quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Coragem, amigos



Eu estava sentado nas escadas do departamento de matemática aplicada, conversando com Júlio - meu amigo desde o começo da graduação, época em que as dependências e recuperações ainda nem passavam pela nossa cabeça - quando aquele cara estilosinho do quarto ano, presidente da atlética (que se porta como se isso fosse um cargo realmente importante) se aproximou. Ele ofereceu convites pra uma festa de Halloween que vai rolar na sexta, mas, como ainda não decidi se apareço por lá, digo que não vou. Qualquer sinal de indecisão abrirá espaço para aquele típico e chato assunto de vendedor insistente o qual eu nunca tive o mínimo de paciência para aturar.

         Júlio comprou o ingresso na semana passada, quando viu que a mocinha ruiva do terceiro ano estava comprando também. Meu amigo é afim da moça desde que ela entrou aqui, há uns dois anos, porém não moveu uma palha para se aproximar. Bom, para ser bem sincero ele moveu algumas: adicionou no Facebook, deu coração no tinder, clicou no "sim" do badoo, curtiu todas as fotos do Instagram e até puxou assunto num sábado de noite, elogiando os olhos oblíquos e claros da menina. Nenhuma palha (todas virtuais) movida, no entanto,  fora direta e eficaz o suficiente para conquistá-la. Júlio acha que Laís é areia demais para o caminhão batido que ele acreditar representar. Além disso, segundo ele, tem todo aquele problema logístico dos dois não estudarem no mesmo período e morarem longe um do outro – como se isso pudesse realmente se tornar um empecilho em algum momento. Meu amigo tem mais coragem de ficar com mil outras raparigas menos bonitas (e nem me refiro apenas a beleza física não) e mais acessíveis do que mandar uma mensagem convidando Laís para um passeio pelo campus universitário.

       Eu, sinceramente, não consigo entender. Não entendo Júlio e nenhum outro cara (dessa universidade ou de qualquer lugar do mundo) desistindo de uma mulher por causa de um pedregulho no canto de um extenso caminho cheio de possíveis desvios. Sempre que ouço uma dessas histórias recordo o momento em que me apaixonei pela garota da loja de óculos e de quando viajei, quase sem rumo e sem dinheiro, para visitá-la.

           A loja em que Ana trabalhava ficava em frente ao restaurante dos meus pais. Às vezes, ela e as amigas ligavam pedindo comida e entre uma entrega e outra nós nos conhecemos e começamos a conversar. Ela era linda, de sorriso cândido e sereno, olhos grandes e bochechas coradas; os cabelos loiros lhe tocavam os ombros; usava todos os dias uma cardigan colorida e escondia os pés no all star surrado herdado da irmã mais velha. Ana adorava a minha falta de jeito em arrumar o cabelo e escolher filmes românticos; deixava os dedos dançarem em minha barba descendo-os até o peito coberto pela camiseta de dormir. Aliás, conseguia ficar ainda mais bonita ao se vestir com os meus quase-pijamas. Parodiando Machado: nosso amor tomou de mim três meses, doze dias e uma parte importante do coração.

         Quando Ana me disse que precisaria tirar as amídalas e ficar uns dias na casa de sua mãe, prometi que daria um jeito de visitá-la. Suportei cinco horas de viagem, um ônibus lotado, quinze curvas sinuosas, duas crianças chorando e uma terceira vomitando na sacolinha de plástico ao meu lado. Cheguei à rodoviária e, sem dinheiro para o táxi, caminhei por sete quarteirões até chegar, enfim, onde estava minha amada. A mãe de Ana me fez comer quatro pedaços de lasanha e tomar dois copos de suco para que ela tivesse certeza de que a comida estava realmente boa, depois me pediu para aconselhar a garota a comer direito e tomar os remédios e não ficar conversando demais. O irmão mais novo passou o dia me encurralando para ter um pouco de atenção e falava mais do que se permite o Ministério da Saúde (se é que existe essa precaução para as cordas vocais). De todas as mil palavras que saiam de sua boca eu só compreendia uma ou duas delas e repetia insistentemente: “Já vemos isso, garotão!”. Ana me olhava compadecida e sussurrava um pedido de desculpa que eu aceitava devolvendo-lhe uma piscadela. Não pude beijá-la por causa das bactérias, não pude deitar ao seu lado porque alguma visita estava sempre batendo a porta do quarto, não pude ficar muito tempo porque precisava voltar e trabalhar no dia seguinte, mas cumpri a minha promessa, eu estava lá quando Ana precisou e, apesar de não termos durado a vida inteira como previ nas cartas em que escrevi, ela me deu romances maravilhosos enquanto Júlio tem ganhado de moças que não são Laís, no máximo, um apanhado de bilhetes mal escritos.

