sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Partilha



A escola na qual trabalho entrou numa vibe sustentável: desde que as aulas recomeçaram, depois das férias de julho, eles não distribuem mais copos descartáveis. "Nada que polui" é o nosso novo lema. E serve para todos. As crianças precisam trazer garrafinhas e quando esquecem, além dos avisos proferidos pelos mais velhos, têm que estender as mãozinhas em formato de cuia e se virarem com o possível. Os adultos, apesar de poderem usar os copos de vidro guardados na cozinha, também tem trazido seus próprios fracos por questão de exemplo. O bebedouro, que possui uma caixa de metal bem grande com água geladinha dentro, tem as mesmas quatro torneiras, mas, diferente de antigamente, nenhum copo plástico pendurado no suporte ao lado. Eu, que não pude ficar de fora desse ambiente ecologicamente correto, também tenho carregado na bolsa uma caneca.

De um plástico mais resistente que dos materiais os quais usamos e depois jogamos fora, minha caneca cor de rosa foi quase um presente. Vi-a pela primeira vez em uma festa de boas vindas da universidade, nas mãos de um calouro de cabelo raspado, graduando em um curso completamente oposto ao meu. De alumínio, estampado com uma caricatura do poetinha, o copo que eu segurava naquele momento carregava por dentro uma bebida clara e doce que me fez, já meio alterada, caminhar em direção ao desconhecido e dizer "oi" como se fossemos amigos há décadas. Peguei a sua caneca, entreguei a minha, e as outras coisas que trocamos naquele dia ninguém precisa saber agora.

Sempre que me dirijo ao filtro, várias crianças se amontoam a minha volta, adoram me ver segurando o apetrecho espalhafatosamente colorido, querem tomar água ali também. Meio egoísta, no entanto, abraço o copo e explico que boca de adulto é uma coisa muita suja e que impureza passa bem fácil de um lado até o outro. Eles me encaram intrigados, ficam meio tristonhos mas superam rápido, depois pegam as suas garrafas ou formam uma concha com as mãos pequenas e matam a sede feito gatinhos novos e ababelados. Volto a caneca na bolsa e, enquanto os alunos tiram das mochilas os seus estojos, sento-me a mesa na sala de aula. Maria Luiza, de quatro anos, corre em minha direção, me abraça e chacoalha uma caneca, também cor de rosa, bem debaixo do meu nariz e profere animada: “Minha mãe comprou, teacher! É quase igual a sua!”. Sorrio e concordo veemente ainda que saiba quão diferentes são os nossos copos. O dela, uma prenda. O meu, escambo disfarçado de recordação.

Respiro fundo, recolho as atividades, termino a aula quinze minutos antes da hora e lavo o meu copo na cozinha. Levo as crianças em fila ao bebedouro e anuncio que hoje todo mundo que quiser pode beber usando a minha caneca. Elas se animam imensamente, pulam, gritam e, aos poucos, vão matando a sede com a ajuda da minha bugiganga. Depois me abraçam e agradecem a partilha. Se Vinicius estivesse estampado naquele copo, talvez eu não dividiria. Mas, como não está, fico aqui tentando não poluir, lembrando um pouco daquele rapaz calouro e esperando que as coisas voltem a ser como foram um dia.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Tempo


Eu estava conversando com alguns daqueles tios de grau distante, que só encontramos em casamento de primos velhos, quando ela se aproximou e puxou para perto de si um dos homens que estava ao meu lado, o abraçou e depois perguntou se ele não queria comer alguma coisa. Achei bonita a preocupação da moça e sorri para a cena acontecendo no canto esquerdo do salão. Meu tio acenou com uma das mãos para que eu me aproximasse dos dois e apresentou-me a garota, sua filha. Olhando-a mais de perto, reconheci a prima baixinha e magricela que correu comigo pelos corredores do casamento dos meus pais, há 17 anos. Rimos juntos da recordação enquanto nos cumprimentávamos. Laura tem os mesmos olhos claros de quando criança, mas está mais alta, menos loira, menos magra e mais bonita. “O tempo voa!” – profiro, incrédulo. Nos abraçamos mais uma vez e, meio desconsertados com os olhares que encaram a minha animação, voltamos para as nossas respectivas mesas.

