domingo, 1 de fevereiro de 2015

Solidão


Eu nunca estive tão sozinha. De todas as vezes em que fiquei sozinha, em nenhuma eu estive tanto quanto agora. Os meus amigos, que se diziam melhores amigos, não estão aqui. A minha vizinha mudou de casa. O meu avô se foi há dois anos. O guarda-roupas eu precisei dar embora, e agora ele também não está aqui. Não estão os casacos do inverno que não chega. Nem os amores que eu achei que teria aos vinte e tantos anos. Não estão aqui os cachorros que eu desejei adotar, nem o peixe que eu queria chamar de beagle, pra todo mundo amar e não comer. Porque, vocês sabem, todas as pessoas amam beagles. Não estão aqui, também, as chaves da minha casa. Não tem mais, no meu celular, as mensagens que você mandou. O meu antigo emprego não está aqui. Não tem mais os sábados de filme e pipoca. Nem histórias engraçadas antes de dormir.

Olho o relógio: já é tarde. O entregador de pizza não pode vir agora. Não tem comida no armário, não tem nada na geladeira. Os copos estão nas caixas. Os pratos estão nas caixas. Tem caixa em todos os lugares. Eu queria ligar pra alguém e chorar um pouquinho. Eu só queria ficar ali pra saber que tem alguém do lado de lá. Mas o telefone foi vendido hoje de manhã, dentro de uma caixa. Vendemos também a televisão, a mesa de jantar, as cortinas da sala, as cadeiras da varanda, a escrivaninha, o microondas. Quebrei um vaso de flores que íamos vender também: me desequilibrei, encostei na peça de vidro e, de encontro ao chão, ela se partiu ao meio. Juntei seus cacos, os meus cacos e me sentei um pouco.

O trabalho novo eu dispensei no segundo dia. Não tem mais aquela chefe mal educada me dizendo a cada cinco segundos o que fazer, a cada cinco segundos uma nova coisa a se fazer, sem nem proclamar, mesmo que bem baixinho, um “por favor” ou “obrigada”. Não tem mais a Clara, de 4 anos, querendo me levar pra morar na casa de sua boneca pelada. Não tem o Enzo, da mesma idade, segurando a minha mão trinta minutos depois de me conhecer. Nem o Murilo me pedindo colo pra tirar um cochilinho. Não tem os adolescentes do ano passado tentando me enrolar pra ligar música de balada na sala de aula.

O meu pai não está aqui. A minha mãe ainda não pode vir. A minha avó tem trabalhado tanto. O meu tio prepara o casamento que, meu deus, já é em maio. A minha tia têm os filhos, é difícil viajar com crianças, as crianças choram demais, as crianças comem demais, as crianças fazem muito xixi, e elas se sujam, e tem o material da escola, e a natação, e todos esses aniversários de começo de ano. Vinha, até ontem, aquele grupinho da universidade. Mas hoje não. Hoje não estão aqui as minhas amigas do ensino médio, não estão aqui as do cursinho, não estão aqui também as do prézinho nem as do trabalho. O meu melhor amigo não está aqui. Quem sempre esteve ao meu lado parece não estar mais aqui. 

          Agora sou eu, o barulho do ventilador e, às vezes, uma mosca que se mete a besta. Então eu tiro um pouco o pijama, corro até a padaria, digo “bom dia”, compro um inseticida. E volto mais devagar, olhando as escadas da farmácia. Depois entro em casa, jogo no quarto o veneno de insetos e espero lá fora, de nariz tapado. A mosca rodopia atordoada e cai. Sou eu, o barulho do ventilador e, quem sabe, o sono chegando. Sou eu e a solidão. Ninguém mais morando em mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário