domingo, 25 de dezembro de 2011

Reticência


            Não começarei este texto com a frase clichê de que o ano se foi rápido demais e eu nem notei. Ah não, isso seria ilusão. Eu notei cada segundo deste 2011 passando. Cada conquista, cada fracasso. Cada nova pessoa que conheci e cada antiga que precisei esquecer. Os caras por quem me apaixonei e os que eu abominei com todas as forças.  Os mínimos, mas não menos importantes detalhes de 360 dias (porque os outros cinco são contagem regressiva) lembrados um a um numa retrospectiva cheia de altos, baixos, uma independência sem tamanho – ainda que tenha sido mais simbólica do que sólida - e muita saudade.

2011 foi um grande ano. Eu acredito que foi. Tem coisas que conquistei aqui e que antes imaginava ser incapaz de conquistar. Os 18 anos que demoraram uns 30 para chegar. O emprego que por ser primeiro não poderia ser melhor. A quase autonomia de morar com a avó ao invés de com o pai. Os salários torrados em livros, roupas, sapatos e presentes, e ninguém para reclamar. A conta de telefone paga por mim – ainda que só por uma vez. A sensação de ser livre, de poder ir e vir dando satisfações porque gostava de dar e não porque era necessário. Eu me permiti sonhar depois de tanto tempo enfiada numa areia movediça que me arrastava pra longe do que sempre almejei. Pude ser o que eu sou e descobrir quem não quero ser.

E, agora, ao contrário da maioria das pessoas, eu não preciso mais recomeçar. Eu não quero. Recomecei uma vez e é só essa a nossa necessidade. Se desfaçam de listas, ondas, sementes de romã, roupas brancas e douradas. A única coisa de que realmente precisamos é coragem para seguir os planos que de tão bem organizados em papel acabaram ficando presos na memória. É preciso arriscar e acreditar que vai dar certo. Nós fazemos o ano bom ou ruim. É uma escolha. Eu escolhi recomeçar em 2011. Escolhi, e não escrevi. Não esperei a vida me mostrar que estava certa ou errada, não contei com a sorte e muito menos com superstições. Decidi que seria, assim, feliz. E foi.  Acreditar funciona mais do que todas as mandingas nas quais ficamos presos.

Junte todas as forças que ainda lhe restam - depois de tantos recomeços mal feitos e frustrantes - e faça de 2012 um grande ano. Eu farei, sem recomeçar. Pela primeira vez vou continuar. Finalizar algumas coisas que ficaram pendentes, por em prática todos os sonhos que ficaram um pouco perdidos, viajar, me mudar, de novo, quem sabe. Vou proceder, conquistar, continuar tirando aprendizado daquilo que não dá certo. Carregarei um pouco de 2011 para 2012 e farei dele um ano ainda maior que o anterior. Vou continuar do jeito certo depois de tanto tempo recomeçando do errado. Usar reticência depois de anos pondo pontos finais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Vilania


Eles são malvados, trapaceiros, mentirosos, manipuladores e, na maioria das vezes, também são inteligentes e elegantes. Você encontra exceções em filmes infantis e comédias, claro; mas nos clássicos e séries dramáticas eles são exatamente assim. Podem perder a guerra, mas vencem um bocado de batalhas. São prepotentes, confiantes e solitários. Loucos de pedra esculpida e tudo mais. Não medem esforços para conseguir o que querem.

Confesso: sou fascinada por vilões. Adoro sorvete, chá gelado, temperaturas baixas. Vingança, dizem por aí, é um prato que se come frio. Eu te amo, mas não vou te poupar, sinto muito. Você prometeu que me levaria para ver aquele filme e não levou. Você não me levou e eu não questionei a causa, mas sei exatamente qual foi. As conseqüências? Serão sofridas, óbvio. Já estão sendo, se é que você me entende. Nada muito sério, eu diria. Apenas indiferença.

Você é magro demais, amado demais, e eu odeio pessoas assim. Nós te odiamos. Os vilões odeiam tudo aquilo que soa falso. Gente que distribui amor como se vivesse, constantemente, em um comercial de margarina, que sorri e usa maquiagem como se o ser humano precisasse ser imutável, que fala alto demais fingindo simpatia e não faz sexo fora da cama, soa falso. Você é assim, a maioria das pessoas é. Por isso, então, a solidão de outrora nos tomou e se tornou amiga intima. Mas, de certa forma, antes ela do que você.

