Acordar sozinha no dia em que faço vinte anos foi só o começo do não conto de fadas que é crescer de verdade. Eu recebi algumas ligações pela manhã, mas nenhum abraço passou pela linha do telefone; ninguém beijou os meus cabelos, como o meu avô fazia; ninguém olhou nos meus olhos pra dizer que eu sou fantástica e que minha personalidade, ainda que extremamente forte, é das mais encantadoras; não havia um bilhete sob os meus livros nem um bolo de massa escura em cima da mesa. Eu levantei, arrumei as camas; lavei alguns pratos, talheres e copos que estavam na pia desde a noite anterior e sentei à mesa para estudar.
Quando o meu pai me ligou, eu chorei um pouco, porém não permiti que ele percebesse. Minha avó telefonou em seguida e eu ainda estava secando os olhos; ela me contou que minha bisavó, beirando os noventa anos, tem perdido sua lucidez conforme o tempo passa. Segundo ela, eu morri há quinze dias. Sua filha, que agora está comigo do outro lado da linha, não foi ao meu enterro; meu pai foi, mas não chorou muito. Minha mãe não consegue parar de chorar. Dizem que perder um ente querido para a inevitável morte é mesmo assim, sofre mais quem não aproveitou cada segundo de nossa viva presença. Coloco o aparelho no gancho e abro a página da rede social para ler as possíveis felicitações vindas de lá. Olho as mensagens mais longas com carinho, apago as das pessoas que não se deram o trabalho de escrever nada além do clichê “tudo de bom” e olho as fotos do meu último ano. Peca quem pensa que começamos a crescer com dezoito, o mundo se mostra mesmo é aos vinte. Aos vinte você descobre que os seus medos de criança não estão curados; que os amores antigos ainda não foram totalmente cicatrizados; que a casa dos pais é mesmo o melhor lugar do mundo, mas não é mais o seu lugar.
Olho para a mesa do jantar repleta de livros e penso que, apesar de estar exatamente onde queria, eu estou sozinha e, talvez por isso, minha bisa não esteja assim de todo errada ao dizer que morri nos últimos dias. Morremos um pouco a cada dia, de qualquer forma, sem nos darmos grande conta disso. Hoje, dezoito do quatro, uma data que a meu ver não combina muito - como doze do dois, ou três do seis -, eu completo vinte primaveras e, as vezes, ainda esqueço de como nossa vida passa rápido, de como a gente vai morrendo ao envelhecer. Esqueço o que os aniversários chegam para nos lembrar: que o tempo não para, que o tempo voa e escorre pelas nossas mãos sem que possamos escolher segura-lo com mais força.
Há vinte anos os meus pais ainda estariam casados por mais dois; meus irmãos mais novos, hoje com dez e onze, não faziam parte dos planos de ninguém; meu irmão mais velho, agora casado, não passava de uma criança arteira que não queria dividir o quarto. Há vinte anos minha bisavó não completara nem setenta e ainda tinha vivo o marido que mais tarde me apelidaria de Baballo e me deixaria passar o dia brincando em uma bacia de alumínio com água.
Ao completar vinte anos eu descobri que ficar sozinha não é tão divertido quanto mostram os filmes americanos em que os pais deixam a criança em casa, depois de esquecê-la em meios às malas da viagem de férias, e ela se diverte mais assim a que se tivesse ido com eles. Aos vinte anos eu me vi chorando em uma cadeira estreita, como se tivesse dois e fosse esquecida pela família que, na verdade, está programando uma festa surpresa. Hoje, com vinte anos, eu não ganhei uma festa pela primeira vez na minha vida e, mesmo sempre dizendo que não gosto de fazer aniversário, senti a dor que é não ter ninguém ao meu lado comemorando o dia em que nasci. Aos vinte anos eu descobri que o preço por ter asas maiores que a vontade de ficar é precisar voar sem ter companhia.

Nossa, descobri que minha amiga é uma escritora!
ResponderExcluirParabéns Dani! Não sabia que vc tinha um blog.
Adorei ler seu texto =)
Relaxa, às vezes a gnt se sente assim ..
Mas saiba que vc não está sozinha; se está se sentindo um pouco solitária acredito eu que é pro seu bem (está fazendo algo que gosta) e que daqui uns anos estará de volta ao aconchego, caso vc queira ;)
Parabéns!!
Não é sempre que se faz 20 anos, lindona !!
Ana Ligia
Anaaa, obrigada! Hahaha *-*
Excluir~adoro ser chamada de escritora~
E, sim, a solidão de agora é o passaport pra um futuro melhor, eu sei. Obrigado pela força, viu? Você e as meninas têm me saido ótimas companheiras.
Beijos ;**
Poxa, que lindo, Dani! Sabe aquela dor no peito, quando algo mexe lá no fundo e mexe fundo?
ResponderExcluirVocê dá conta de sempre me fazer chorar... Que coisa!
Desejo que, agora com vinte, você aprenda lidar com isso e encontre em cada momento de solidão, a sua melhor companhia em você mesmo!
Te amo por ser assim e sempre tirar de mim boas sensações e afins! Você é uma linda e é isso... rs
Poooxa, Kellynha, você que é uma linda com esse comentário (e todos os outros que sempre faz) *-*
ExcluirFico muito feliz de ainda conseguir agradar quem, assim como você, já me lê há algum tempo.
Com certeza vou tirar proveito das situações em que fico mais sozinha. São bons aprendizados, viu?
Obrigada pela força!
Beijo enorme <3