Passei a mão no dinheiro sobre o criado mudo, peguei um cigarro no bolso da calça dele, jogada no pé direito da cama, olhei o pequeno espelho que havia sobre a velha penteadeira, coloquei os óculos escuros e voltei para rua. Óculos escuros, além de diminuírem os impactos solares, escondem tristezas. São raras as garotas que viram puta porque gostam, eu mesma nunca conheci nenhuma, todas das minhas companheiras de calçada vieram para essa vida estúpida por necessidade. Lisbela, a negra, tem filho pra criar, mas faltam-lhe dentes e estudo. Certa vez, disse-me Lisbela que para as mulheres sem dente e estudo restam-lhe o mundo e os homens de lá. Os homens de lá não são de todo o ruim, como falam por aí, no fundo estão todos à procura de amor. De forma errônea, às vezes, confesso, mas estão. As ruas me são agora por falta de amor, por isso uso roupas tão curtas e apertadas e me deito com homens dos quais nem gosto. Na maioria das vezes, não tenho tempo sequer de conhecê-los um pouco. Se der sorte, o que raramente acontece, eles me contam seus verdadeiros nomes. Descubro vez ou outra que são casados porque mexo em suas vestes enquanto dormem. Juro, nunca roubei, são apenas cigarros, dois no máximo; então passo um batom vermelho, beijo o espelho, pego a grana que me é por direito e vou embora. Cobro por hora, faço de tudo, só não beijo a boca. Ninguém entende porque abrimos as pernas com tanta facilidade, mas não entregamos os lábios ao outro. A explicação é simples e poucos vão entender: beijo é intimo demais. Não, não é regra, já vi puta que beija. Eu não. Não mais. Beijei uma vez e nem homem foi. Não foi nem por dinheiro, sabe?
Ela entrou de supetão aqui no meu quarto, era linda, pequena, frágil, quase porcelana. De neve. Os cabelos louros caiam-lhe sobre o ombro num misto de curto e longo. Contara-me que era repicado quando questionei intencionada em copiar. Os olhos grandes e expressivos me fizeram acreditar, quase de imediato, que por detrás daquelas ruas sujas e homens suados existia amor. A menina viera disposta a se transformar numa coisa que macho adora e a sociedade apedreja num silêncio ensurdecedor. Eu amei-a desde o primeiro momento em que a vi tentando entrar numa vida que não pertencia a ela. É vida minha, de puta, querida. Essas ruas estão imundas para os seus pés; esses homens não a merecem, assim, tão sã e pura. Eles precisam das loucas, de pedra, como eu. Fiz a pequena desistir da estupidez que é entrar num buraco d’aonde não se sai, deixei-a ficar, apenas uma noite. Conversamos, por horas, contei-lhe os motivos de estar ali há tanto tempo, escutei os seus por aparecer a essa hora. Ficamos amigas, de anos em segundos. Perdi clientes demais, mas não me importei. A menina tinha de mim e eu não podia me perder, de novo. Enxuguei o seu rosto e nós nos beijamos. Sem açúcar, naturalmente adocicado, leve, meio nuvem, de algodão, beijo de menina moça que só beija a boca quando ama. Sorri enquanto movia os lábios e a segurava pela cintura. Ela sorria também, mas então me soltou de repente, olhou-me profundamente e disse “não tenho grana!”.
Não era dinheiro que eu queria, nem nisso pensará, mas a garota tinha razão. Você vai se tornando uma coisa da qual não gosta e, se não para na hora, quando vê, já é, não tem volta. Eu sou puta, de rua, batom forte e óculos escuros, feito máscara; escondo as tristezas e entrego-me em esquinas, dispenso o amor, sofro sozinha. É isso que eu sou, uma mentira, me vendo pra homens à procura de amor e acabo chorando, apaixonada, por uma menina.

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