sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Amor e música


           Quando o assunto em questão era amor sempre tive muita certeza do não. Eu não os amava e ponto final. Não amei aquele garoto da sétima série, que me entregou uma carta escrita a mão e carregou os meus livros, durante todo o ano, da escola até em casa e disse, mais tarde, com todas as letras e sem gaguejar, mesmo sem saber ao certo o significado, aquelas três palavrinhas quase mágicas que derretem o coração de qualquer mulher do universo. Eu não amei aquele outro menino, que apareceu um ano depois, cheio de brincos e com o cabelo roxo, cujo qual o meu pai detestava, tentando me ensinar a andar de patins e dizendo, após três dias de namoro, um “eu te amo” com lágrimas nos olhos. Eu sei, é difícil imaginar um cara de cabelo colorido e com peças de metal por todo o corpo falando de amor com os olhos úmidos, mas foi exatamente assim que aconteceu. Acho que ele conseguiu me amar rápido e então eu surtei. Fugi do coitado e nem sequer dei uma explicação. Eu não o amava e não tinha muito que dizer, também.

          Todos os outros rapazes que surgiram posteriormente foram calados pelas minhas mãos pequenas quando tentavam contar sobre os seus sentimentos mais profundos. Eu não queria ouvi-los porque não retribuir magoava-os e, de certo modo, me magoava também. Cheguei a pensar que tinha alguns problemas. “Psicopatas são desprovidos de sentimentos, então, talvez, eu seja um deles”, pensava eu, nas noites mais paranóicas. No dia seguinte caia na real, claro. Eu amava os meus familiares, amigos e me amava. Os psicopatas não amam ninguém, não é mesmo? Então, pronto, não sou um deles, não.

          Depois daquele garoto de óculos e meio metido a músico, definitivamente, não sou um deles. Quando nos vimos pela primeira vez, eu não o amava. Quando nos beijamos gostava um pouco dele, mas ainda não era amor. Então me mudei, voltei, não o procurei. Pensava sempre em nós, no que teria nos acontecido se eu não fosse quase uma cigana. Fui embora mais uma vez e outra e outra. Não era amor, mas estava aqui, em mim e nele também. Nos sinais que deixamos. Nos pequenos bilhetes. Adormecido, esperando um reencontro. E aconteceu, por acaso, do nada, reacendendo em mim o gostar pouquinho e fazendo a chama, antes de vela, se transformar numa labareda inapagável. Estávamos mais maduros, dispostos, lembrando das minhas idas e vindas, tentando entender porque eu me afastei tanto. E mesmo sem entender, não nos deixamos. Estava ali, em nós, o que eu pensei não ser amor, mas nunca apaguei da história. Foi então que ele disse que me amava. Calei-me. Não o calei, mas também não fugi. Fiquei intacta, feito pedra, nem um pouco preciosa, creio eu. Diferente de todas as outras vezes, também, nesta não me senti triste por estar magoando-o. A possibilidade de que fosse recíproco era tão grande, entendem? Tão grande que não cabe em mim e transborda.

          Depois de ouvir os dizeres dele, fui atrás de descobrir o que, afinal, é o amor, porque, até então, a minha única certeza era a do não. Não é amor e ponto final. Se for, já não sei. Passei dias perguntado às minhas amigas, todas disseram que é complicado demais explicar e não explicaram. Falei com a minha avó e, sempre pronta a ajudar e sem nenhum frio na língua, ela me disse que se o que eu estava sentindo não era amor, nada no mundo seria. “Você tem certeza do que não é, então, se sabe que não é, é. Não é?”.  Minha avó dá ótimos conselhos quando se consegue decifrá-los. Pensei, repensei. Lembrei-me de nós dois, do tempo, de não te esquecer, do reencontro, quase mágico. Ele me faz tão bem, tão bem. Não tenho medo de nada que não seja o nosso fim. “E que não chegue o nosso fim, nunca”, peço eu, a Deus, como raramente faço.  Depois paro e penso mais uma vez, com a ajuda de uma música maravilhosa, de uma banda histórica e bem conhecida: “Se isso não é amor, o que mais pode ser?”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Martelo



Hoje seria um dia normal se as coisas não tivessem acordado de cabeça para baixo. Sim, as coisas, todas as coisas. O sol e o vento gelado que quase nunca estão juntos e estavam; a falta das suas mensagens que já deviam ter apitado no meu celular há muitas horas atrás; o sapato sumido do nada; a ferramenta batendo e batendo uns trinta minutos mais cedo do que deveria. Tenho para mim que foi tudo culpa do martelo. Sabe, o meu dia de cabeça para baixo é culpa do martelo. O martelo do vizinho que estava arrumando eu sei lá o que, culpa de você martelando o meu cérebro dia e noite num mantra inesquecível que grita e repete algo parecido com “pense nele, não, espere, pare de pensar”. Acordei meio fora de mim, confesso. Ou dentro demais, talvez. Sonhei com você e o martelo me despertou. Será um sinal? Que tipo de pessoa recebe como sinal marteladas do vizinho? Eu? Com certeza, eu.

