domingo, 24 de junho de 2012

Intacto


Eu seria incapaz de imaginar que o encontraria naquele lugar. Não que a gente se conhecesse antes, ou que eu já o tivesse visto alguma vez, mas, eu sei, foi ele a quem andei procurando nos romances espanhóis e filmes americanos sobre amor. Estranho encontrá-lo, antes presente apenas em sonhos, a pouco mais de duas horas de viagem da minha cidade fria e sei lá eu quantos mil quilômetros de distância da sua cidade quente e carnavalesca.  Vê-lo, assim, de verdade, tão perto e nítido, ainda que com a quase certeza de que só existiria em minha imaginação, foi no mínimo subversivo. Uma perturbação excitante de quem tem a sua frente o homem, literalmente, dos sonhos, o príncipe encantado que está mais para desencantado por fumar e tomar café a cada trinta minutos e ter aquele sotaque cujo qual eu sempre disse odiar. Tem defeitos em evidência, não esconde, mas, não importa, em nenhum momento imaginei-o perfeito.  Era exatamente desse jeito que ele aparecia todas as noites lá em casa, de calça Sarouel, camiseta de algodão, tênis surrado, barba por fazer, com uma cor de pele que não defino e aquele chapéu que, independente de quantas vezes me digam, nunca vou lembrar o nome. Ele parece o meu ator preferido, versátil, que se transforma em qualquer coisa quando está em cena, lembra-o sem fantasias e esse é um dos motivos pelo qual querê-lo se torna tão fascinante. Gosto do seu sorriso idílico, dos olhos expressivos e, ao mesmo tempo, insondáveis, das mãos grandes, do queixo bem desenhado. Difícil descrever algo de que eu não goste nele. Talvez nem exista. Resolvi, ali, que iria conhecê-lo o suficiente para não descobrir.

Estou, até agora, tentando entender o que nos aconteceu. Lembro de estar voltando para rodoviária depois da reunião, a chuva caia com força e em grande quantidade, os pingos destruíram o meu guarda-chuva em apenas duas quadras de uso e descobri, naquele instante, que tinha sido passada para trás. A mulher que o vendeu para mim, dizendo que era mais resistente que o antigo, equivocou-se, ou mentiu mesmo, vai saber. Ainda que em pedaços, persisti em segurá-lo acima da cabeça e continuar caminhando.  Ouvi uma buzina e o farol de um carro sendo direcionado em meu rosto. Não consegui definir a cor, o modelo ou o motorista a minha frente. Fiquei com medo, mas encarei, assim mesmo, alguém que mal enxergava. Pensei em sair correndo e gritar fogo. Minha avó sempre diz que pedir socorro pode ser em vão.  “Grite ‘fogo, fogo!’ e alguém vai te ajudar”, repete ela sempre que saiu de casa. Segundo a minha avó, as pessoas acham que os gritos de socorro só acontecem quando há brigas e quase ninguém se arrisca a apartar uma dessas. Quanto ao fogo, “todo mundo é meio metido a bombeiro”, diz ela. Como sempre, fiquei intacta esperando alguma reação do meu suposto seqüestrador. Aos poucos, a intensidade dos faróis foi abaixada e pude, então, notar que era ele. O homem dos meus sonhos estava com a cabeça para fora do vidro oferecendo-me uma carona. Não, obrigada, não quero atrapalhar. Em pensamento disse isso, mas fiquei tão apavorada com o susto que levara que só consegui assinalar negativamente com a cabeça. Ele insistiu, foi educado, fez questão da minha presença. Eu estava atônita, molhada e, então, pela primeira vez, não pensei em nada e entrei em seu carro. Podia ter pedido desculpas por molhar o banco de seu automóvel, mas não o fiz, apenas disse para onde estava indo. Depois de alguns segundos em silêncio perguntei as horas e ao ouvir sua resposta me lembrei de que os ônibus demorariam a passar. “Não vamos chegar lá antes disso”. É tão longe assim? “Um pouco”. Eu disse que não queria atrapalhar, me ofereci para descer do carro, mas ele não deixou.  “Está escuro, chovendo e é perigoso. Dá pra colaborar?” Olhei­-o seriamente e não respondi. “Você está bem?” Você está? “Estaria melhor se você não respondesse minhas perguntas com outras perguntas”. Soltei um riso doce e sem som. “Você não precisa se preocupar”. Eu sei, eu sei.