Não sei o que vocês esperam, mas é preciso ter um pouco mais de coragem para ser feliz. Eu, pelo menos, não trocaria essa história por nenhuma outra mais acessível com qualquer garota mais ou menos bonita que tenha por aí. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Transbordar



Hoje de manhã entrei na sala cerca de dez minutos antes da aula começar e pude participar, meio sem querer, de um pedacinho da conversa de duas alunas. As outras duas não estavam na sala: uma faltou porque foi ao médico e a segunda porque ainda não voltou de viagem. Dei “buongiorno” às moças, como sempre faço, e fui organizando o material na mesa que divido com o outro professor de italiano. Elas me responderam sorrindo, olharam o relógio e voltaram a fuxicar no cantinho da sala. Laura lia para Carol algumas dicas de, segundo o que consegui escutar ali de longe, “como conquistar o amor de sua vida”. Pelo que me lembro, você não pode demonstrar que gosta quando gosta, tem que fingir que gosta pouquinho se gostar muito; precisa ser simpática sem parecer atirada; sexy sem ser vulgar; e engraçada sem se tornar um desastre ambulante, apenas aquela doçura atrapalhada que a gente costuma ver nos filmes de comédia-dramática-romântica-hollywoodiana. Não pode ser desorganizada, nem usar roupas da avó, ou deixar as unhas mal pintadas. É proibido falar alto, fazer declarações em público, chorar no cinema, chamar para tomar sorvete ou mandar mensagem perguntando se o rapaz está bem caso vocês ainda não tenham se beijado umas duas ou três vezes. Ele precisa se apaixonar primeiro, então não brigue por causa de política, não seja feminista, esquerdista, nem trabalhe com crianças que jogam tinta guache cor de rosa na sua camiseta amarela de ursinho marrom. Não tenha uma camiseta amarela de ursinho marrom. Sorria sempre, não seja ciumenta nunca e responda “talvez” para toda pergunta. Segundo Laura (que leu isso em algum lugar), parecer confusa é o charme do século.

       Silencio as garotas e começo a aula. Estou ensinando-as a conjugar verbos no presente do indicativo. Eu adoro verbos. Os alunos não. Fico me perguntando se eu precisaria detestar verbos para encontrar o amor da minha vida ou se tudo bem gostar um pouco da gramática normativa. Penso em pedir para que Laura consulte a sua revista de dicas, mas desisto na metade do caminho. Os meus vinte e tantos anos não permitem mais essas fantasias de menina. Passo alguns exercícios na lousa e espero que resolvam sem a minha ajuda. Depois corrigimos juntas. O italiano delas fica cada dia mais bonito, o coração eu já não tenho tanta certeza. Não sei quando exatamente o amor passou a ser um jogo cheio de regras, mais complicado que o xadrez de cristal guardado pelo meu avô no armário de madeira rústica da sala da nossa antiga casa, mas não sei lidar com isso, não gosto de precisar lidar com tanta burocracia dentro de um sentimento que sempre me pareceu tão repleto de prontidão e desembaraço.

O sinal soa no alto da porta e antes de dispensar Laura e Carol, resolvo perguntar se elas têm medo do amor. As duas balançam a cabeça acenando positivamente e me dizem ainda que não querem se magoar. Sorrio amarelo, levanto os ombros, e libero a passagem da porta com a promessa de retomar esse assunto num outro dia, em italiano. Elas riem e se despedem de mim. 

        Também tenho medo do amor. Tenho um medo absurdo desse amor que precisa de manual, descrição, dica tabulada, prescrição médica, mestrado e doutorado pra ser sentido. Tenho pavor desse amor que estampa a capa das revistas e não escreve nenhuma carta, desse amor que dói menos do que as minhas tatuagens e que a minha colega de quarto tem curado lendo livros pequenos. Tenho horror a esse amor que deseja que sejamos todos iguais, como numa fábrica de bonecas de plásticos; que não permite que sejamos malucos, doidos de pedra, loucos da silva. Tenho fobia desse amor racional, mensurável, limpinho, de meia tigela, que deixa tudo sempre no mesmo lugar. Aliás, isso não é amor. Não é amor se não transbordar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pior do que tá, fica sim



Hoje de manhã, no ônibus, uma mulher comentou com um rapaz que ela vai de Aécio sim. Outra, que não participava da conversa, respondeu prontamente que votar no tucano é dar um tiro no próprio pé e que nossa presidente deve ser reeleita para ontem. Segundo a protetora dos direitistas, Dilma enganou todos os pobres com a ninharia do programa Bolsa Família e umas casinhas que, como sugeriu a passageira, ela construiu e distribuiu aos favelados. Para a defensora do atual governo, Aécio é candidato de elite e se pobre sofre agora, vai é se foder caso o candidato seja eleito.

           Alguns instantes depois, as senhoras passaram de uma conversa matinal sobre política para um debate acalorado. Foram, aos poucos, arrumando fãs e inimigos em meio ao balanço do trânsito nas avenidas movimentadas pelo horário de pico. Logo não éramos mais passageiros do transporte publico, mas a Assembleia Nacional Constituinte francesa nos fins do século XVIII, e os argumentos das donas tilintavam sem parar no ar abafado do veículo. Uma bradava sobre os feitos do PT com relação à diminuição da miséria no país, a outra falava sobre os escândalos de corrupção envolvendo este mesmo partido. Uma dizia que Dilma rouba sim, mas se lembra um pouco de quem não tem onde cair morto; a outra protestava que ladrão por ladrão, melhor encher o bolso de um novo, porque não é possível ele ser pior que o vigente. A seguidora do PSDB ainda concluiu o seu relato dividindo a felicidade por, graças a Deus, pelo menos Alckmin ser reeleito logo de cara. Eu, como professora, desejo, em pensamento, que Deus caia duro lá do céu se tiver mesmo alguma coisa a ver com Geraldo assumindo outra vez o cargo de governador do estado de São Paulo.

           Alguns passageiros sabem pouco e falam demais em meio as vozes das duas mais empolgadas, outros, ainda confusos, se olham abismados e indecisos entre dar uma opinião ou segurar a língua inexata dentro da boca. Tem aqueles que riem da cena, e também uns dois ou três se escondendo do mundo em seus fones de ouvido. Justo hoje esqueci os meus na gaveta da escrivaninha. Desço do ônibus quarenta minutos depois de pegá-lo no terminal e a discussão, que começou logo no início do trajeto, agora segue animada sem mim.  

          Quando chego ao meu trabalho e vou até a sala de informática para adiantar uns relatórios, me deparo com dois alunos discutindo também sobre o segundo turno das eleições. A menina fala que Aécio trabalhou muito pelo estado de Minas e até abdicou de seu salário enquanto governava; o garoto, por sua vez, argumenta que Aécio fez isso por causa das propinas que recebia, coisa que, segundo ele, até a esposa do candidato confirmou em um jornal noturno. A garota balança os braços como se a acusação não tivesse nenhuma importância, e profere ainda que qualquer coisa é melhor do que a atual presidente eleita outra vez. Levanto-me, saio da sala e procuro desesperadamente por alguém que me empreste fones de ouvido. Não quero perder o controle e jogar pessoas pela janela de ônibus em movimento ou escolas particulares. Cansei!

 Vocês vivem criticando o deputado Tiririca, mas adoram usar o bordão do humorista como argumento para um voto descabido. O problema é que pior do que "tá", fica sim. Fica e muito. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Coração



