A armadura foi tirada da gaveta, limpa e vestida. As garras mais afiadas estão ao meu alcance. Aquela expressão fria de quem não quer se apaixonar tomou conta do meu rosto, mais uma vez.
Ele é um dos homens mais interessantes que já conheci. Poliglota, morou nas cidades que costumo chamar sonhos de consumo. Formado em uma das escolas de gastronomia mais renomadas do estado – senão do país – faz a minha comida, antes não muito boa, parecer um lixo. É divertido e leve, naturalmente refrescante, eu diria, não tem sotaque e gosta de rock. Ele também é irritante; implica o tempo todo com a minha (falta de) organização e com o cabelo liso demais que, às vezes, escapa daquela toca higiênica horrorosa. Sorri como uma criança que acaba de deixar a mãe sem palavras perguntando sobre sexo, e sai cantarolando algo que não consigo entender.
E não, não é atração. Essa palavra (atração) soa tão cafajeste, vocês não acham? E o que estou sentindo não é nada supérfluo, nem chega perto de cafajestagem. Também não pensem que é por beleza, porque nem há tanta beleza assim. Se ele fosse um daqueles homens que mais parecem monumentos gregos de Apolo, haveria milhares de mulheres olhando pro mesmo lugar que eu. E não há, pelo menos parece que não. É bonito sim, mas nada muito notável. Os óculos escondem os olhos miúdos e a dólmã torna o corpo menos desejável. Eu estou encantada por ele conseguir ser tão frio e tão quente, assim, ao mesmo tempo - só isso; tudo isso.
Sinto raiva de mim por pensar tanto em alguém, por deixar que um homem tome conta dos meus pensamentos mais ocultos. Detesto-me por querê-lo aqui mesmo que o meu pijama seja broxante e o cabelo esteja preso em um coque.
Eu estou me apaixonando cada vez mais, e não posso permitir que isso aconteça. É preciso vestir aquele conjunto de defesas não tão metálicas e lutar contra tudo o que me transporta à paixão - possivelmente não correspondida. É preciso afiar a espada e inseri-la em meu próprio coração. Acabar com este ‘amor’ antes que ele acabe comigo.
Não é recíproco, eu sei que não; nós nos conhecemos tão pouco e há tão pouco, é impossível que seja. E não, eu também não quero descobrir se estou errada, porque se não estiver, ninguém além de mim juntará os meus pedaços por aí.
As pessoas me dizem sempre: ‘Atire-se. Você não tem o que perder!’. Mas eu tenho sim, tenho muito que perder. Posso perder a cabeça, o coração, o fígado, e todos os outros órgãos dos quais o amor costuma se apossar. Eu posso perder-lo sem nunca tê-lo tido.
Tão mais fácil afastá-lo do que fazer com que ele chegue mais perto sabe?! O escudo é uma arma usada para proteção, não fere ninguém – ninguém além de mim, pelo menos. É de minha natureza lutar contra aquilo que cativa rápido demais, e vocês bem sabem que não se revolta contra a própria natureza.
É egoísta e covarde não arriscar por esta, talvez, ser só uma história idealizada romanticamente (em tempos assim não tão românticos), eu sei que é. Mas tudo está tão perfeito só no papel. É como um lindo livro que você lê, e que depois procura não ver o filme com receio de que não seja a mesma coisa

' você bem sabe o quanto eu amei esse texto, e o que eu penso a respeito.. né?! *-*
ResponderExcluirAh, essas lutas internas. Muito cansativas, mas extremamente necessárias. E esses sentimentos platônicos que não entendem que não podem existir e insistem em lutar? Ah, e o amor..
ResponderExcluirSão tantos "Ah's" que eu me perco em pensamentos filosóficos. Texto genial.