          Todas as tolhas brancas refletem a luz de vestidos, ternos, flores e lustres coloridos. Os garçons começam a circular pelas cadeiras e, entre uma cerveja e outra, consigo ver, ao lado do bar quente, Laura conversando com os pais da noiva enquanto toma uma bebida verde degrade pelo canudo colorido destacado no copo transparente. As pessoas comem, riem, tiram fotos e eu só percebo que a música começou quando minha irmã mais nova pede para que eu dance com ela no meio de quem já se agita no centro do salão. De mãos dadas às minhas, a pequena de cabelos cacheados nos mistura aos outros convidados, bailarinos e banda. Remexo-me meio sem jeito, apenas para alegrar a menina que se diverte com os movimentos do vestido rodado e amarelo.

          Tomo mais algumas cervejas e procuro por algum vestido azul marinho. Encontro-o a uns passos de mim, em Laura, que está bailando ao som de algum hit dos anos 70, de mãos dadas com o meu tio, seu pai. Ela segura um outro copo, com uma bebida branquinha e o canudo quase tão vermelho quanto os seus lábios. Sorrio novamente e, dessa vez, a moça me encara e devolve o sorriso. Ficamos nos olhando entre uma dança e outra, quase intocáveis, parados em um tempo que passou tão rápido para nós dois. Minha prima ajeita as mangas do vestido, abaixa o rosto, sorri, se desvencilha das mãos de seu pai, me olha e anda devagar de encontro às mesas vazias. Todas as pessoas estão no centro, dançando agitadas. Ela me olha, faz um sinal com a cabeça e continua andando. Laura caminha a minha frente, bem devagar e eu a acompanho, involuntariamente sem pressa, agora em direção a parte de fora do estabelecimento. Nas laterais externas há dois corredores que culminam em um único, elevado, distante, um pouco escuro e esquecido.

Consigo ver cada movimento da sua silhueta, as pernas bem desenhadas, algumas tatuagens meio escondidas e as madeixas lisas na altura dos ombros balançando com a alvorada que sopra o inverno metropolitano. Ela para, encosta na parede e me encara. Respiro fundo, chego bem perto, coloco uma mecha de cabelo atrás de sua orelha e a beijo como se tivesse esperado por isso há anos. Passo as minhas mãos pela sua cintura, encontro cada curva com as pontas trêmulas dos dedos gelados; ela morde os meus lábios e sorri, limpando as marcas de batom das nossas bocas. Abraço-a e sinto o seu cheiro dentro de mim. Laura tira o celular do bolso, anota o meu número em sua agenda, ajeita o vestido azul e me lembra de que precisamos voltar para a festa. Beijo-a mais uma vez, como se fosse a última. Os anos às vezes passam em alguns segundos. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Esquecidos




Logo que cheguei ao velório, pouco antes das nove da manhã, me sentei em um banco branco na enorme sala de espera. De onde eu estava, não se conseguia ver nenhum corpo morto dentro do caixão. Cinco salas rodeavam aquela praça e cinco corredores levavam a esses espaços quem entrava pela porta principal. Nas laterais havia ainda dois banheiros, masculino e feminino, e uma pequena cozinha com geladeira, fogão e uma pia de mármore. Alguns vasos enfeitavam a parede do local com flores brancas e amarelas, no teto apenas o barulho dos ventiladores desbotados e, vez ou outra, havia também alguém que soluçava, chorando dentro de um dos cômodos que eu não conseguia ver. Passei o dia no mesmo lugar. Sentada no mesmo banco. Com um livro aberto nas mãos e nenhuma linha lida.
Quando o meu avô faleceu, há dois anos, também preferi não encara-lo sem vida. Eu me sentei em um banco do mesmo modelo, num cemitério com mais flores, e chorei por horas, a noite toda no mesmo lugar. Hoje, quem nos deixa é a minha bisavó que, ao contrário do que diz o letreiro brilhante e vermelho fornecido pela funerária, não completava 86 anos, mas 88. Ela foi forte e sã até quase o fim da vida, nunca se esqueceu de mim, ou de seu marido falecido há mais de uma década.
Minha mãe anda de um lado para o outro tentando resolver os percalços burocráticos que a morte traz, depois cumprimenta os seus tios e sorri para mim quando não está chorando. Minha madrinha cuida das crianças e, de vez em quando, oferece café aos visitantes.
Na sala fúnebre ao lado de onde minha bisa é velada, um senhor chamado Antônio também se vai. Pelo que diz o letreiro, ele tinha 92 anos e um sobrenome de família jovem e rica. No entanto, poucos vêm se despedir. Eles aparentam ter a mesma idade do senhor falecido, comentam sobre as dores nas costas, os olhos que já não veem mais e essa hora, essa infeliz hora que chegará para cada um de nós. Nenhum deles chora. Ninguém parece se importar de não vê-lo mais.
Alguém acena de longe, para que eu pegue o meu celular. Encontro o aparelho e vejo que meu padrasto deixou uma mensagem perguntando se quero almoçar. Olho de volta para o outro lado da sala de espera e chacoalho a cabeça, respondendo à minha mãe. Ela está no telefone, imagino que talvez seja seu marido do outro lado da linha e, assim, nem preciso me dar ao trabalho de digitar. Levanto um pouco, para ir ao banheiro e, quando retorno, minha madrinha está a minha espera, apontando para um moço bonito e perguntando se me lembro dele. Eu sorrio, digo “oi” e me desculpo por não lembrar. Ele me estende a mão e se apresenta: é um daqueles primos que conhecemos aos três anos e, mesmo sabendo a óbvia resposta, todo o mundo insiste em testar a enganosa memória infantil de quem não se lembra nem do jantar do dia anterior.
Logo o rapaz se despede, e diz esperar me ver mais vezes, em ocasiões menos tristes que essa. Eu concordo, e me sento novamente. Minha avó fica um pouco ao meu lado e questiona se não quero mesmo me despedir. Seguro a sua mão, beijo a aliança dourada ainda em seu dedo e encosto a cabeça em seu ombro.
Poucas pessoas estiveram aqui hoje, menos pessoas do que as que estiveram no velório do meu avô e menos ainda do que todas aquelas que visitaram o meu colega de escola há uns seis anos. As flores também vieram em menor quantidade, as lágrimas eu quase pude contar e as mensagens bonitas, lidas em alto e bom som, nem estiveram na sala. De todas as ocasiões mais tristes em que estive, mais triste foi não me lembrar. Mais triste do que não viver, é não deixar nada para trás.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ultimato


Hoje eu pensei em te ligar. Ainda tenho gravados aqui, no meu celular, o seu número e aquela última conversa que tivemos. Queria contar que ontem de noite, depois de ir a um show horrível, perder alguns ônibus, e encher a cara, eu entrei naquele bar de rock no centro da cidade e trombei com o meu ex-namorado. Não nos víamos há seis anos e três meses. Ele me olhou algumas vezes, incrédulo, cumprimentou timidamente e foi embora antes da música acabar. A atual namorada, ao contrário do que me disseram uma vez, não se parece nem um pouco comigo: é mais alta, mais magra, mais loira e não tomaria cerveja sozinha, já meio bêbada, na mesa de um pub no bairro mais nobre da capital. Eu encontrei também um moço que eu beijei uma vez naquela festa da faculdade onde você se agarrou com a menina do cabelo colorido. Eu pensei em te ligar pra contar como o meu coração ficou apertado com todo esse espaço vazio da minha antiga casa, pedir um abraço, perguntar o motivo de nem tentarmos, de não nos magoarmos e depois nos encontrarmos como semi-desconhecidos em um bar qualquer. Eu não sei o que é pior. Mas gostaria de ligar e tentar entender porquê começamos tão bem e não fomos até o fim. Eu queria ligar e te convidar para conhecer o meu quarto, mesmo que a gente precise sentar no chão e nenhum colchão amenize esse impacto, só pra não ter que te deixar, de vez.

Estamos sem nenhum móvel aqui, desocupamos tudo. As reformas começam na segunda e não dou quinze dias para todas as histórias estarem apagadas das paredes espessas. Às dez da manhã de um sábado eu me mudei dessa casa, levei as prateleiras para a nova; levei o colchão, o lençol, o ventilador, as roupas, as tralhas, as fotos, a cortina azul, o abajur, aquele veneno de colocar na tomada. Depois voltei, me sentei no chão e olhei as paredes brancas do espaço que, por pouco menos de dois anos, chamei de lar. Eu, que sempre penso em me mudar, até então nunca havia imaginado como seria sair daqui. Lá fora, não tem mais nenhuma roupa de menina no varal, nenhuma voz delicada no corredor, nenhum fundo de perfume doce pela sala de estar. Os meninos que eu trouxe para cá, ficam aqui. Eu deixei aqui aquele professor de guitarra, deixei o moço com cara de personagem de quadrinhos, deixei o barbudo tatuado, o mais novo de cabelo bem arrumado e o ex-namorado que me disse “quase não reconheci você” na noite passada. Deixei a cama quebrada, as vasilhas de plásticos mais velhas, uns papéis da faculdade e uma parte do meu coração.