Troquei-me às pressas querendo ir até lá para dizer a ele que ninguém tinha o direito de me despertar dos sonhos bons. Fui, mas comecei a espirrar e não o encontrei em meio a minha crise alérgica. Peguei a bolsa gigantesca que acompanha meus dias corridos desde que chegou, junto com a minha tia, de uma cidadezinha romântica e francesa e desci rumo ao trabalho. Enquanto caminhava, já há um terço de distancia de casa, descubro que havia esquecido a chave da minha loja. Não, eu não tenho uma loja, sou apenas empregada em uma. Disquei o número da minha avó, que é quase um S.O.S e ela, então, veio ao meu encontro para entregar o esquecido da vez , soltando fogo pelas ventas e repetindo sem dó nem piedade “você só não esquece a cabeça porque está grudada”. Ela sorriu, também, depois da bronca, beijou a minha testa carinhosamente e abanou a mão se despedindo enquanto eu corria, para não chegar atrasada, atropelando minhas próprias pernas.

Correr parece sempre ser em vão. Cinco ou dez minutos são de praxe quando o assunto é atraso na empresa. Inevitáveis cinco minutos nesse meu dia que começou de pernas pro ar. O cara do cigarro veio logo cedo e eu fiquei encarando-o por tanto tempo que ele se sentiu acuado e soltou rispidamente um “você ta bem?”. Acenei positivamente. Queria ter dito que não e emendado com a minha negação uma pergunta. Você não se sente mal por vender uma coisa que mata as pessoas aos pouquinhos? O meu pai fuma a mais de trinta anos e eu fico tão triste por ver os efeitos colaterais deste vício, sabe? Não, claro que eu não disse nada, apenas fiquei com uma expressão de maluca, encarando e assustando o coitado do moço, que saiu meio corrido e nem perguntou qual seria a quantidade do meu pedido. Desde que aprendi  que muitas das minhas palavras desenfreadas magoam, fico quieta mais do que falo. Penso bastante, porém raramente exponho aquilo que me toma a cachola. Com você não tem sido diferente. Eu penso um milhão de vezes para te dizer qualquer coisa que seja. Arrependo-me por guardar tudo sozinha, na maior parte do tempo. Agora, por exemplo, queria te ligar e dizer que a nossa briga foi ridícula, que aqueles meninos nada são além de amigos, que você me faz falta e, mesmo sem querer voltar, preciso que você me espere. Eu queria discar o seu número rapidamente e, antes de ouvi-lo do outro lado da linha, gritar em letras garrafais, se é que isso é possível, que não posso mais te dividir com outras. Eu não quero mais ser a outra. Quero-te para mim, inteiro para mim. Eu quero saber que você está sofrendo sem beijar na boca por não ter a minha boca e não querer nada além. Queria te ouvir, mesmo que pelo telefone, dizendo que a gente vai dar certo, sim, que eu preciso acreditar mais e que você vai lutar comigo, por nós.

Mas eu não ligo; você não diz e o meu dia termina do mesmo jeito que começou, de cabeça para baixo, sem você do meu lado, mas feito martelo no pensamento e no coração.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Calmaria


          Olhar de longe a sua casa revirada sabendo que essa bagunça é toda e somente minha não traz felicidade. Quando eu não me importava em arrumar a algazarra toda, trazia; mas agora que parei para observar você jogado no chão, sozinho, tentando entender o porquê eu sempre preciso ir embora, não traz. Há alguns anos, foi divertido vir feito um tufão a cada estação mudada, virar e revirar suas gavetas, medos, segredos, esbaldar-me em sua cama, te fazer escutar teorias malucas de quem nunca encontra felicidade plena e um lugar para repousar, depois deixar-te como se não fosses importante e abandonar o que poderia haver de mais bonito em nós, fugindo. Agora não é mais.

          Desde que estive em sua cidade, um dia também minha, para visitar parentes e amigos que ainda me restam por lá e resolvi ligar no seu antigo telefone, como quem não que nada, apenas para me distrair um pouco, não é mais. Descobri (ou recordei, quem sabe) o quão fácil foi e ainda é gostar de você e a segurança que sinto ao seu lado. Onde já se viu furacão, feito tu, querendo segurança? Não sei. Não sei o que me deu, mas é bom. Não ter medo de afundar é bom, saber que o mundo pode desabar desde que estejas com as minhas mãos em suas mãos é bom. Ter-te calmaria nesse meu eu tão cheio de dúvidas e nenhum limite é bom. Como naquela música “na sua calmaria eu ia ser vulcão”, é bom.

          E pensar que o que você era antes não importava. Coitada de mim! Eu simplesmente fazia os meus estragos e saia de fininho, sem dar explicação. Chegava sem avisar, cantava feito sereia para te trazer até mim, derrubava-o quando mais perto, fazia-te esquecer os quase amores que surgiam e ressurgiam entre minhas idas e vindas, tornava-te só meu e ainda mais meu do que em todos os tempos de colégio. Não tinha hora nem lugar, era você que meu furacão vinha devastar e apenas você seria devastado. Era assim. Foi até que os resquícios desta aniquilação me atingiram o peito e eu vi você. Eu vi seus olhos brilharem enquanto me pediam, juntamente com os lábios e a voz, num conjunto orquestrado, que ficasse. Senti os seus abraços nos meus braços que há tempos eram tão meus e não se dividiam.  Deixei você me tomar e acalmar toda essa loucura impetuosa e repentina, de vento.

