O amor chega pra todo mundo, agora eu sei. Durante muito tempo pensei que não, mas hoje prefiro acreditar que sim. Aquele casal de velhinhos que entrou no restaurante, pouco depois de eu me sentar, de mãos dadas, rindo a toa e com chapéus que protegem do sol me fez querer acreditar que sim. Se mais tarde ele vai embora, paciência, mas que chega, chega.
O meu amor andou ensaiando sua entrada, mas acredito que ainda não deu as caras por inteiro, só metades, perfil, não ele de verdade, abrindo as cortinas e se apresentando como a atração principal. Não, ele de verdade não.
Quando o amor chegar aqui, em mim, vai vestir calça jeans surrada e camisa de botão, vai estar de chinelo e com o cabelo bagunçado. Talvez ele seja um hóspede do castelo enquanto eu a recepção. Será bilíngüe, tri, poliglota, quem sabe. Vai gostar mais do espanhol e ter uma mãe incrível. O amor vai ter uma mãe que liga todo sábado e manda e-mails dia sim e dia não. Ela gostará de mim logo de cara e fará um bolo pra nós dois a cada visita. O pai, mais distante, mandará um cartão postal com breves felicitações. O amor vai ser engraçado, mas sem apelação, vai fazer piadas sobre política cujas quais eu entenda. Ele vai gostar de abraços tanto quanto eu, e de frio, e coberta, e cama quentinha, e música boa.
Quando o amor me encontrar estará com um livro nas mãos, de Caio Fernando Abreu, Gabito Nunes, ou qualquer outro autor inteligente e intenso. O marca página estará pouco depois da metade e as folhas meio amareladas me farão pensar que aquele é o seu preferido, o que ele leu umas cinco vezes, pelo menos, e que têm frases sublinhadas com marca texto por todo lado. Vai sorrir. Não o livro, o amor. O amor vai sorrir e me dizer bom dia, todo dia. Vai negar qualquer refeição que eu possa vir a preparar porque, saberá, o meu talento culinário é ficar longe das panelas. Além do mais, ele vai saber cozinhar, de mão cheia e vazia. Pode não ter nada na geladeira que lá estará o amor, inventando algo com arroz e vegetais. Será bom. De bom coração. Vai apoiar a maioria dos meus chiliques contra a sociedade desigual em que vivemos e enxugará as minhas lágrimas quando o mundo resolver desabar aos meus pés. Vai me tascar um beijo demorado e cheio de vontade quando eu, de TPM e descontrolada, resolver ofendê-lo sem argumentos plausíveis. Gostará de mim, assim, diferente do mundo, meio egoísta, metida a inventar teorias nas quais apenas eu acredito. O amor vai dizer verdades que, às vezes, não quero ouvir, mas nunca, jamais, irá mentir. Vai ser de verdade.
Quando o amor vier, será de mansinho, porque já terá especulado com os meus amigos sobre os medos que vivem em mim. Ele vai demorar porque sabe que se chegar de repente, assim, feito um furacão, eu, desconfiada que só, irei correr. E ele não quer correr atrás de mim, quer ser calmaria nesse meu vulcão, porto seguro em vez de canoa furada. Não quer ser caçador, não, apenas amor.
O amor vai chegar aqui, em mim, no momento certo, e eu estarei de braços abertos, sem armadura, sem defesa, sem ataque, porque saberei: é ele e sempre vai ser.

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