“Eu deveria estar feliz”, sussurro baixinho, sem que ninguém me ouça. Metade das pessoas que estão aqui são apenas conhecidas; eu não sei os seus sobrenomes, os sabores de sorvete de que mais gostam ou suas flores preferidas. Ninguém nessa sala toda decorada de verde, vermelho e alguns velas perfumadas, sabe que detestei todos os presentes que ganhei; que não tinha desejado nada além de livros do Caio e do Gabito e um narciso como marca-páginas, talvez. Nenhuma destas pessoas que sorri pra mim e elogia os meus olhos sabe que há pouco o meu avô faleceu e eu não chorei assim que soube; apenas no outro dia e só porquê pensei que não tivesse um coração. Quando recebi a notícia, enviei uma mensagem ao meu pai pedindo desculpas por não estar ao lado dele e dizendo que eu sentia muito, que tiraria aquela dor de seu peito se possível; depois vesti as pantufas vermelhas de minha avó materna e dancei a música número um daquele cd melancólico que ganhei, há dois anos, na formatura do curso de espanhol. Chorei no outro dia, mas só porque dancei quando deveria deixar a tristeza fúnebre tomar conta de mim; porque não queria não ter um coração e sabia que o meu pai ficaria muito decepcionado se soubesse disso. Graças a ele, claro, sei que tenho, sim. E espero estar perdoada por chorar, mesmo que em atraso e não especificamente, a morte de um ente querido.
Esforço-me um pouco para não pensar tanto em bobeiras e parecer mais normal. Sento-me ao lado das pessoas mais falantes, daqueles que vão me olhar apenas para ter certeza de que rio de suas piadas e não a fim de perguntar o que acho disso ou daquilo outro. Para me certificar de que, ainda que haja interrogações eu não tenha condições de responder, coloco alguns salgados no prato e como bem devagar, sem nunca deixar a boca livre para palavras que, de uma forma ou de outra, não querem mesmo sair.
Observo, pela porta entreaberta do lavabo, minha prima de quatro anos e um amigo dela, com três, se não me engano, brincando com um barco que ele acabara de ganhar de seus pais. Ligam a torneira para molhar um pouco o brinquedo e desligam assim que algum adulto os repreende. “Nada de bagunça vocês dois!”. Eles dão aquela risada sarcástica de quem vai obedecer apenas por enquanto e continuar aprontando assim que todo mundo se distrair de novo em suas conversas supérfluas.
Fico olhando por um bom tempo, até perceber em minha prima um olhar de desânimo. Ela parece cansada daquela brincadeira tanto quanto eu dos diálogos alheios na sala de estar. Tenta arrastar o garoto para fora do cômodo frio, mas ele permanece imóvel e totalmente conformado com o divertimento presente em seu barco e na torneira ligada, pelas minhas contas, há uns cinco minutos sem que nenhum adulto grite. Rio por compreendê-la e desligo-me um pouco dos dois.
Levanto da cadeira para pegar mais salgados e continuar com esse silêncio forçado de quem se obriga a não esbanjar simpatia. Escuto, então, o garotinho aos prantos. Largo o prato sobre a mesa e corro até o banheiro com medo de que minha prima, um pouco maior, o tenha arrastado para sala à força. Ele continua parado e, com o rosto pequeno cheio de lágrimas, aponta para o vaso sanitário. Procuro minha menina, preocupada, e acabo que por encontrá-la debaixo da mesa, teoricamente escondida, ciente da bronca que vai levar, porém rindo. Rindo como se estivesse feliz sem poder estar. Aproximo-me do garoto bem menor que minhas pernas e, ao esticar o pescoço para decifrar o que ele aponta, vejo o seu brinquedo dentro da privada.
Começo a rir, enquanto o menino me fita assustado. Eu estou feliz, também, como a minha prima de quatro anos; exatamente como pensei, no começo desta festa chata, que deveria estar. Estou feliz porque descobri que a gente não abandona um barco só quando ele está furado; abandonamos também quando infelizes, quando revelamos a nós mesmos que pertencemos muito mais ao mar que aquilo que nos protege dele.
Tiro minha prima do suposto esconderijo e a abraço fortemente; olho em seus olhos pequenos, tão expressivos e claros quanto os meus, e sorrio sem mover os lábios. Ela corresponde, sorrindo também com o olhar. Fico feliz porque descobri que alguém tão pequena foi capaz de enxergar, assim como eu, que abandonar o barco nem sempre é sinônimo de fuga. Se jogar no mar, às vezes, é a única salvação.

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