quarta-feira, 18 de abril de 2012

Gato e rato


           Eu vou falar com você hoje, sem falta. Vou te dizer, na hora do almoço mesmo, todas as verdades que há tempos vem me matando aqui por dentro, vou gritar o quanto gosto dos seus óculos redondinhos e do seu riso debochado, cantarei uma música que se pareça conosco, talvez. Aquela, do Capital Inicial, sobre não ter escolha de certo jogo. Sabe? Não, pensando bem, eu não vou cantar porque sou péssima fazendo isso. Tão ruim em público quando debaixo do chuveiro. Bem pior em público, pra ser sincera. Não vou cantar porque gosto demais de você. Poderia também fazer um desenho de nós dois, mas meus desenhos são estranhos, então desisto. Vou só segurar o seu rosto e dizer com todas as letras que restaram em meu vocabulário o quão importante você é e como sou triste quando não te vejo.  Vou confessar todas as vezes que me descabelei de ciúmes vendo seus comentários em fotos de desconhecidas minhas. Pedir-te-ei para apagar aqueles recados aleatórios que diziam “saudades de você”, mas que eu, por várias e várias vezes, interpretei como um “te quero de novo”, e fiquei lá, lendo e relendo, meio melancólica, com lágrimas nos olhos até, e uma raiva das remetentes tanto quanto de mim mesma.

           Mesmo. Vou te procurar daqui a pouquinho, te chamar em um canto, entre aquelas árvores afastadas do nosso castelo, e contar porque ando tão chata. Olha, eu queria que você gostasse de mim e sou absurdamente chata quando quero que alguém goste de mim. E eu te quero tanto, desesperadamente. Está vendo o meu desespero? Eu estou. Estou cansada desse nosso jogo de gato e rato. Chega, não quero mais brincar, vamos parar logo com isso e dizer a Deus e o mundo que nos gostamos. Nada de orgulho nem competição, daremos o braço a torcer juntos e, prometo, ninguém vai rir. Apenas nós dois vamos, de tudo o que passamos, de como foi difícil confessar que todo aquele ódio era, na verdade, um amor muito bem disfarçado. Nós vamos rir juntos, até que enfim.

           Direi, agora, que estou exausta, que não vou mais ficar horas e horas pensando em um jeito de te esnobar, ou maltratar. Vou me despir por você, pra você, tirar todas estas estacas que enfiei sem dó no seu e no meu coração. Eu não quero mais ser a garota que você chama de baixinha brava. Quero ser carinhosa ao invés de brava. Quero um abraço. Um beijo demorado. Sem armadura, sem escudo, sem espada. Nus, sem máscaras, eu e você, pela primeira vez.

           Espere, só mais uns instantes, por favor. É que a coragem de outrora já não é mais presente. Eu não posso te dizer todas essas coisas. Afinal, o que é que vamos ser se deixarmos de ser tudo aquilo que sempre fomos? Não, você não merece. Olha só pra nós. Nem se quer existe nós. É meu aniversário e você prefere fingir que não existo a dar o braço a torcer e me presentear com um abraço. Eu não te falei ‘parabéns’ no seu dia porque não quis parecer interessada, mas passei o meu atualizando aquele e-mail - quase inativo que, por sinal, só você tem – esperando felicitações suas. Eu passei na frente daquela churrascaria e esqueci-me de paquerar o garçom alto e bonitão porque estava esperando você aparecer.  Idiota.

           Você é um idiota e não merece me ouvir cantar, ou ver os meus desenhos estranhos, ou ler meus textos quase secretos com palavras mais do que confusas. Você não merece nem esses jogos idiotas que nós inventamos para medir quem é mais durão e resistente ao outro. Gato e rato que nada, eu me cansei. E não, não vou dizer. Irei apenas me transformar em gato e comer o rato, que é você, porque, sabe, pra não morrer de amor a gente mata. E você não merece viver. Não dentro de mim.

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