Eu seria incapaz de imaginar que o encontraria naquele lugar. Não que a gente se conhecesse antes, ou que eu já o tivesse visto alguma vez, mas, eu sei, foi ele a quem andei procurando nos romances espanhóis e filmes americanos sobre amor. Estranho encontrá-lo, antes presente apenas em sonhos, a pouco mais de duas horas de viagem da minha cidade fria e sei lá eu quantos mil quilômetros de distância da sua cidade quente e carnavalesca. Vê-lo, assim, de verdade, tão perto e nítido, ainda que com a quase certeza de que só existiria em minha imaginação, foi no mínimo subversivo. Uma perturbação excitante de quem tem a sua frente o homem, literalmente, dos sonhos, o príncipe encantado que está mais para desencantado por fumar e tomar café a cada trinta minutos e ter aquele sotaque cujo qual eu sempre disse odiar. Tem defeitos em evidência, não esconde, mas, não importa, em nenhum momento imaginei-o perfeito. Era exatamente desse jeito que ele aparecia todas as noites lá em casa, de calça Sarouel, camiseta de algodão, tênis surrado, barba por fazer, com uma cor de pele que não defino e aquele chapéu que, independente de quantas vezes me digam, nunca vou lembrar o nome. Ele parece o meu ator preferido, versátil, que se transforma em qualquer coisa quando está em cena, lembra-o sem fantasias e esse é um dos motivos pelo qual querê-lo se torna tão fascinante. Gosto do seu sorriso idílico, dos olhos expressivos e, ao mesmo tempo, insondáveis, das mãos grandes, do queixo bem desenhado. Difícil descrever algo de que eu não goste nele. Talvez nem exista. Resolvi, ali, que iria conhecê-lo o suficiente para não descobrir.
Estou, até agora, tentando entender o que nos aconteceu. Lembro de estar voltando para rodoviária depois da reunião, a chuva caia com força e em grande quantidade, os pingos destruíram o meu guarda-chuva em apenas duas quadras de uso e descobri, naquele instante, que tinha sido passada para trás. A mulher que o vendeu para mim, dizendo que era mais resistente que o antigo, equivocou-se, ou mentiu mesmo, vai saber. Ainda que em pedaços, persisti em segurá-lo acima da cabeça e continuar caminhando. Ouvi uma buzina e o farol de um carro sendo direcionado em meu rosto. Não consegui definir a cor, o modelo ou o motorista a minha frente. Fiquei com medo, mas encarei, assim mesmo, alguém que mal enxergava. Pensei em sair correndo e gritar fogo. Minha avó sempre diz que pedir socorro pode ser em vão. “Grite ‘fogo, fogo!’ e alguém vai te ajudar”, repete ela sempre que saiu de casa. Segundo a minha avó, as pessoas acham que os gritos de socorro só acontecem quando há brigas e quase ninguém se arrisca a apartar uma dessas. Quanto ao fogo, “todo mundo é meio metido a bombeiro”, diz ela. Como sempre, fiquei intacta esperando alguma reação do meu suposto seqüestrador. Aos poucos, a intensidade dos faróis foi abaixada e pude, então, notar que era ele. O homem dos meus sonhos estava com a cabeça para fora do vidro oferecendo-me uma carona. Não, obrigada, não quero atrapalhar. Em pensamento disse isso, mas fiquei tão apavorada com o susto que levara que só consegui assinalar negativamente com a cabeça. Ele insistiu, foi educado, fez questão da minha presença. Eu estava atônita, molhada e, então, pela primeira vez, não pensei em nada e entrei em seu carro. Podia ter pedido desculpas por molhar o banco de seu automóvel, mas não o fiz, apenas disse para onde estava indo. Depois de alguns segundos em silêncio perguntei as horas e ao ouvir sua resposta me lembrei de que os ônibus demorariam a passar. “Não vamos chegar lá antes disso”. É tão longe assim? “Um pouco”. Eu disse que não queria atrapalhar, me ofereci para descer do carro, mas ele não deixou. “Está escuro, chovendo e é perigoso. Dá pra colaborar?” Olhei-o seriamente e não respondi. “Você está bem?” Você está? “Estaria melhor se você não respondesse minhas perguntas com outras perguntas”. Soltei um riso doce e sem som. “Você não precisa se preocupar”. Eu sei, eu sei.
Sinceramente, não sei, mas digo que sim pra tentar me convencer. Se ele soubesse de todos os sonhos, de que estava aqui, em minha mente, todo esse tempo, antes mesmo de saber da minha existência, provavelmente, não me traria pra dentro do seu carro. Ele interrompe meus pensamentos e diz o meu nome. Ele sabe o meu nome? Obvio que sabe. Eu mesma o disse, naquela apresentação estúpida. Mordo os lábios tentando parecer sexy. Durante toda a minha vida, as tentativas de parecer assim foram em vão, mas, pelo jeito como ele me olha, acredito que esta pode estar dando certo. “Preciso ir ao banheiro”. Não dá pra esperar chegar até a rodoviária? “Tomei café demais. Já volto.” Ele estaciona o carro ao lado de um bar caindo aos pedaços, pelo que consigo ver, através do vidro meio embaçado por conta da chuva, não tem mais de dois homens lá dentro. Ele volta em pouco mais de dez minutos, entra no carro e se senta meio de lado, tentando ficar de frente para o banco do passageiro, onde eu estou. Olhamo-nos por alguns segundo e, então, passo a mão em seu cabelo molhado. Ele se aproxima de mim, coloca uma das mãos na minha perna, puxa-me pelos cabelos com a outra e me beija. O beijo é demorado e, diferente de todos os outros que já recebi, tem desejo sem pressa. Naquela hora, nenhum dos meus atos (antes inteiramente racionais) fazem sentido. Esqueci os vestibulares que andam fritando o meu cérebro, as amigas me pedindo para experimentar o sexo, os meninos da mesma idade que, a meu ver, são tão desinteressantes. Perco a noção de tempo, depois não ouço mais a chuva e então me esqueço de respirar. Afasto-o aos poucos e permaneço de olhos fechados. “Desculpe-me” Pelo que? Abro os olhos. Ele me observa confuso e não responde. Quando pensa em abrir a boca para falar algo, interrompo-o dizendo que posso me atrasar. Sem entender, se ajeita no banco, assim como eu, e recomeça o trajeto.
Ao chegar à rodoviária, olho-o profundamente, como quem se despede sem dizer uma única palavra. “Você tem olhos lindos”. Continuo encarando-o sem abrir a boca. Ele me puxa pra perto e, mais uma vez, me beija. Seus lábios são macios e tem um gosto bom, mas, agora, o beijo é de despedida e tem em sua essência um pouco de desespero. Nós não vamos mais nos ver e, assim como eu, ele sabe disso. Não queremos dizer um para o outro que seja lá o tivemos durou só algumas horas, então nos beijamos assim, como quem se despede e diz que em sonhos, longe das explicações, da vida real, do dia-a-dia, tudo continua intacto.
Escolhi, escolhemos talvez, naquele dia, naquela chuva, naquele carro, manter tudo guardado ao invés de soltar aos quatro ventos e, quem sabe mais tarde, precisar esquecer.
Escolhi, escolhemos talvez, naquele dia, naquela chuva, naquele carro, manter tudo guardado ao invés de soltar aos quatro ventos e, quem sabe mais tarde, precisar esquecer.

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