O bem sempre vence o mal, eu sei. É em felizes para sempre que terminam os contos de fadas os quais ouço desde pequena. A minha maldade é apenas válvula de escape num mundo dominado pela mentira de gente que se diz boazinha e apunhala pelas costas. Meu lado perverso é protesto contra estes sorrisos que distribuem ao mesmo tempo em que desejam o mal. Minha malignidade vem do cansaço que sinto dessa simpatia aleivosa partilhada por vocês. Prefiro a sinceridade de me jogar na cara o que não suportas em mim, do que fingir que somos amigos. Isso sim é maldade.

Tenho um pezinho no lado negro e não escondo de ninguém. Não depois deste texto, pelo menos. Mas, mil vezes melhor ter um pé na maldade e usufruir deste mal, do que fingir o bem e decepcionar. Quem me conhece, conhece de imediato o meu lado ruim e sabe exatamente o que esperar de mim. Mas e você? Você que se faz de benévolo pra conquistar, mas quebra em pedaços irreparáveis a confiança de alguém com uma fofoca? Bem pior, eu diria. É fácil controlar a enfermidade quando se tem o remédio certo. É assim com a maldade: se você sabe que ela existe em mim, saberás também como evitá-la.

Portanto, preocupe-se mais com quem está ao seu lado sorrindo o tempo inteiro e se fazendo de príncipe encantado, ou princesa em apuros, que seja. Isso sim é perigoso. É doença não diagnosticada e, consequentemente, não tem como impedir. Impossível lutar contra um inimigo que você nem sabe que existe. Inimigo Oculto.

Por isso, então, me mostro, mostro-me vilã por pior que isso seja, pois só merece o meu melhor quem o meu pior aceita.  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Não mais


Quer saber, pode ficar com ela. Isso, vai, se apaixona por aquela raquítica sem sal, beija aquela boca infestada de brilho e olha aqueles olhos já borrados de tanto delineador. Eu não me importo. Definitivamente, não me importo nem um pouco. Vocês se merecem. São igualmente desprovidos de assuntos. Trabalho. É só disso que vão falar: trabalho.

Tudo será controlado por ela. Aquele programa tosco que você assiste todos os domingos de noite e tem mais mulheres seminuas do que reportagens engraçadas, por exemplo, não será mais conveniente. Ele não é bom o bastante para a princesinha de cabelo ralo. O sexo será regrado para que a maquiagem fique intacta. As comidas serão verdes e somente verdes, todos os dias. O seu cabelo, antes desgrenhado, precisará estar constantemente encharcado de gel e penteado para o lado esquerdo – sincronizado com a franja da moçoila, claro.

O que? É disso que você gosta, não é? É por isso que você escolheu a ela e não a mim. Não é? Pois bem, será assim. Porque ao contrário de mim ela depila as pernas todos os dias, passa batom a cada quinze minutos - e faz questão de te manter bem longe dos lábios melados pela coloração vermelho gritante -, come pouco e não fala de boca cheia, diz “caramba” ao invés de “caralho” e anda de salto-alto como se estivesse flutuando. Porque diferente de mim ela é extremamente educada e nunca ri alto. Porque ela escuta música clássica enquanto se prepara para academia e eu ouço rock pesado comendo pipoca de microondas. Não é?

Você escolheu e eu estou apenas descrevendo como serão os dias ao lado da boneca de porcelana - fajuta, só pra constar. Ela irá supervisionar todos os seus passos, roupas, cada fio da sua cabeleira que se encontra fora do padrão social do qual ela faz parte. Proibirá vídeo games e filmes pornográficos. Falará com a sua mãe sobre casamento e filhos, e tentará te fazer desistir de todos aqueles países maravilhosos cujos quais pretendia conhecer.

Será assim. Assim serão todos os dias. E vai virar rotina. E depois rotinas das bem chatas. Sim, é exatamente isso que ela é: uma chata. De galocha, eu diria. Galocha número 35 – que é pra não caber direito -, com pedra dentro e sujeira de cachorro na sola. E digo galocha número 35 porque aperta e gruda no pé, e pedra porque irrita profundamente, e sujeira de cachorro por que... Por que... Ah, porque ela é o tipo de mulher que os seus amigos chamam de cocô.