Acordo uns cinco minutos antes do despertador tocar, com a barulho do vento batendo à janela. Espreguiço na cama quentinha, jogo os cobertores pro lado e solto o cabelo. Caminho até o banheiro, ligo o chuveiro devagar e deixo a água, aos poucos, tirar das madeixas a marca do elástico que as prenderam durante o meu sono. Tomo o resto de suco de laranja da garrafa retornável e me arrumo para o trabalho. Olho o celular e percebo que Pedro me deixou, na noite anterior, uma mensagem de boa noite. Depois de alguns instantes, perguntou também sobre os meus planos para o fim de semana e disse baixinho do outro lado da linha: "vê se me liga, tá?". Nós nos conhecemos na noite cultural aqui do bairro, no primeiro dia da primavera, e descobrimos tantas coisas em comum que tenho a sensação de que Pedro sou eu num corpo de menino: os mesmos gostos, os mesmos gestos e o mesmo olhar profundo. Não sei, no entanto, o quanto isso me afasta ou me leva para mais perto do rapaz. Não tem nada mais perigoso do que se apaixonar por alguém tão parecido conosco. Não tem nada mais gostoso que isso também. Respiro fundo, engulo o sorriso bobo e decido não responder à mensagem por enquanto.

          No ônibus, um senhor carrega uma caixa de papelão cheia de guloseimas e pergunta de banco em banco se alguém quer comprar. Ele sorri, mas lhe faltam alguns dentes. Tiro da bolsa o dinheiro que havia separado para a hora do almoço e compro um pacote de canudos de doce de leite. Poucas coisas no mundo deixam o meu coração tão compadecido quanto um sorriso vazio, almoçar a sobremesa só por um dia não há de fazer nenhum mal. Guardo os doces na bolsa; aperto o botão para solicitar a parada e agradeço ao senhor, devolvendo o sorriso enquanto desço as escadas.

         Luca já está me esperando no portão da escola quando chego, e segura nas mãos uma bolsa plástica repleta de formas geométricas coloridas. "Me espera na aula, moçoilo, já disse!". Ele solta uma gargalhada, deseja bom dia e caminha ao meu lado enquanto conta sobre os filmes de que mais gosta. Diz ainda que nós deveríamos fazer um teatro, porque eu sou a cara da viúva negra e ele quer ser o arqueiro-não-sei-o-que. Luca tem uma doença degenerativa, às vezes fica dias sem aparecer por aqui, e aos poucos vai perdendo a memória, a visão, os movimentos. Sorrio concordando com a ideia de me tornar uma super-heroína, desejando assiduamente que um dia alguém com grandes poderes possa mesmo salvar do perigo meninos como estes que eu encontro no trabalho.

         O dia voa, volto pra casa, tomo outro banho e dirijo até a faculdade. Encontro os meus amigos no saguão do bloco principal e, como não temos a primeira aula, vamos juntos até o restaurante universitário, agora fechado, para rever uns exercícios da semana anterior. Eles estendem os materiais na mesa enquanto eu encaro a mocinha sentada, de costas pra nós, no fundo do refeitório. Caminho até ela com a desculpa de que preciso jogar um lixo no cesto. A garota janta sozinha, com a luz apagada. E gente comendo sozinha, acuada num canto, também parte o meu coração. Comento sobre os insetos horríveis que sobrevoam a lâmpada acessa: "tomara que seja chuva". Ela concorda comigo, e abre um sorriso. Despeço-me e volto aos estudos.

Tem dias que o mundo fica nos testando e, não tem jeito, nós nos abrimos. Tiro da bolsa os doces de mais cedo e divido com os meus colegas; pego o celular e envio uma mensagem ao Pedro: "fiz planos para nós dois no fim de semana". Talvez não seja assim tão ruim gostar de alguém que tenha um pouco de mim dentro do seu próprio coração.

sábado, 20 de setembro de 2014

Enlouquecer


Ontem de tarde, quando a chuva começou, tive a impressão de que as coisas iam melhorar. O céu desaguava em toda a cidade, o quintal aqui de casa parecia um lago profundo e escuro no qual eu teria imenso pavor de mergulhar; o vento forte arrastava os tapetes da varanda e fazia dançar o lençol branco no varal; as janelas se moviam num vai-e-vem fantasmagórico e as luzes se apagaram minutos depois da tempestade começar. Acendi a vela que estava escondida no fundo da gaveta do armário da cozinha, tirei da tomada os aparelhos eletrônicos e fiquei olhando por trás do vidro da porta os raios que caiam do lado de fora. Geralmente tenho medo do escuro, mas pensei que se a chuva levasse embora o calor insuportável dos últimos dias, levaria também essa sensação de que vou enlouquecer antes da hora.