Pensei em te ligar pra contar que as meninas estão me fazendo muita falta, mas eu não quero que elas saibam que estou sendo fraca e choramingando pelos cantos da casa. Queria falar com você pra dizer que ainda leio aqueles textos e só não comprei o seu livro porque não tenho mais o meu emprego antigo. Gostaria de mostrar o meu cantinho pra ver se ele continua sendo meu em uma lembrança que não é a minha, tenho desejado te trazer aqui pra levar daqui pelo menos você. Pelo menos você. Eu pensei em te ligar e falar que muita coisa, mesmo que eu não queira, está sendo deixada para trás nessa mudança. Eu só queria te contar que, quando eu sair de vez por aquela porta, se você não voltar e decidir de uma vez por todas o que somos, nós dois continuaremos aqui, eu e você, sem mim, morando nessa casa vazia sem nenhuma lembrança ou um bom lugar para descansar os pés.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Solidão


Eu nunca estive tão sozinha. De todas as vezes em que fiquei sozinha, em nenhuma eu estive tanto quanto agora. Os meus amigos, que se diziam melhores amigos, não estão aqui. A minha vizinha mudou de casa. O meu avô se foi há dois anos. O guarda-roupas eu precisei dar embora, e agora ele também não está aqui. Não estão os casacos do inverno que não chega. Nem os amores que eu achei que teria aos vinte e tantos anos. Não estão aqui os cachorros que eu desejei adotar, nem o peixe que eu queria chamar de beagle, pra todo mundo amar e não comer. Porque, vocês sabem, todas as pessoas amam beagles. Não estão aqui, também, as chaves da minha casa. Não tem mais, no meu celular, as mensagens que você mandou. O meu antigo emprego não está aqui. Não tem mais os sábados de filme e pipoca. Nem histórias engraçadas antes de dormir.

Olho o relógio: já é tarde. O entregador de pizza não pode vir agora. Não tem comida no armário, não tem nada na geladeira. Os copos estão nas caixas. Os pratos estão nas caixas. Tem caixa em todos os lugares. Eu queria ligar pra alguém e chorar um pouquinho. Eu só queria ficar ali pra saber que tem alguém do lado de lá. Mas o telefone foi vendido hoje de manhã, dentro de uma caixa. Vendemos também a televisão, a mesa de jantar, as cortinas da sala, as cadeiras da varanda, a escrivaninha, o microondas. Quebrei um vaso de flores que íamos vender também: me desequilibrei, encostei na peça de vidro e, de encontro ao chão, ela se partiu ao meio. Juntei seus cacos, os meus cacos e me sentei um pouco.

O trabalho novo eu dispensei no segundo dia. Não tem mais aquela chefe mal educada me dizendo a cada cinco segundos o que fazer, a cada cinco segundos uma nova coisa a se fazer, sem nem proclamar, mesmo que bem baixinho, um “por favor” ou “obrigada”. Não tem mais a Clara, de 4 anos, querendo me levar pra morar na casa de sua boneca pelada. Não tem o Enzo, da mesma idade, segurando a minha mão trinta minutos depois de me conhecer. Nem o Murilo me pedindo colo pra tirar um cochilinho. Não tem os adolescentes do ano passado tentando me enrolar pra ligar música de balada na sala de aula.

O meu pai não está aqui. A minha mãe ainda não pode vir. A minha avó tem trabalhado tanto. O meu tio prepara o casamento que, meu deus, já é em maio. A minha tia têm os filhos, é difícil viajar com crianças, as crianças choram demais, as crianças comem demais, as crianças fazem muito xixi, e elas se sujam, e tem o material da escola, e a natação, e todos esses aniversários de começo de ano. Vinha, até ontem, aquele grupinho da universidade. Mas hoje não. Hoje não estão aqui as minhas amigas do ensino médio, não estão aqui as do cursinho, não estão aqui também as do prézinho nem as do trabalho. O meu melhor amigo não está aqui. Quem sempre esteve ao meu lado parece não estar mais aqui. 

          Agora sou eu, o barulho do ventilador e, às vezes, uma mosca que se mete a besta. Então eu tiro um pouco o pijama, corro até a padaria, digo “bom dia”, compro um inseticida. E volto mais devagar, olhando as escadas da farmácia. Depois entro em casa, jogo no quarto o veneno de insetos e espero lá fora, de nariz tapado. A mosca rodopia atordoada e cai. Sou eu, o barulho do ventilador e, quem sabe, o sono chegando. Sou eu e a solidão. Ninguém mais morando em mim.