Sinceramente, não sei, mas digo que sim pra tentar me convencer. Se ele soubesse de todos os sonhos, de que estava aqui, em minha mente, todo esse tempo, antes mesmo de saber da minha existência, provavelmente, não me traria pra dentro do seu carro. Ele interrompe meus pensamentos e diz o meu nome. Ele sabe o meu nome? Obvio que sabe. Eu mesma o disse, naquela apresentação estúpida. Mordo os lábios tentando parecer sexy. Durante toda a minha vida, as tentativas de parecer assim foram em vão, mas, pelo jeito como ele me olha, acredito que esta pode estar dando certo. “Preciso ir ao banheiro”. Não dá pra esperar chegar até a rodoviária? “Tomei café demais. Já volto.” Ele estaciona o carro ao lado de um bar caindo aos pedaços, pelo que consigo ver, através do vidro meio embaçado por conta da chuva, não tem mais de dois homens lá dentro. Ele volta em pouco mais de dez minutos, entra no carro e se senta meio de lado, tentando ficar de frente para o banco do passageiro, onde eu estou. Olhamo-nos por alguns segundo e, então, passo a mão em seu cabelo molhado. Ele se aproxima de mim, coloca uma das mãos na minha perna, puxa-me pelos cabelos com a outra e me beija. O beijo é demorado e, diferente de todos os outros que já recebi, tem desejo sem pressa. Naquela hora, nenhum dos meus atos (antes inteiramente racionais) fazem sentido. Esqueci os vestibulares que andam fritando o meu cérebro, as amigas me pedindo para experimentar o sexo, os meninos da mesma idade que, a meu ver, são tão desinteressantes. Perco a noção de tempo, depois não ouço mais a chuva e então me esqueço de respirar. Afasto-o aos poucos e permaneço de olhos fechados. “Desculpe-me” Pelo que? Abro os olhos. Ele me observa confuso e não responde. Quando pensa em abrir a boca para falar algo, interrompo-o dizendo que posso me atrasar. Sem entender, se ajeita no banco, assim como eu, e recomeça o trajeto.
             
             Ao chegar à rodoviária, olho-o profundamente, como quem se despede sem dizer uma única palavra. “Você tem olhos lindos”. Continuo encarando­­-o sem abrir a boca. Ele me puxa pra perto e, mais uma vez, me beija. Seus lábios são macios e tem um gosto bom, mas, agora, o beijo é de despedida e tem em sua essência um pouco de desespero. Nós não vamos mais nos ver e, assim como eu, ele sabe disso. Não queremos dizer um para o outro que seja lá o tivemos durou só algumas horas, então nos beijamos assim, como quem se despede e diz que em sonhos, longe das explicações, da vida real, do dia-a-dia, tudo continua intacto. 

            Escolhi, escolhemos talvez, naquele dia, naquela chuva, naquele carro, manter tudo guardado ao invés de soltar aos quatro ventos e, quem sabe mais tarde, precisar esquecer.

domingo, 17 de junho de 2012

Que sonha



 Eu não sei se sinto pena ou inveja de você, sabe? Do fundo desse meu coração cercado por muros altíssimos e sem pedrinhas para escalar, não sei. Apenas digo que você é incrível, com toda a convicção do mundo, independente do que eu sinta. Do fundo desse meu coração, também meio perdido e sem vocação nenhuma para amar, que não sabe se te inveja ou morre de dó, és incrível. Você, minha linda, acredita e poucas pessoas ainda acreditam, assim, desse jeito. Acreditam desacreditando, querem crer que sim, mas, na maioria das vezes, pensam que não. E é tudo em vão. Você não; acredita de verdade, verdade verdadeira, como diz meu jasmim, a flor lá do jardim que faz agora quatro anos. Seus olhos brilham, menina, e eu nunca hei de ver olho tão brilhante quanto o seu. É triste que seja assim tão raro, mas fazer o que?

Às vezes tenho vontade de ir até o seu casulo e chacoalhar-te, dizer que o mundo não é de quem tem olho que brilha e acredita em estrela cadente, não. O mundo é dos realistas e você precisa acordar. Garota besta, pare já de sonhar! Quero segurar o teu rosto e trazê-la de volta para essa terra maldita onde criança sente dor na barriga por só comer fubá com sal. Eu tenho dó de você, menina, tão absorta em sonhos malucos, achando que a vida pode ser bonita e que os desejos estão a um passo do céu.  O céu fica distante, sua boba, fica só a um passo daqui não. É mais, bem mais. Larga toda essa bobeira de acreditar e vai dormir para poder procurar emprego com a cara boa amanhã, vai. Larga todos estes teus sonhos porque o céu está a passos incontáveis de nós, não só um. Tu não chegas até lá nessa vida, não. Larga tudo e vai comprar pão que o ronco da barriga não espera.  Queria te acordar, minha querida, pra viver de verdade ainda que doa. Sinto pena de você, acreditando que vai dar tudo certo, que existe amor eterno, que o mundo pode ser melhor. Tenho medo que ele (o mundo, ou o amor, quem sabe) te mostre as garras, um dia, e te machuque. Tenho dó de você, minha linda. Ou inveja, talvez.