Não sei bem quando essa quase-loucura se aproximou de mim, mas já faz um tempo que ela está aqui, e fica mais perto a cada dia, tanto que às vezes parece que nunca mais vai me deixar, e cedo ou tarde será tão dona de mim quanto eu mesma.

No começo imaginei que poderia ser saudades de casa. Eu sinto tantas saudades de casa, dos plátanos na avenida, das hortênsias roxas espalhadas pelas calçadas, do frio nas mãos e na ponta do nariz, da água aquecida na torneira da pia da cozinha, das cobertas na cama, da geladeira vazia, das crianças correndo pela sala e chamando o meu nome, dos amigos os quais nunca substitui. Mas essa saudade já esteve comigo em outras temporadas e nunca veio acompanhada de nenhum surto. No máximo um choro no fim da tarde, um apertozinho no coração e aquela vontade de deixar tudo para trás e voltar para o alto da serra.

Também cheguei a pensar que pudesse ser por causa de você, que me procurou na semana passada, falou coisas bonitas e depois desapareceu. Achei que a quase-loucura estivesse aqui porque eu me apaixono fácil e nos imaginei tão juntos que quase fui capaz de acreditar que ficaríamos assim de verdade. Você tem os olhos tão profundos quanto o lago que a chuva formou no meu quintal e os cabelos que o meu pai quis ter naquele verão em Natal; você compõe músicas românticas, fala italiano e sabe cozinhar, como é que eu podia não me apaixonar? Mas não, a quase-loucura não pode ser só culpa sua. Apesar de ter ficado mais intima dela depois de você, ela já estava aqui quando nos falamos pela primeira vez, ela já morava um pouco em mim quando eu pensei que poderia te levar até a minha casa e te apresentar à minha família, ela já dormia na mesma cama que eu quando decidi que era melhor não te procurar porque você parece tão perfeito para estar ao meu lado quanto parece perfeito para estar ao lado das outras garotas do mundo.

Imaginei ainda que a quase-loucura pudesse ter sido trazida pela falta que o vovô me faz, pelo dia em que uma amiga me deu um remédio e eu tive que pesquisar os efeitos no Google ao invés de ligar para aquele que sempre entendeu tanto das minhas dores hipocondríacas. Pensei que pudessem ser as provas da graduação, os livros que eu não li, o santo que não bate mesmo com o da nova moradora do condomínio, os ares ruins de um setembro que eu preferia ter passado para frente sem respirar.

Mas não é, a quase-loucura surgiu aqui muito antes de tudo isso chegar. Eu não sabia bem, porém a moça é velha de casa e um dia se tornará tão chegada que passarei a ser quase-eu para que ela se espalhe.  

sábado, 6 de setembro de 2014

Não hoje



Eu estava escutando repetidamente a música fofa daquele filme que estreou essa semana quando ouvi uma batida leve na porta do meu quarto. Esperei um pouco e girei a maçaneta. Do outro lado, parada e com os olhos marejados, estava Cecília, a nova moradora aqui de casa. Somos em mais três meninas e a chamamos de Cecí. Ela tem um corpo bonito e os cabelos tão compridos quanto os meus há uns cinco meses; tem olhos bem desenhados como a protagonista do filme dessa música que está ressoando em minha mente desde que liguei o computador. Eu deveria estar estudando, mas preferi fazer um desenho bonito na unha e esperar uma mensagem sua. São quase 19h e Cecí veio até aqui para pedir que eu não saia lá fora caso a campainha comece a chamar. Ela terminou o namoro e não quer ver o moço por hoje. Tento perguntar se está tudo bem, mas não obtenho resposta, a garota balbucia algumas palavras ininteligíveis, soluça e entra no quarto ao lado aos prantos.


Lembro de quando a Barbára terminou com o namorado e também chorou, no coquetel da engenharia. Ela chorava sempre que o via em alguma festa da faculdade. Soube que ele também chorou, estarrecido, quando ouviu que a moça não queria mais nada ao seu lado. E eu achava que eles formavam um casal tão bonito! Quase tão bonito quanto o do filme que estreou essa semana e eu assisti ontem com uma amiga. Bia chorou muito no filme, porque se lembrou do Gu e de como o relacionamento deles findou antes mesmo de entrar nos trilhos e ter uma trilha sonora tão bonita quanto essa que eu estou escutando desde às 10h da manhã. E teve o choro da moça da poltrona a minha frente, que tinha um som de chuva e me fez ficar pensando como é que eu voltaria pra casa de moto quando os créditos começassem a passar.


