quinta-feira, 11 de abril de 2013

Apenas amigo


           Eu acordo triste, todos os dias, por ser seu amigo. Detesto que você goste do meu abraço, me conte seus medos, apresente os seus pais e irmãos e me leve pra dormir na sua casa depois de jantarmos juntos e vermos um “filminho de menina”, como você mesma diz. É horrível te ter me olhando como se tivéssemos nos conhecido com inocentes nove anos e o beijo que demos naquela noite fosse só um teste da situação a qual viveríamos com outros, juntos não mais. Eu queria entender quando você decidiu não ser apenas uma amiga e em que momento desejou voltar a ocupar somente este espaço; sem avisos prévios, sem planejamentos, como se não pudéssemos machucar um ao outro. E podíamos. Pudemos. Machucamos. A falta de regras me fez amar você, mas continuar sendo apenas mais um amigo. Uns beijos no passado remoto e amigo. Nada além.

          Tento fingir que passou, que tudo bem, que eu não penso mais em nós dois, mas é mentira; eu ainda sinto você aqui, ainda gosto do seu cheiro e da textura do seu cabelo; do jeito de falar sem pausas apenas quando paro e olho dentro dos seus olhos, silencia se me disperso com o corpo, precisa da minha atenção completa quando solta a voz e canta os contos cotidianos de quem cresceu rápido demais. Minto pra mim mesmo, tento me convencer de que não me importo se você tem saído com outro cara, tirado fotos com ele e recebido bilhetinhos azuis com coração que eu não escrevi, porém me importo; não gosto nada dessas flores que têm nascido em você e não fui eu quem plantou. Eu odeio você pensando que não deve me contar sobre sua vida amorosa porque nós somos amigos; você devia me contar, como faz com os ex-amores-ainda-não-esquecidos – para esfregar no “nariz empinado” deles que está bem mesmo não estando. Queria você tentando me fazer ver que está feliz se mim, porque não estaria se fizesse isso. Mas você age como se fosse indiferente me passar ou não a informação da paixão da vez só porque é casual e não vai ter casamento, e não vai precisar de padrinho, e eu seria o padrinho. Uma merda de padrinho, se quer saber. Uma porra de amigo; um companheiro filho da puta que não se contem com esse status, que anseia mais. Muito mais do que o recebido até agora.

          Você não devia querer ser minha amiga, sabe? Não deveria desejar a minha companhia, programar passeios, viagens, shows de rock e baladas regadas a álcool; não quero você bêbada me abraçando e sussurrando em meu ouvido que me ama demais e eu sou seu “brother”. Você destrói todas as minhas células saudáveis quando me chama de irmão, não importa em que língua seja. Derruba cada centímetro da minha imunidade quando me declara, para todas as suas colegas de trabalho, o seu “melhor-amigo” e passa o meu número para aquelas duas mais atiradas que não sacaram o que eu sinto de verdade, me vendendo como um cara incrível - mas que você não quis. Eu sou uma espécie de ursinho de pelúcia que você esfregou no meio das pernas quando entrou na puberdade, mas deixou de lado ao conhecer os prazeres da vida adulta. Eu não fui suficiente e você não sentou para conversar comigo porque meus olhos são pedrinhas verdes e minha boca é de botão, e eu estaria ali na sua estante, de qualquer forma, pra você poder chorar no meu ombro quando o mundo estivesse pesado demais. Você ainda me ama, mas é diferente. Você disse que tinha medo de me perder e por isso era melhor sermos apenas amigos, pra sempre amigos, em silêncio amigos. Disse que não queria me magoar e por isso não passaríamos de bons amigos.

          Você só esqueceu de perguntar se eu conseguiria seguir assim. E não, eu não consigo. Não dá pra ser apenas amigo. Não mais. Amar amigo é irrevogável, impossível continuar perto e tirar dessa parte do coração. Amar amigo é a esperança mais ilusória que existe; é alimentar o animal que serviremos na ceia de mais tarde; é crescer o bicho na gaiola; é abatedouro. Amar amigo é se afogar no rio que você mesmo criou. Amar amigo é o bilhete suicida do amor.  

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