Sempre achei que nascer no dia 31 fosse um tanto quanto ruim. Sei lá, são três dezenas e uma unidade. Tenho sérios problemas com algarismos assim. Além do mais, é o último dia do mês. Nenhum-mês-dura-mais-que-trinta-e-um-dias. Parece um mantra, ou profecia, se é que existe alguma diferença entre os dois. Soa meio assustador, não? Tudo bem, talvez eu esteja exagerando, mas, venhamos e convenhamos, é, no mínimo, estranho. É como ter no inicio do nome a letra W e ser o último da chamada escolar. Você até esquece que a professora está gritando todos os nomes da lista de presença que acaba nem respondendo, fica com falta. Pensei que nascer no dia 31 fosse como ficar com falta.
Pensei assim até o telefone tocar e, emocionado, alguém me dizer que “é saudável e linda, tem tudo, tudo no lugar; não falta nada”. Linda na medida em que os recém-nascidos conseguem ser, imaginei, claro, mas não falta nada. Naquele momento, ainda meio sonolenta e, mesmo assim, percebendo o calor na voz da minha tão amada avó, agora identificada do outro lado da linha, percebi que o dia não era importante desde que você chegasse bem. Não importa que eu não saiba quando, exatamente, comemorar os seus meses de aniversário. Não havendo os dois números juntos, festejaremos no dia trinta. Ou no dia um. Festejaremos todos os dias porque não te falta nada, pequena. Mais tarde, você até poderá me convencer de que o dia do seu aniversário não é assim tão cheio de mistérios quanto eu penso ser. Você vai me contar, depois, como tudo na sua vida é ou deixar de ser. Que seja!
Pode ser a mais elegante da escola desde que tente ser, também, a mais inteligente. O mundo, hoje, valoriza mais as pessoas bonitas, mas contar-te-ei um segredo: os inteligentes são muito mais fascinantes. Goste de músicas com letras extraordinariamente lindas e que nunca serão esquecidas, por favor. Seja forte, porque, infelizmente, as coisas por aqui andam muito difíceis. Seja forte com você, com os outros. Chore pouco, mas chore para não parecer de ferro. Ser de ferro machuca. Pode te machucar e machucar muita gente. Seja sensível. Sim, forte e sensível. Enxergue a todos independente da cor que eles carregam em sua pele, do estado de suas roupas ou dos seus dentes. Se pinte, se invente, lute, defenda. Só não se perca. Não se perca de nós, nunca. Não se perca de você, principalmente. Sonhe, sonhe muito, sonhe alto. Tire, sim, os pés do chão, desde que a vontade de voar seja tão grande quanto à certeza do cair. Tudo é permitido desde que você esteja pronta para despencar, minha menina.
Sabe que a gente, às vezes, despenca e perde coisas, não é? Nós perdemos o controle, somos decepcionados, ficamos tristes. Decepcionamos e ficamos ainda pior. O mundo dói, e algumas de suas dores parecem insuportáveis, pesa um peso difícil de carregar. Tem gente, aqui, que faz mal, tem gente que mente. Viver, pequena, em alguns momentos, é um saco de esterco. Podre, fétido. Porém, não vamos generalizar, em todos os outros, é incrível. Não é fácil, não está fácil pra ninguém, mas, calma, vale o esforço. É apavorante, eu sei, mas, confie em mim, vale muito a pena. Fique tranqüila e seja, porque vale todos os tombos. Viver vale tudo isso. Vale pelos amores que você vai encontrar, pelos amigos verdadeiros e inseparáveis que surgiram com o tempo, pelas gargalhadas que doem na barriga e conversas intensas sobre um sabor de pastel.
Viver, ainda que difícil, vale a pena, pequena. Então, seja bem-vinda!

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