Aqui em casa todo mundo tem uma história triste de algum relacionamento cancelado pelo tempo, pela distância, por uma terceira pessoa na jogada, por uma pedra chata no sapato dos amantes, às vezes por nada existe uma história de amor revogada. Na escola onde eu trabalho todo mundo já se divorciou pelo menos uma vez. O meu professor de Literatura, que lê poemas românticos em sala, diz que o amor é uma droga e mora numa biblioteca na casa dos pais. Não quer se casar, de jeito nenhum, nunca mais.


Acho que quando os meus pais se divorciaram, foi ele quem chorou sozinho no quarto. O meu pai sempre foi o lado sensível do relacionamento. Eu tinha três anos quando decidi ficar com ele e deixar a minha mãe. E as pessoas ainda me perguntam porque eu tenho tanto medo de me apaixonar. Eu passei a vida inteira cercada por relacionamentos que não deram certo e não quero que um dia o meu seja um deles. É por isso que eu estou olhando o celular desde a hora que acordei esperando você perguntar se eu quero ir para algum lugar ao invés de mandar uma mensagem dizendo o quanto gostei do seu beijo e que gostaria de vê-lo outra vez. É por isso que eu não liguei para o Pedro no mês passado. É por isso que eu não procurei o Sandro e agora soube que ele vai se casar. Ele vai se casar pela segunda vez desde que eu não liguei.


O namorado da Cecí também não ligou, nem tocou a campainha e eu ainda ouço o choro dela no quarto. Queria entrar lá e dizer que vai ficar tudo bem, que vai passar. Mas não estou preparada para encarar tão de perto o amor. Os amores doem demais, doem nos filmes e doem ainda mais na vida real. Nada do que eu disser vai mudar essa dor. Não hoje.

 

 


 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cadeados


Uma amiga cutucou freneticamente o meu braço enquanto caminhávamos até a saída da escola em que trabalho. Parei de procurar o celular na bolsa e a encarei de sobrancelhas cerradas. Ela arqueou as suas em direção ao banco de concreto que fica bem ao lado do portão verde de metal trançado por qual os alunos têm acesso às salas de aula. Ali, sentado, estava o inspetor contratado na semana passada, um moço alto, de sorriso espontâneo e discretamente fofo. Benjamin, o irmão mais novo da mocinha ruiva do oitavo ano, ajoelhado entre as pernas do rapaz, alisava aquele rosto com a barba por fazer e tentava compreender, imagino, porque o novo amigo tinha tantos pelos na bochecha enquanto ele ainda carregava a inocência da cara lisinha. Sorri acanhada quando nossos olhares se cruzaram, e me despedi da maneira mais formal e maquinária do mundo.

          Jessy acha que eu preciso de um namorado e me cutuca freneticamente sempre que vê um moço com os pré-requisitos para me despertar uma paixão. Depois fica brava e me repreende porque eu não tenho jeito nenhum para paquera. Ela faz isso tantas vezes no mesmo dia que até parece aquelas tias velhas que não conhecem um assunto melhor do que os meus relacionamentos fracassados ou inexistentes. No entanto, é uma boa menina. Casou cedo e ainda não teve filhos, mas, eu sei, vai ser uma mãe excelente. Tem cuidado bem de mim mesmo sem perceber.

         Despeço-me dela no terminal e corro para minha aula de italiano. No trajeto até a outra escola, escuto dois homens conversando sobre pegar a cachorra de alguém. Não consigo distinguir se é mesmo uma cachorra animal ou uma garota cachorra. As pessoas falam muito baixinho e minha cabeça parece que vai explodir. Desligo-me do dialogo alheio e abro a página de notícias virtuais do meu celular. Olho algumas chamadas até me atentar a uma especifica. Ela fala sobre cadeados nas passarelas de Paris. Amplio a e começo a ler com mais calma.

