O meu despertador tocas às 8:45, em ponto. É um ritual que não sejam horas inteiras; programo-o para me acordar quinze minutos antes do previsto para estar realmente de pé; é um presente dado, a mim mesma, ao amanhecer; uma preguiça extra curtida entre meus olhos ainda inchados de sono e o travesseiro e cama quentes de encontro ao corpo mole de todo dia cedo. Ligo o chuveiro e, enquanto o vapor toma por inteiro o banheiro pequeno e frio, me dispo das poucas roupas de dormir. A água morna vai me despertando aos poucos e descendo das madeixas mais altas ao pé magrinho em frações de incontáveis segundos. Cheiro de shampoo e sabonete se misturam na espuma que desce o ralo. O espelho embaçado reflete um retrato fosco de mim. Fecho os olhos sob a fraca luz. Hoje me recuso a pensar na escassez do planeta e na economia necessária de água e energia. Daqui a pouco ele estará batendo a minha porta e o mundo não importa quando sei que ele vem. Não queria esperar tão feliz por aquelas mãos arredias de encontro às partes mais sensíveis de mim, pelo odor de menino em seu colo de homem, pelos olhos sempre distantes ainda que dentro dos meus. Mas espero. Espero porquê a minha vida só é este espetáculo quase divino entre o levantar e o estar pronta para receber visitas quando ele vem me ver. Nos outros dias sou apenas metade do que é ser; acordo sem relógio; levanto a hora que quero; acumulo trabalhos pra noite que parece não ter fim, não como, não bebo, não assisto aos filmes antigos que gostamos de ver juntos; passo a manhã dentro de um pijama verde claro, de algodão, arrastando os chinelos pelo chão escuro e pensando na porcaria de vida que tenho levado, quando sozinha, por causa da falta de um amor inseparável.
A campainha soa. Enxugo a lágrima caída de meu olho esquerdo, ajeito as cadeiras da mesa de jantar, depois a colcha lilás da cama de casal em meu quarto e corro até o portão cinza, de espaçadas grades, que separa o meu apartamento no térreo da avenida movimentada. Removo o cadeado do fecho de metal e mantenho a passagem aberta enquanto ele tira suas malas do carro escuro. Meu amado está de jeans, camiseta azul e óculos de sol. O cabelo baixinho não traz o topete de meus namorados adolescentes. Sorrio e o vejo retribuindo. Seus dentes cerrados e sem falhas se destacam em meio a barba cobrindo-lhe bochechas, queixo e buço. Agarra-me a cintura antes de dizer qualquer coisa e me beija a boca devagar; encosta os lábios nos meus, com calma, como se estivesse de despedindo, não chegando. Sobe as mãos percorrendo minha coluna e as deixa em meu cabelo, perdendo seus dedos nos fios lisos e quase dourados. Solto meus braços de seus ombros e os coloco em suas costas, puxando seu corpo para mais próximo do meu. Beijamos-nos com mais vontade agora, com mais saudade; o beijo típico de um reencontro, do casal que ficou tempo demais longe, de quem não se via há muito, mas não passou um segundo sem imaginar como seria estar perto outra vez.
Seguro a mão de minha tão esperada visita e a guio para o meu quarto. Deixo suas malas no chão e o beijo outra vez. Entre um carinho e outro, ligo o rádio. Caetano envolve o nosso amor nostálgico. “Você é complexo o bastante; bom o bastante”. Apago a luz principal e acendo o abajur sobre o criado-mudo mogno ao lado da cama, também neste tom. Afasto-me um pouco de seu rosto, olho em seus olhos e sorrio outra vez. “Senti saudades de você”, diz ele, com a voz sussurrada em meio à respiração ofegante. Fico em silêncio. Eu também senti. Beijo-o intensamente e, pelo menos agora, apago de mim qualquer memória que não seja a deste rosto gentil me olhando.
Acordo assustada com um ritmo sem letra e irritante que não vem de meu despertador e muito menos de um poema alla Veloso. Ele tira os braços envoltos ao meu corpo e se levanta rapidamente. Com as mãos cobrindo os olhos, espio entre os dedos o espaço a minha volta. Temos travesseiros e malas no tapete, roupas jogadas e o abajur ainda acesso. No meu relógio digital são 16 horas, mas o cômodo escuro dá a impressão de que já é noite do lado de fora. O barulho em questão foi o toque do celular de meu amado. Concentro-me em sua conversa; pelo tom comedido da voz, sei que é ela quem está do outro lado da linha. Ligou, provavelmente, porque ele “esqueceu” de telefonar avisando que chegou bem ao “hotel” e que as “reuniões empresariais” irão tomar muito o seu tempo no fim de semana. Em meio as palavras brandas dele, dirigidas à esposa, encolho o meu corpo na cama e diminuo o meu ser as aspas da traição. Algumas lágrimas correm involuntárias pelo meu rosto redondo.
Quando o amor vem ao nosso encontro nada do que fazemos por ele parece ser capaz de ter um gosto errôneo, de se igualar ao perigoso e proibido, de ferir tão profundamente. Mas às vezes tem; às vezes é. E a ferida, que cresce, é irremediável a qualquer despertar.

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