Olhar de longe a sua casa revirada sabendo que essa bagunça é toda e somente minha não traz felicidade. Quando eu não me importava em arrumar a algazarra toda, trazia; mas agora que parei para observar você jogado no chão, sozinho, tentando entender o porquê eu sempre preciso ir embora, não traz. Há alguns anos, foi divertido vir feito um tufão a cada estação mudada, virar e revirar suas gavetas, medos, segredos, esbaldar-me em sua cama, te fazer escutar teorias malucas de quem nunca encontra felicidade plena e um lugar para repousar, depois deixar-te como se não fosses importante e abandonar o que poderia haver de mais bonito em nós, fugindo. Agora não é mais.
Desde que estive em sua cidade, um dia também minha, para visitar parentes e amigos que ainda me restam por lá e resolvi ligar no seu antigo telefone, como quem não que nada, apenas para me distrair um pouco, não é mais. Descobri (ou recordei, quem sabe) o quão fácil foi e ainda é gostar de você e a segurança que sinto ao seu lado. Onde já se viu furacão, feito tu, querendo segurança? Não sei. Não sei o que me deu, mas é bom. Não ter medo de afundar é bom, saber que o mundo pode desabar desde que estejas com as minhas mãos em suas mãos é bom. Ter-te calmaria nesse meu eu tão cheio de dúvidas e nenhum limite é bom. Como naquela música “na sua calmaria eu ia ser vulcão”, é bom.
E pensar que o que você era antes não importava. Coitada de mim! Eu simplesmente fazia os meus estragos e saia de fininho, sem dar explicação. Chegava sem avisar, cantava feito sereia para te trazer até mim, derrubava-o quando mais perto, fazia-te esquecer os quase amores que surgiam e ressurgiam entre minhas idas e vindas, tornava-te só meu e ainda mais meu do que em todos os tempos de colégio. Não tinha hora nem lugar, era você que meu furacão vinha devastar e apenas você seria devastado. Era assim. Foi até que os resquícios desta aniquilação me atingiram o peito e eu vi você. Eu vi seus olhos brilharem enquanto me pediam, juntamente com os lábios e a voz, num conjunto orquestrado, que ficasse. Senti os seus abraços nos meus braços que há tempos eram tão meus e não se dividiam. Deixei você me tomar e acalmar toda essa loucura impetuosa e repentina, de vento.
Dessa vez, ao invés de ocupar os seus espaços tive, então, os meus todos ocupados. Vi você entrar em lugares que eu nem sequer sabia existir. Fez-me ter vontade de ficar para recolher os destroços, organizar os seus pertences, dizer (e bem dito) que seriamos dois, de nós. Nunca houve nós, mas, naquele momento, desejei incessantemente que houvesse. E chorei por precisar partir, porque, juro, não queria tanto quanto das outras vezes. Precisava, porém não era de minha maior vontade. Dessa vez, depois de destruir você me encontrei também destruída e ao juntar os seus escombros, carregando os meus tão cheios de culpa, percebi que a minha cura era o seu amor. Cuidar de você acaba com a tempestade devastadora que há dentro de mim e traz de volta o tempo límpido. É tudo mais claro e calmo com você aqui.
O furacão se vai quando tu és o afetado e eu, logo, junto os nossos pedaços num só lugar. Aquela ventania turbulenta e inesperada morre em mim para você viver. E eu vivo mais calma, calmaria. Por você.

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