quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Não mais


Quer saber, pode ficar com ela. Isso, vai, se apaixona por aquela raquítica sem sal, beija aquela boca infestada de brilho e olha aqueles olhos já borrados de tanto delineador. Eu não me importo. Definitivamente, não me importo nem um pouco. Vocês se merecem. São igualmente desprovidos de assuntos. Trabalho. É só disso que vão falar: trabalho.

Tudo será controlado por ela. Aquele programa tosco que você assiste todos os domingos de noite e tem mais mulheres seminuas do que reportagens engraçadas, por exemplo, não será mais conveniente. Ele não é bom o bastante para a princesinha de cabelo ralo. O sexo será regrado para que a maquiagem fique intacta. As comidas serão verdes e somente verdes, todos os dias. O seu cabelo, antes desgrenhado, precisará estar constantemente encharcado de gel e penteado para o lado esquerdo – sincronizado com a franja da moçoila, claro.

O que? É disso que você gosta, não é? É por isso que você escolheu a ela e não a mim. Não é? Pois bem, será assim. Porque ao contrário de mim ela depila as pernas todos os dias, passa batom a cada quinze minutos - e faz questão de te manter bem longe dos lábios melados pela coloração vermelho gritante -, come pouco e não fala de boca cheia, diz “caramba” ao invés de “caralho” e anda de salto-alto como se estivesse flutuando. Porque diferente de mim ela é extremamente educada e nunca ri alto. Porque ela escuta música clássica enquanto se prepara para academia e eu ouço rock pesado comendo pipoca de microondas. Não é?

Você escolheu e eu estou apenas descrevendo como serão os dias ao lado da boneca de porcelana - fajuta, só pra constar. Ela irá supervisionar todos os seus passos, roupas, cada fio da sua cabeleira que se encontra fora do padrão social do qual ela faz parte. Proibirá vídeo games e filmes pornográficos. Falará com a sua mãe sobre casamento e filhos, e tentará te fazer desistir de todos aqueles países maravilhosos cujos quais pretendia conhecer.

Será assim. Assim serão todos os dias. E vai virar rotina. E depois rotinas das bem chatas. Sim, é exatamente isso que ela é: uma chata. De galocha, eu diria. Galocha número 35 – que é pra não caber direito -, com pedra dentro e sujeira de cachorro na sola. E digo galocha número 35 porque aperta e gruda no pé, e pedra porque irrita profundamente, e sujeira de cachorro por que... Por que... Ah, porque ela é o tipo de mulher que os seus amigos chamam de cocô.

Mas vai lá, fica com ela, perde todo o seu tempo com uma patricinha genérica que a principio parece a namorada ideal, mas que dará um chilique dos grandes caso você saia com o camisão do time para beber com os amigos. Fique com a garota do cabelo arrumado milimetricamente (e ralo, repito) que te julgará por aquilo que você aparenta e não pelo que realmente é.

E não, eu não estou com ciúmes. Estou apenas prevendo como será a vida de alguém tão inconstante ao lado da rainha do controle. Ainda há tempo para que possas arrebentar todas as cordas que envolvem o seu corpo e te transformam, aos poucos, em uma marionete barata. Mas, quer saber? Não arrebente não, sério, vai lá, fica com ela. Fica com a outra. Eu não me importo mais. Assinei a sua carta de alforria, ou melhor, a minha. Quero mais é que vocês se explodam. E, depois de tudo, nenhum fragmento desta explosão será capaz de me atingir. Não mais.

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