Tenho inveja porque, de certo modo, queria ter um pouco de ti em mim. Queria que meus olhos brilhassem e que os sonhos, também meus, parecessem tão próximos e reais quanto os teus, que estão no céu. Queria eu pensar que o céu é só a um passo dessa terra de gigantes e que os gigantes, por sua vez, têm coração. Seria tão mais fácil ser assim, como você. Eu seria tão mais encantadora se me parecesse, um pouco que seja, contigo. Vem, menina, senta aqui do meu lado, me ensina a sonhar. Ensina-me a sorrir para os desconhecidos e fingir que a miséria tem fim. Faz-me pensar que todos têm um coração sem muro, que não há maldade nesse mundo e, se quisermos, podemos voar. Deixa-me mais leve, tira de mim toda essa descrença de gente, me faz te amar. Por favor, por tudo o que há de mais sagrado: faz-me te amar. Amar alguém. Convence-me que vale a pena acreditar, assim, como você acha que vale. Quero pensar que comida é o de menos quando o amor reina. Eu ando tão cansada dessa vida de quem cresceu cedo demais e perdeu tempo de tudo. Ando tão infeliz por não querer sorrir nem pro espelho. Então, vem menina, ensina-me a sonhar bonito, trás de volta aquela espera de príncipe encantado que nunca mais tive; aqueles dedinhos cruzados sempre que uma coisa nova está por vir; a busca incansável por um trevo de quatro folhas; a vontade de planejar viagens, faculdade, tudo isso.

Anda, senta aqui, me auxilia a decidir o que afinal te sinto. Vem, me ouve, me diz. Vamos resolver logo o que você é para mim. Veremos se é mesmo pena ou inveja, de uma vez, porque eu preciso te ajudar, menina. Eu preciso pedir ajuda pra você.

sábado, 9 de junho de 2012

Janela


Todo o fim, independente de qual seja, deixa-nos mais sensíveis. Esse fim, que não é o primeiro e, querendo ou não, eu, de certo modo, sabia que iria acontecer deixou-me mais compassiva. Reflexiva, também, talvez. Você pode se preparar anos e anos pro fim que, não adianta, vai doer do mesmo jeito. O ser humano nunca estará inteiramente pronto para aquilo que ele mesmo denominou como sua única certeza. O ciclo da vida nunca será apenas nascer, crescer e morrer, assim, tão fácil. Vai além, ainda que a gente não queira pensar e falar sobre.   

Eu, pelo menos, não gosto de pensar em quando ou como tudo vai acabar, mas saber que vai me mata um pouco a cada dia que passa. E morrer é uma das coisas de que mais tenho medo. Tenho medo de inúmeras coisas. Sabe os mosquitos, que a minha avó vive dizendo serem inofensivos? Tenho medo. Médicos me apavoram. Ficar sozinha no escuro, então, nem se fale. Inúmeros pavores. Eu ficaria dias, aqui, falando sobre eles, mas de que adianta se nada, nada no mundo, se compara ao meu medo do fim? Do meu fim. Sei que vai acontecer, porém não encontrei um jeito, ainda, de me conformar. Não há religião ou mantra que me deixe mais calma com este pensamento. Meditação, yoga, bíblia, nada disso ajuda. Nem quero que ajude. É egoísta querer ficar aqui pra sempre, enquanto a maioria das pessoas diz que, lá no céu, quem sabe, exista um mundo melhor. É egoísta, eu sei. Nunca tentei esconder de ninguém esse meu defeito. Nunca escondi o fato de que não sei lidar com estes fins inesperados. Manipulei, durante a vida inteira, a maioria dos términos com os quais precisei lidar. Quase todas as despedidas aconteceram porque eu queria que acontecessem. Doíam, claro, mas porque eu queria que doessem. Optei por sentir toda aquela dor. Escolhi.

A morte, não. Ela não é eleita por mim, nem por você. Alguns dizem que Deus a escolhe. Eu ainda não sei. Espero, mesmo, que exista esse Deus e que Ele seja tão maravilhoso quanto todas as pessoas dizem. Espero que escolha bem, por mim, e que não seja agora. Não posso lidar com isso agora. Quem é que pode, afinal? Das dez pessoas que dizem estar realmente prontas para “a sua hora”, apenas uma fala com convicção. As outras nove falam porque acham que, repetir isso muitas e muitas vezes, ajuda. Não me ajuda. Nada tem ajudado. Penso, repenso, leio algumas matérias sobre o assunto. Tentei igrejas de todas as doutrinas existentes no planeta, mas não adianta.