          Dessa vez, ao invés de ocupar os seus espaços tive, então, os meus todos ocupados. Vi você entrar em lugares que eu nem sequer sabia existir. Fez-me ter vontade de ficar para recolher os destroços, organizar os seus pertences, dizer (e bem dito) que seriamos dois, de nós. Nunca houve nós, mas, naquele momento, desejei incessantemente que houvesse. E chorei por precisar partir, porque, juro, não queria tanto quanto das outras vezes. Precisava, porém não era de minha maior vontade. Dessa vez, depois de destruir você me encontrei também destruída e ao juntar os seus escombros, carregando os meus tão cheios de culpa, percebi que a minha cura era o seu amor. Cuidar de você acaba com a tempestade devastadora que há dentro de mim e traz de volta o tempo límpido. É tudo mais claro e calmo com você aqui.

          O furacão se vai quando tu és o afetado e eu, logo, junto os nossos pedaços num só lugar. Aquela ventania turbulenta e inesperada morre em mim para você viver. E eu vivo mais calma, calmaria. Por você.

sábado, 4 de agosto de 2012

De rua


Passei a mão no dinheiro sobre o criado mudo, peguei um cigarro no bolso da calça dele, jogada no pé direito da cama, olhei o pequeno espelho que havia sobre a velha penteadeira, coloquei os óculos escuros e voltei para rua. Óculos escuros, além de diminuírem os impactos solares, escondem tristezas.  São raras as garotas que viram puta porque gostam, eu mesma nunca conheci nenhuma, todas das minhas companheiras de calçada vieram para essa vida estúpida por necessidade. Lisbela, a negra, tem filho pra criar, mas faltam-lhe dentes e estudo. Certa vez, disse-me Lisbela que para as mulheres sem dente e estudo restam-lhe o mundo e os homens de lá. Os homens de lá não são de todo o ruim, como falam por aí, no fundo estão todos à procura de amor. De forma errônea, às vezes, confesso, mas estão. As ruas me são agora por falta de amor, por isso uso roupas tão curtas e apertadas e me deito com homens dos quais nem gosto. Na maioria das vezes, não tenho tempo sequer de conhecê-los um pouco. Se der sorte, o que raramente acontece, eles me contam seus verdadeiros nomes. Descubro vez ou outra que são casados porque mexo em suas vestes enquanto dormem. Juro, nunca roubei, são apenas cigarros, dois no máximo; então passo um batom vermelho, beijo o espelho, pego a grana que me é por direito e vou embora. Cobro por hora, faço de tudo, só não beijo a boca. Ninguém entende porque abrimos as pernas com tanta facilidade, mas não entregamos os lábios ao outro. A explicação é simples e poucos vão entender: beijo é intimo demais. Não, não é regra, já vi puta que beija. Eu não. Não mais. Beijei uma vez e nem homem foi. Não foi nem por dinheiro, sabe?

Ela entrou de supetão aqui no meu quarto, era linda, pequena, frágil, quase porcelana. De neve. Os cabelos louros caiam-lhe sobre o ombro num misto de curto e longo. Contara-me que era repicado quando questionei intencionada em copiar. Os olhos grandes e expressivos me fizeram acreditar, quase de imediato, que por detrás daquelas ruas sujas e homens suados existia amor. A menina viera disposta a se transformar numa coisa que macho adora e a sociedade apedreja num silêncio ensurdecedor. Eu amei-a desde o primeiro momento em que a vi tentando entrar numa vida que não pertencia a ela. É vida minha, de puta, querida. Essas ruas estão imundas para os seus pés; esses homens não a merecem, assim, tão sã e pura. Eles precisam das loucas, de pedra, como eu. Fiz a pequena desistir da estupidez que é entrar num buraco d’aonde não se sai, deixei-a ficar, apenas uma noite. Conversamos, por horas, contei-lhe os motivos de estar ali há tanto tempo, escutei os seus por aparecer a essa hora. Ficamos amigas, de anos em segundos. Perdi clientes demais, mas não me importei. A menina tinha de mim e eu não podia me perder, de novo. Enxuguei o seu rosto e nós nos beijamos. Sem açúcar, naturalmente adocicado, leve, meio nuvem, de algodão, beijo de menina moça que só beija a boca quando ama. Sorri enquanto movia os lábios e a segurava pela cintura. Ela sorria também, mas então me soltou de repente, olhou-me profundamente e disse “não tenho grana!”.

Não era dinheiro que eu queria, nem nisso pensará, mas a garota tinha razão. Você vai se tornando uma coisa da qual não gosta e, se não para na hora, quando vê, já é, não tem volta. Eu sou puta, de rua, batom forte e óculos escuros, feito máscara; escondo as tristezas e entrego-me em esquinas, dispenso o amor, sofro sozinha. É isso que eu sou, uma mentira, me vendo pra homens à procura de amor e acabo chorando, apaixonada, por uma menina.