Eu estava sentado nas escadas do departamento
de matemática aplicada, conversando com Júlio - meu amigo desde o começo da
graduação, época em que as dependências e recuperações ainda nem passavam pela
nossa cabeça - quando aquele cara estilosinho do quarto ano, presidente da
atlética (que se porta como se isso fosse um cargo realmente importante) se
aproximou. Ele ofereceu convites pra uma festa de Halloween que vai rolar na
sexta, mas, como ainda não decidi se apareço por lá, digo que não vou. Qualquer
sinal de indecisão abrirá espaço para aquele típico e chato assunto de vendedor
insistente o qual eu nunca tive o mínimo de paciência para aturar.
Júlio comprou o ingresso na semana passada, quando viu que a mocinha ruiva do terceiro ano estava comprando também. Meu amigo é afim da moça desde que ela entrou aqui, há uns dois anos, porém não moveu uma palha para se aproximar. Bom, para ser bem sincero ele moveu algumas: adicionou no Facebook, deu coração no tinder, clicou no "sim" do badoo, curtiu todas as fotos do Instagram e até puxou assunto num sábado de noite, elogiando os olhos oblíquos e claros da menina. Nenhuma palha (todas virtuais) movida, no entanto, fora direta e eficaz o suficiente para conquistá-la. Júlio acha que Laís é areia demais para o caminhão batido que ele acreditar representar. Além disso, segundo ele, tem todo aquele problema logístico dos dois não estudarem no mesmo período e morarem longe um do outro – como se isso pudesse realmente se tornar um empecilho em algum momento. Meu amigo tem mais coragem de ficar com mil outras raparigas menos bonitas (e nem me refiro apenas a beleza física não) e mais acessíveis do que mandar uma mensagem convidando Laís para um passeio pelo campus universitário.
Eu, sinceramente, não consigo entender. Não entendo Júlio e nenhum outro cara (dessa universidade ou de qualquer lugar do mundo) desistindo de uma mulher por causa de um pedregulho no canto de um extenso caminho cheio de possíveis desvios. Sempre que ouço uma dessas histórias recordo o momento em que me apaixonei pela garota da loja de óculos e de quando viajei, quase sem rumo e sem dinheiro, para visitá-la.
A loja em que Ana trabalhava ficava em frente ao restaurante dos meus pais. Às vezes, ela e as amigas ligavam pedindo comida e entre uma entrega e outra nós nos conhecemos e começamos a conversar. Ela era linda, de sorriso cândido e sereno, olhos grandes e bochechas coradas; os cabelos loiros lhe tocavam os ombros; usava todos os dias uma cardigan colorida e escondia os pés no all star surrado herdado da irmã mais velha. Ana adorava a minha falta de jeito em arrumar o cabelo e escolher filmes românticos; deixava os dedos dançarem em minha barba descendo-os até o peito coberto pela camiseta de dormir. Aliás, conseguia ficar ainda mais bonita ao se vestir com os meus quase-pijamas. Parodiando Machado: nosso amor tomou de mim três meses, doze dias e uma parte importante do coração.
Quando Ana me disse que precisaria tirar as amídalas e ficar uns dias na casa de sua mãe, prometi que daria um jeito de visitá-la. Suportei cinco horas de viagem, um ônibus lotado, quinze curvas sinuosas, duas crianças chorando e uma terceira vomitando na sacolinha de plástico ao meu lado. Cheguei à rodoviária e, sem dinheiro para o táxi, caminhei por sete quarteirões até chegar, enfim, onde estava minha amada. A mãe de Ana me fez comer quatro pedaços de lasanha e tomar dois copos de suco para que ela tivesse certeza de que a comida estava realmente boa, depois me pediu para aconselhar a garota a comer direito e tomar os remédios e não ficar conversando demais. O irmão mais novo passou o dia me encurralando para ter um pouco de atenção e falava mais do que se permite o Ministério da Saúde (se é que existe essa precaução para as cordas vocais). De todas as mil palavras que saiam de sua boca eu só compreendia uma ou duas delas e repetia insistentemente: “Já vemos isso, garotão!”. Ana me olhava compadecida e sussurrava um pedido de desculpa que eu aceitava devolvendo-lhe uma piscadela. Não pude beijá-la por causa das bactérias, não pude deitar ao seu lado porque alguma visita estava sempre batendo a porta do quarto, não pude ficar muito tempo porque precisava voltar e trabalhar no dia seguinte, mas cumpri a minha promessa, eu estava lá quando Ana precisou e, apesar de não termos durado a vida inteira como previ nas cartas em que escrevi, ela me deu romances maravilhosos enquanto Júlio tem ganhado de moças que não são Laís, no máximo, um apanhado de bilhetes mal escritos.
Não sei o
que vocês esperam, mas é preciso ter um pouco mais de coragem para ser feliz. Eu,
pelo menos, não trocaria essa história por nenhuma outra mais acessível com
qualquer garota mais ou menos bonita que tenha por aí.




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