Mas vai lá, fica com ela, perde todo o seu tempo com uma patricinha genérica que a principio parece a namorada ideal, mas que dará um chilique dos grandes caso você saia com o camisão do time para beber com os amigos. Fique com a garota do cabelo arrumado milimetricamente (e ralo, repito) que te julgará por aquilo que você aparenta e não pelo que realmente é.

E não, eu não estou com ciúmes. Estou apenas prevendo como será a vida de alguém tão inconstante ao lado da rainha do controle. Ainda há tempo para que possas arrebentar todas as cordas que envolvem o seu corpo e te transformam, aos poucos, em uma marionete barata. Mas, quer saber? Não arrebente não, sério, vai lá, fica com ela. Fica com a outra. Eu não me importo mais. Assinei a sua carta de alforria, ou melhor, a minha. Quero mais é que vocês se explodam. E, depois de tudo, nenhum fragmento desta explosão será capaz de me atingir. Não mais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Deveria ser contra a lei


           Você anda me fazendo um mal tão grande. Deveria ser proibido fazer mal a alguém, assim, como você anda fazendo comigo, mesmo sem saber. Mal desconhecido pra você, inimigo intimo pra mim. Deveria ser proibido, é só isso que sei.

Eu odeio ficar perto de você e perceber que os barulhos do mundo inteiro desapareçam e a única coisa que eu, agora, sou capaz de ouvir é a sua voz ecoando no silêncio de um lugar o qual, obrigado pelos meus pensamentos, se calou.

Odeio que todos os membros e órgãos do meu corpo se descontrolem com o calor do teu e comecem a tremer como se sentissem frio no deserto do Saara. Tenho aversão a mim mesma por pensar tanto e tantas vezes em alguém que ainda não diminui o meu nome de Daniele pra Dani, que faz careta quando me vê – como se eu fosse algum tipo de criança chata no banco de trás do carro -, alguém pra quem eu escrevo textos, que procuro numa balada qualquer, que eu imagino me beijando e conversando comigo sobre como a grama anda castigada pelo frio.

Você tem ideia da infinidade de diálogos para os quais andei treinando caso você viesse falar comigo? Eu ando falando sozinha na rua. Você tem idéia do quão maluco isso soa? Muito. Mas é a mais pura verdade. Eu fico formulando frases e perguntas que você nem me fez - e que talvez nem faça -, mas que eu gosto de acreditar que fará. Eu preciso estar preparada e parecer misteriosa o bastante para não deixar você ir. Então, gesticulo, falo, brigo sozinha, eu interpreto o meu e o seu papel neste teatro infantil criado pela minha fértil imaginação enquanto você não vem.

Eu te odeio tanto por me fazer parecer ainda mais maluca do que realmente sou. Minha insanidade já era bastante sem você aqui, sabia? Pra que mais? Você precisa parar com essa mania de me amar e me odiar em um mesmo dia, em um mesmo instante. Eu sei lidar com oscilações de humor, mas de sentimentos não, isso não, seria demais. Você precisa me dizer logo se sou mesmo tão intolerável ou se você, assim como eu, tem medo de amar.

Se você não me suporta, tudo bem, eu te odeio mesmo. Odeio cada centímetro excitante do teu corpo e cada batida rápida que o meu desatinado coração dá por sua causa. Odeio que as palavras erradas – e digo erradas porque não foram as do roteiro que eu meticulosamente escrevi nas entrelinhas do meu cérebro e sai dizendo, sozinha, pela rua - saiam da minha boca e eu pareça um tanto quanto rude quando estamos juntos. Odeio você e continuarei a odiar se me achas mesmo tão insuportável.

Mas, se por acaso, se por um acaso pequeno que seja, exista alguma chance de ser só medo, ou jeito, sei lá, de amar, me diz. Se houver uma chance em um milhão de você gostar de mim, me diz. E logo. Pode gritar pra todo mundo ouvir, ou falar baixinho só pra nós dois. Você escolhe. Eu não faço questão de como vai ser, só preciso saber.

Não saber anda me fazendo mal. Essa dúvida que me obriga a odiar - cada olhar descontraído teu, cada sorriso enigmático, cada palavra - anda me fazendo mal. E, sabe, isso deveria ser proibido. Deveria ser ilegal fazer alguém sofrer. Não saber, não dizer, tudo isso que mata a gente por dentro deveria ser contra a lei. É só isso que eu sei.