sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Martelo



Hoje seria um dia normal se as coisas não tivessem acordado de cabeça para baixo. Sim, as coisas, todas as coisas. O sol e o vento gelado que quase nunca estão juntos e estavam; a falta das suas mensagens que já deviam ter apitado no meu celular há muitas horas atrás; o sapato sumido do nada; a ferramenta batendo e batendo uns trinta minutos mais cedo do que deveria. Tenho para mim que foi tudo culpa do martelo. Sabe, o meu dia de cabeça para baixo é culpa do martelo. O martelo do vizinho que estava arrumando eu sei lá o que, culpa de você martelando o meu cérebro dia e noite num mantra inesquecível que grita e repete algo parecido com “pense nele, não, espere, pare de pensar”. Acordei meio fora de mim, confesso. Ou dentro demais, talvez. Sonhei com você e o martelo me despertou. Será um sinal? Que tipo de pessoa recebe como sinal marteladas do vizinho? Eu? Com certeza, eu.

Troquei-me às pressas querendo ir até lá para dizer a ele que ninguém tinha o direito de me despertar dos sonhos bons. Fui, mas comecei a espirrar e não o encontrei em meio a minha crise alérgica. Peguei a bolsa gigantesca que acompanha meus dias corridos desde que chegou, junto com a minha tia, de uma cidadezinha romântica e francesa e desci rumo ao trabalho. Enquanto caminhava, já há um terço de distancia de casa, descubro que havia esquecido a chave da minha loja. Não, eu não tenho uma loja, sou apenas empregada em uma. Disquei o número da minha avó, que é quase um S.O.S e ela, então, veio ao meu encontro para entregar o esquecido da vez , soltando fogo pelas ventas e repetindo sem dó nem piedade “você só não esquece a cabeça porque está grudada”. Ela sorriu, também, depois da bronca, beijou a minha testa carinhosamente e abanou a mão se despedindo enquanto eu corria, para não chegar atrasada, atropelando minhas próprias pernas.

Correr parece sempre ser em vão. Cinco ou dez minutos são de praxe quando o assunto é atraso na empresa. Inevitáveis cinco minutos nesse meu dia que começou de pernas pro ar. O cara do cigarro veio logo cedo e eu fiquei encarando-o por tanto tempo que ele se sentiu acuado e soltou rispidamente um “você ta bem?”. Acenei positivamente. Queria ter dito que não e emendado com a minha negação uma pergunta. Você não se sente mal por vender uma coisa que mata as pessoas aos pouquinhos? O meu pai fuma a mais de trinta anos e eu fico tão triste por ver os efeitos colaterais deste vício, sabe? Não, claro que eu não disse nada, apenas fiquei com uma expressão de maluca, encarando e assustando o coitado do moço, que saiu meio corrido e nem perguntou qual seria a quantidade do meu pedido. Desde que aprendi  que muitas das minhas palavras desenfreadas magoam, fico quieta mais do que falo. Penso bastante, porém raramente exponho aquilo que me toma a cachola. Com você não tem sido diferente. Eu penso um milhão de vezes para te dizer qualquer coisa que seja. Arrependo-me por guardar tudo sozinha, na maior parte do tempo. Agora, por exemplo, queria te ligar e dizer que a nossa briga foi ridícula, que aqueles meninos nada são além de amigos, que você me faz falta e, mesmo sem querer voltar, preciso que você me espere. Eu queria discar o seu número rapidamente e, antes de ouvi-lo do outro lado da linha, gritar em letras garrafais, se é que isso é possível, que não posso mais te dividir com outras. Eu não quero mais ser a outra. Quero-te para mim, inteiro para mim. Eu quero saber que você está sofrendo sem beijar na boca por não ter a minha boca e não querer nada além. Queria te ouvir, mesmo que pelo telefone, dizendo que a gente vai dar certo, sim, que eu preciso acreditar mais e que você vai lutar comigo, por nós.

Mas eu não ligo; você não diz e o meu dia termina do mesmo jeito que começou, de cabeça para baixo, sem você do meu lado, mas feito martelo no pensamento e no coração.

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