A culpa dos relacionamentos que terminam antes do fim é toda dos signos, tenho certeza. Fico dizendo que não acredito na astrologia; que considero esta teoria de que a personalidade é determinada pelo mês de nosso nascimento a maior ilusão; que se as pessoas se amam fazem-dar-certo-e-ponto-final, mas, o mundo inteiro sabe, é nas páginas virtuais de Liz Alguma Coisa que decido se um relacionamento merece as minhas fichas apostadas em peso.
Assim que soube, por exemplo, o dia de seu aniversário, fui correndo para internet combinar os nossos signos, segundo ela, incompatíveis. Foi por causa destas combinações que eu nunca beijei ninguém de aquário. Os tablóides virtuais diziam pra gente “não se envolver”, pois funcionamos “melhor como amigos”. Eu, humildemente e sem nunca arriscar, obedecia às dicas como se fossem regras. Fiquei amiga de todos os aquarianos que surgiram com a intenção de namorar; joguei-os no campo da amizade e nunca mais os tirei de lá. Fugi de alguns durante a puberdade, em que aperto de mão pode simbolizar vontade de beijar na boca. Esquivei-me de todas as investidas e, nunca, nunca me envolvi com ninguém deste signo. Não havia permitido, até então, que o meu fogo ariano caísse no mar aberto de uma pessoa que nasceu entre o primeiro e segundo mês do ano.
Se eu tivesse acatado os conceitos de nossa combinação, como fiz com todos os signos do elemento água, não estaria, agora, com o ombro molhado de lágrimas suas. Você não se sentiria culpado por estar me deixando; eu não seria, realmente, a culpada por esse abandono. Não precisaria segurar o meu choro porque estou em uma praça pública se tivesse lido com calma as entrelinhas de nossa combinação astral e questionado com mais ênfase a tal da porcentagem que me fez acreditar que poderíamos dar certo. Nós não poderíamos dar certo. Mas, crendo que sim, burlei as regras do zodíaco e me neguei a te arrastar para zona amigável de onde ninguém mais pode sair. Eu resisti, achei (sei lá eu, Deus, por que) que com você seria diferente. Achei, apenas.
Não foi diferente e nos culparmos pelo fim não vai adiantar. A culpa é dos signos. Do meu, principalmente; do primeiro e maluco Áries, meio carneiro, insolúvel, solitário. Culpa do seu, assim, tão doce e aéreo, descompromissado, sempre feliz. A culpa do meu rímel em seu ombro é dos signos. A culpa do meu coração apertado junto ao teu é dos signos. A culpa de nos afastarmos, de minhas malas arrumadas, das mudanças do ano que vem, tudo. Lembro-me de você, no começo, com medo de que eu não me apaixonasse e me sinto uma idiota por te ver, agora, chorando inconsolável porque acha que gosto mais do que podia de nós dois. Até isso, eu sei, é culpa dos signos.
Eu deveria ter acreditado, como sempre, nos benditos dos astros e me poupado de machucar você; de ver toda essa gente me encarar, porque você soluça em meu ombro, como se eu fosse um monstro sem coração. Eu devia ter ouvido a Liz (que, recordei, tem sobrenome Greene e não Alguma Coisa) quando ela disse que as relações entre nós seriam muito mais intensas que o previsto, tornando-se, assim, catastróficas, independente do sentimento presente ser (ou não) bom e correspondido.
Eu poderia, caso não tivesse passado por cima das regras astrais, estar indo para aula, às sete horas da noite, sem os óculos escuros me tapando a cara inchada do choro que deixei escapar depois que nos despedimos. Não tinha o direito de duvidar dos únicos elementos que conseguem dizer, assim que nascemos, quem vamos ou não ser ao longo da vida e, assim como nunca beijei ninguém de aquário, eu não deveria ter me apaixonado por você.

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