A morte é um precipício do qual você cai repentinamente, às vezes sem querer, e enquanto está no ar só lhe resta esperar que, no fim desta queda, alguém te segure. Esperar das pessoas, ainda que divinas, nunca foi o meu forte. Nunca fui de acreditar muito, em ninguém. E quando a dona morte é o assunto em questão não nos resta mais nada a fazer.

Talvez, viver, ainda nos reste. Viver, quem sabe, seja a resposta. Que viver seja a resposta! Eu tenho tanto medo da morte que abri a janela do quarto e do coração, hoje de manhã, e resolvi que o sol iria entrar em todos os cantos sombrios. Não haverá mais escuro enquanto eu viver, porque se morrer é mesmo a nossa única certeza, ainda que blasé, devemos aproveitar cada segundo como se fosse o último. E que não seja o último! Que não seja.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vale


Sempre achei que nascer no dia 31 fosse um tanto quanto ruim. Sei lá, são três dezenas e uma unidade. Tenho sérios problemas com algarismos assim. Além do mais, é o último dia do mês. Nenhum-mês-dura-mais-que-trinta-e-um-dias. Parece um mantra, ou profecia, se é que existe alguma diferença entre os dois. Soa meio assustador, não? Tudo bem, talvez eu esteja exagerando, mas, venhamos e convenhamos, é, no mínimo, estranho. É como ter no inicio do nome a letra W e ser o último da chamada escolar. Você até esquece que a professora está gritando todos os nomes da lista de presença que acaba nem respondendo, fica com falta. Pensei que nascer no dia 31 fosse como ficar com falta.

Pensei assim até o telefone tocar e, emocionado, alguém me dizer que “é saudável e linda, tem tudo, tudo no lugar; não falta nada”. Linda na medida em que os recém-nascidos conseguem ser, imaginei, claro, mas não falta nada. Naquele momento, ainda meio sonolenta e, mesmo assim, percebendo o calor na voz da minha tão amada avó, agora identificada do outro lado da linha, percebi que o dia não era importante desde que você chegasse bem. Não importa que eu não saiba quando, exatamente, comemorar os seus meses de aniversário. Não havendo os dois números juntos, festejaremos no dia trinta. Ou no dia um. Festejaremos todos os dias porque não te falta nada, pequena. Mais tarde, você até poderá me convencer de que o dia do seu aniversário não é assim tão cheio de mistérios quanto eu penso ser.  Você vai me contar, depois, como tudo na sua vida é ou deixar de ser. Que seja!

Pode ser a mais elegante da escola desde que tente ser, também, a mais inteligente. O mundo, hoje, valoriza mais as pessoas bonitas, mas contar-te-ei um segredo: os inteligentes são muito mais fascinantes. Goste de músicas com letras extraordinariamente lindas e que nunca serão esquecidas, por favor. Seja forte, porque, infelizmente, as coisas por aqui andam muito difíceis. Seja forte com você, com os outros. Chore pouco, mas chore para não parecer de ferro. Ser de ferro machuca. Pode te machucar e machucar muita gente. Seja sensível. Sim, forte e sensível. Enxergue a todos independente da cor que eles carregam em sua pele, do estado de suas roupas ou dos seus dentes. Se pinte, se invente, lute, defenda. Só não se perca. Não se perca de nós, nunca. Não se perca de você, principalmente. Sonhe, sonhe muito, sonhe alto. Tire, sim, os pés do chão, desde que a vontade de voar seja tão grande quanto à certeza do cair. Tudo é permitido desde que você esteja pronta para despencar, minha menina.

Sabe que a gente, às vezes, despenca e perde coisas, não é? Nós perdemos o controle, somos decepcionados, ficamos tristes. Decepcionamos e ficamos ainda pior. O mundo dói, e algumas de suas dores parecem insuportáveis, pesa um peso difícil de carregar. Tem gente, aqui, que faz mal, tem gente que mente. Viver, pequena, em alguns momentos, é um saco de esterco. Podre, fétido. Porém, não vamos generalizar, em todos os outros, é incrível. Não é fácil, não está fácil pra ninguém, mas, calma, vale o esforço. É apavorante, eu sei, mas, confie em mim, vale muito a pena. Fique tranqüila e seja, porque vale todos os tombos. Viver vale tudo isso.  Vale pelos amores que você vai encontrar, pelos amigos verdadeiros e inseparáveis que surgiram com o tempo, pelas gargalhadas que doem na barriga e conversas intensas sobre um sabor de pastel.

Viver, ainda que difícil, vale a pena, pequena. Então, seja bem-vinda!