Eu viajo muito. Não é muito de quantidade, não, é muito de distância, e tempo. Muito de tempo mesmo. Quando escolhi morar longe dos meus pais não pensei nas possíveis visitas. Se tivesse pensado teria ficado mais perto deles, ou ido para um lugar onde os ônibus existem, provavelmente. Mas eu queria frio e montanha: coisas que são quase inexistentes ao redor da minha antiga cidade.
Viajo umas quatro vezes por ano, oito, pra ser mais exata, contando ida e volta. Se você parar pra pensar, não é muito em quantidade mesmo, não. Porém em tempo, meu amigo, é demais. Doze horas, contando do momento exato em que saiu da atual cidade ao exato em que chego à antiga. Contando ida e volta, de novo, 24 horas. Um dia. Sei lá eu quantos milhões de minutos em uma única viagem. É tempo que não acaba mais, como diz minha avó.
Mas, apesar do muito tempo entre plataformas e mais plataformas, eu gosto dessa vida dividida entre lá e cá, gosto daqueles banquinhos, lado a lado, das rodoviárias, onde uma senhora desconhecida puxa assunto comigo para, segundo ela, me proteger ao despistar o cara careca que pode ser um ex-presidiário ou então um bêbado sem vergonha de olho na minha “bolsinha colorida”. Bolsinha colorida é minha bolsa de mão que de inha não tem nada, mas como ela é uma senhorinha minha bolsa acaba que por bolsinha, assim, no diminutivo também.
Eu gosto dos encontros e despedias que acontecem naquele lugar abarrotado de malas. Outro dia, por exemplo, vi uma garota meio apreensiva. Achei que estivesse passando mal, pensei em oferecer uma água, sei lá. Eu sou a única idiota a oferecer “uma água” pra alguém apreensivo? Que bom. Que bom que não ofereci nada, porque a suposta apreensão dela era das mais bonitas que já vi: a da chegada. Dentro de um ônibus vermelho estava o seu namorado. O dela, claro. Daquele abraço apertado, de reencontro, onde dois se transformam em um e alguém no mundo morre de amor. Naquele momento, eu era alguém no mundo morrendo de amor. Era saudade, não apreensão. Era bonito, bonito o bastante pra me fazer acreditar em romance de lonjuras. Pra me fazer acreditar.
Os meus remédios já estão em mãos. Tenho vinte minutos para me dopar e flutuar tranqüila na poltrona apertada e dividida, balançando de um lado para o outro entre curvas e pedágios. Tomo remédios para dormir sempre que viajo, para não vomitar no companheiro que se sentar perto de mim. Faço isso desde pequena e, segundo minha mãe, já virou mania e passou da hora de acabar. Às vezes, e só em raras vezes, acho que ela tem razão, mas, ainda assim, prefiro não arriscar. Entro no ônibus com um pouco de sono e, por isso, já me ajeito na poltrona que, conversando com a minha tia, aprendi que precisa ficar entre a cinco e a dezesseis. Antes da cinco sentam-se as senhoras e depois da dezesseis os tarados, disse-me ela. Senhoras adoram conversar e quase nunca deixam você dormir, tarados... Bom, eu não preciso dizer o que querem os tarados.
Minha poltrona é a catorze, mas me sento na treze porque prefiro janela. Assim que as luzes se apagam um garoto se senta ao meu lado. Não consigo ver nitidamente os traços de seu rosto, mas sei que ele é bonito. Sinto sua respiração bem perto de mim e percebo que está de blazer e camisa xadrez. Ele me diz um oi animado, eu, dopada, sussurro qualquer idiotice indecifrável. Durmo, um pouco, só até perceber que o meu sono o incomoda. Abro os olhos, vejo um notebook ligado, viro pro lado, durmo de novo. O garoto ainda se mexe demais, talvez ele esteja apreensivo. Nada de água, Dani, você nem tem água. Por favor, diga qualquer coisa que não seja “uma água?”. Ele interrompe os meus pensamentos pedindo desculpas por não sossegar e confessa que raramente consegue dormir em ônibus. Penso em oferecer um dos meus remédios, mas é viável tentar parecer normal pelo menos uma vez na vida, então me calo. Ele é tão bonito que, nesse instante, talvez, seja melhor ficar acordada. Nós embarcamos em uma conversa sussurrada entre os suspiros dos outros passageiros que dormem. É a primeira vez que estou (quase) deitada, no escuro, ao lado de um homem. O nome do homem é Diogo e descubro, então, que gosto de Diogo. Ele é mais novo, mas não parece. Se saíssemos juntos, por aí, de mãos dadas, ninguém perceberia. Achariam, provavelmente, que ele é um ou dois anos mais velho, creio eu.
O meu irmão tinha um amigo imaginário que se chamava Diogo. Tenho vontade de telefonar pra ele porque, de repente, penso que possa estar imaginando o seu amigo imaginário. Mas não ligo. Não ligo porque, sem querer, roço minha mão no braço do meu companheiro de poltrona e, ainda que tenha uma imaginação fértil o bastante para roubar o amigo invisível de alguém, seria incapaz de materializá-lo ali. O Diogo existe mesmo. O meu, claro, não o do meu irmão. O meu, que é de verdade, e é divertido, que estuda todo santo dia, horas e horas a fio, porque quer entrar na aeronáutica. O Diogo que eu acabei de conhecer e que de tão encantador se tornou meu em minutos. Pode ser que ele tenha contado um monte de mentiras, mentido o seu nome - como eu havia feito em várias outras vezes - e a sua cidade natal, mas ali, naquela hora, parecia tão real que nem me importei com nada. O Diogo que podia morar mais perto e viajar sempre comigo, transformando o muito tempo em outro menos cansativo, foi embora antes de mim. Foi o fim. O fim daquela viagem pra ele, de nós dois pra mim. Eu queria encontrá-lo, de novo, qualquer dia, como o casal que assisti se transformar em um no abraço de reencontro, mas depois de vê-lo descer daquele ônibus, sabia: era a primeira e a última vez.
Sabe, Diogo, eu te escrevi um texto e isso quer dizer que você marcou minha vida, de alguma forma mínima que seja. Escrevi-te estas palavras esperando que, independentemente de onde estejas, se lembre de mim, e conte, também, a nossa história por aí, pra um próximo companheiro de poltrona, quem sabe.

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