domingo, 17 de junho de 2012

Que sonha



 Eu não sei se sinto pena ou inveja de você, sabe? Do fundo desse meu coração cercado por muros altíssimos e sem pedrinhas para escalar, não sei. Apenas digo que você é incrível, com toda a convicção do mundo, independente do que eu sinta. Do fundo desse meu coração, também meio perdido e sem vocação nenhuma para amar, que não sabe se te inveja ou morre de dó, és incrível. Você, minha linda, acredita e poucas pessoas ainda acreditam, assim, desse jeito. Acreditam desacreditando, querem crer que sim, mas, na maioria das vezes, pensam que não. E é tudo em vão. Você não; acredita de verdade, verdade verdadeira, como diz meu jasmim, a flor lá do jardim que faz agora quatro anos. Seus olhos brilham, menina, e eu nunca hei de ver olho tão brilhante quanto o seu. É triste que seja assim tão raro, mas fazer o que?

Às vezes tenho vontade de ir até o seu casulo e chacoalhar-te, dizer que o mundo não é de quem tem olho que brilha e acredita em estrela cadente, não. O mundo é dos realistas e você precisa acordar. Garota besta, pare já de sonhar! Quero segurar o teu rosto e trazê-la de volta para essa terra maldita onde criança sente dor na barriga por só comer fubá com sal. Eu tenho dó de você, menina, tão absorta em sonhos malucos, achando que a vida pode ser bonita e que os desejos estão a um passo do céu.  O céu fica distante, sua boba, fica só a um passo daqui não. É mais, bem mais. Larga toda essa bobeira de acreditar e vai dormir para poder procurar emprego com a cara boa amanhã, vai. Larga todos estes teus sonhos porque o céu está a passos incontáveis de nós, não só um. Tu não chegas até lá nessa vida, não. Larga tudo e vai comprar pão que o ronco da barriga não espera.  Queria te acordar, minha querida, pra viver de verdade ainda que doa. Sinto pena de você, acreditando que vai dar tudo certo, que existe amor eterno, que o mundo pode ser melhor. Tenho medo que ele (o mundo, ou o amor, quem sabe) te mostre as garras, um dia, e te machuque. Tenho dó de você, minha linda. Ou inveja, talvez.

Tenho inveja porque, de certo modo, queria ter um pouco de ti em mim. Queria que meus olhos brilhassem e que os sonhos, também meus, parecessem tão próximos e reais quanto os teus, que estão no céu. Queria eu pensar que o céu é só a um passo dessa terra de gigantes e que os gigantes, por sua vez, têm coração. Seria tão mais fácil ser assim, como você. Eu seria tão mais encantadora se me parecesse, um pouco que seja, contigo. Vem, menina, senta aqui do meu lado, me ensina a sonhar. Ensina-me a sorrir para os desconhecidos e fingir que a miséria tem fim. Faz-me pensar que todos têm um coração sem muro, que não há maldade nesse mundo e, se quisermos, podemos voar. Deixa-me mais leve, tira de mim toda essa descrença de gente, me faz te amar. Por favor, por tudo o que há de mais sagrado: faz-me te amar. Amar alguém. Convence-me que vale a pena acreditar, assim, como você acha que vale. Quero pensar que comida é o de menos quando o amor reina. Eu ando tão cansada dessa vida de quem cresceu cedo demais e perdeu tempo de tudo. Ando tão infeliz por não querer sorrir nem pro espelho. Então, vem menina, ensina-me a sonhar bonito, trás de volta aquela espera de príncipe encantado que nunca mais tive; aqueles dedinhos cruzados sempre que uma coisa nova está por vir; a busca incansável por um trevo de quatro folhas; a vontade de planejar viagens, faculdade, tudo isso.

Anda, senta aqui, me auxilia a decidir o que afinal te sinto. Vem, me ouve, me diz. Vamos resolver logo o que você é para mim. Veremos se é mesmo pena ou inveja, de uma vez, porque eu preciso te ajudar, menina. Eu preciso pedir ajuda pra você.

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