paredes espessas. Às dez da manhã de um sábado eu me mudei dessa casa, levei as prateleiras para a nova; levei o colchão, o lençol, o ventilador, as roupas, as tralhas, as fotos, a cortina azul, o abajur, aquele veneno de colocar na tomada. Depois voltei, me sentei no chão e olhei as paredes brancas do espaço que, por pouco menos de dois anos, chamei de lar. Eu, que sempre penso em me mudar, até então nunca havia imaginado como seria sair daqui. Lá fora, não tem mais nenhuma roupa de menina no varal, nenhuma voz delicada no corredor, nenhum fundo de perfume doce pela sala de estar. Os meninos que eu trouxe para cá, ficam aqui. Eu deixei aqui aquele professor de guitarra, deixei o moço com cara de personagem de quadrinhos, deixei o barbudo tatuado, o mais novo de cabelo bem arrumado e o ex-namorado que me disse “quase não reconheci você” na noite passada. Deixei a cama quebrada, as vasilhas de plásticos mais velhas, uns papéis da faculdade e uma parte do meu coração.

Pensei em te ligar pra contar que as meninas estão me fazendo muita falta, mas eu não quero que elas saibam que estou sendo fraca e choramingando pelos cantos da casa. Queria falar com você pra dizer que ainda leio aqueles textos e só não comprei o seu livro porque não tenho mais o meu emprego antigo. Gostaria de mostrar o meu cantinho pra ver se ele continua sendo meu em uma lembrança que não é a minha, tenho desejado te trazer aqui pra levar daqui pelo menos você. Pelo menos você. Eu pensei em te ligar e falar que muita coisa, mesmo que eu não queira, está sendo deixada para trás nessa mudança. Eu só queria te contar que, quando eu sair de vez por aquela porta, se você não voltar e decidir de uma vez por todas o que somos, nós dois continuaremos aqui, eu e você, sem mim, morando nessa casa vazia sem nenhuma lembrança ou um bom lugar para descansar os pés.

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