Todo o fim, independente de qual seja, deixa-nos mais sensíveis. Esse fim, que não é o primeiro e, querendo ou não, eu, de certo modo, sabia que iria acontecer deixou-me mais compassiva. Reflexiva, também, talvez. Você pode se preparar anos e anos pro fim que, não adianta, vai doer do mesmo jeito. O ser humano nunca estará inteiramente pronto para aquilo que ele mesmo denominou como sua única certeza. O ciclo da vida nunca será apenas nascer, crescer e morrer, assim, tão fácil. Vai além, ainda que a gente não queira pensar e falar sobre.
Eu, pelo menos, não gosto de pensar em quando ou como tudo vai acabar, mas saber que vai me mata um pouco a cada dia que passa. E morrer é uma das coisas de que mais tenho medo. Tenho medo de inúmeras coisas. Sabe os mosquitos, que a minha avó vive dizendo serem inofensivos? Tenho medo. Médicos me apavoram. Ficar sozinha no escuro, então, nem se fale. Inúmeros pavores. Eu ficaria dias, aqui, falando sobre eles, mas de que adianta se nada, nada no mundo, se compara ao meu medo do fim? Do meu fim. Sei que vai acontecer, porém não encontrei um jeito, ainda, de me conformar. Não há religião ou mantra que me deixe mais calma com este pensamento. Meditação, yoga, bíblia, nada disso ajuda. Nem quero que ajude. É egoísta querer ficar aqui pra sempre, enquanto a maioria das pessoas diz que, lá no céu, quem sabe, exista um mundo melhor. É egoísta, eu sei. Nunca tentei esconder de ninguém esse meu defeito. Nunca escondi o fato de que não sei lidar com estes fins inesperados. Manipulei, durante a vida inteira, a maioria dos términos com os quais precisei lidar. Quase todas as despedidas aconteceram porque eu queria que acontecessem. Doíam, claro, mas porque eu queria que doessem. Optei por sentir toda aquela dor. Escolhi.
A morte, não. Ela não é eleita por mim, nem por você. Alguns dizem que Deus a escolhe. Eu ainda não sei. Espero, mesmo, que exista esse Deus e que Ele seja tão maravilhoso quanto todas as pessoas dizem. Espero que escolha bem, por mim, e que não seja agora. Não posso lidar com isso agora. Quem é que pode, afinal? Das dez pessoas que dizem estar realmente prontas para “a sua hora”, apenas uma fala com convicção. As outras nove falam porque acham que, repetir isso muitas e muitas vezes, ajuda. Não me ajuda. Nada tem ajudado. Penso, repenso, leio algumas matérias sobre o assunto. Tentei igrejas de todas as doutrinas existentes no planeta, mas não adianta.
A morte é um precipício do qual você cai repentinamente, às vezes sem querer, e enquanto está no ar só lhe resta esperar que, no fim desta queda, alguém te segure. Esperar das pessoas, ainda que divinas, nunca foi o meu forte. Nunca fui de acreditar muito, em ninguém. E quando a dona morte é o assunto em questão não nos resta mais nada a fazer.
Talvez, viver, ainda nos reste. Viver, quem sabe, seja a resposta. Que viver seja a resposta! Eu tenho tanto medo da morte que abri a janela do quarto e do coração, hoje de manhã, e resolvi que o sol iria entrar em todos os cantos sombrios. Não haverá mais escuro enquanto eu viver, porque se morrer é mesmo a nossa única certeza, ainda que blasé, devemos aproveitar cada segundo como se fosse o último. E que não seja o último! Que não seja.

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