        Segundo o jornal online, a prefeitura irá eliminar os cadeados do amor das pontes da cidade. As chaves, jogadas no rio Sena, continuarão imersas. No lugar das trancas a prefeitura incentiva selfies entre os mais apaixonados. Aquelas mesmas selfies que eles tiram em restaurantes, bares, festinhas de criança, samba, circo e show de rock. Aquelas fotos de nós mesmos, aquilo que todo mundo pode fazer o tempo inteiro em qualquer lugar. E pensar que podiam trocar por fitinhas, cartinhas, figurinhas de chiclete. Mas não. Cadeados do amor por selfies de todo dia e toda minha esperança por um fio é sempre mais divertido. Os amores em que eu acreditei por aqueles em que nem me arrisco a levantar da cama, sempre. Sempre assim.

E não que eu esteja aqui defendendo despejar tanto peso sobre as passarelas da cidade luz até despencá-las não, mas, sei lá, fiquei com uma dorzinha no fundo do peito. Tem amores ali que ainda estão vivos apenas nas trancas de metal penduradas pelas pontes da cidade. E matar amores me faz morrer um pouco mais também. Tirar de lá todos aqueles cadeados me faz lembrar que preciso arrancar da gaveta tudo o que ainda restou de nós dois, jogar fora o cd que você gravou, apagar a nossa foto do plano de fundo do computador, e ouvir os conselhos da minha amiga. Libertar as pontes de Paris é me libertar de você, deixar para trás a nossa história e permitir o caminhar de algum outro sem aquele medo bobo de que a qualquer momento nós iremos cair. Tirar aqueles cadeados é tirar também estes que estão em mim. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O que sobrou de nós ...

          

           Essa noite eu sonhei com você, e acordei com o seu cheiro, e liguei o computador pra te escrever alguma coisa, porque já faz tanto tempo e eu ainda me lembro do seu perfume, ainda não consigo acreditar que as coisas terminaram de um jeito tão estúpido e sem sentido. O amor não é assim, e foi amor, eu sei que foi.
            
          No meu sonho nós nos encontramos por acaso, e tentamos fingir que estava tudo bem, mas então você me abraçou e eu pude ouvir as batidas do seu coração outra vez. Eu só queria saber se o seu coração bate com a mesma frequência quando você está com ela, se foi mesmo por falta de alternativa, se você faria escolhas diferentes agora, se acabou de verdade ou se o meu sonho tem um pouco de razão. Eu vejo as suas fotos e me pergunto se você ainda pensa em nós, se eu também apareço pra você nas noites mais frias, se existe alguma lembrança minha viva dentro do seu peito, ou se eu tenho sido louca sozinha e a sua vida tem caminhado melhor sem mim.
            
           Do lado de cá é sempre difícil caminhar, é difícil conhecer novas pessoas e fingir que consigo ser feliz com elas, porque eu não consigo, não adianta. As vezes fico pedindo pro vento te colocar no meu caminho mais uma vez, só mais uma, só pra eu poder te olhar e ter certeza de que nós nos perdemos a ponto de não poder mais recuperar, só pra eu ver que ainda existe em você a mesma esperança que existe em mim, só pra enxergar nos seus olhos o mesmo medo que os meus têm, a mesma dúvida, o mesmo amor. Em pedaços, magoado, mas amor.
            
          Outro dia eu sonhei que você estava se casando e eu aparecia na cerimônia apenas para ter certeza de que havia me esquecido. Foi tão difícil. Não tive coragem de entrar na igreja, não tive coragem de olhar pra você ou pra noiva feliz, de encarar a decoração da festa ou todos os nossos amigos sentados nos bancos de madeira daquela catedral. Eu deixei você ir embora em todas as vezes em que estivemos juntos, até nos meus sonhos. E agora eu não tenho coragem de te escrever. Não depois de tudo.
            
         Prefiro continuar procurando você nos outros garotos que se deitam em minha cama a ouvir que aquele foi mesmo o nosso fim. Não posso aceitar um fim tão vazio pra uma história que me assombra depois de todos estes anos. Não podemos ser derrotados assim, eu não suportaria escrever sobre isso, sobre essa batalha ridícula na qual fomos abatidos sem nem ao menos tirarmos nossas espadas da bainha. Nós não fomos só isso. E por isso eu não mandei nenhum bilhete, nenhuma carta, nenhuma flor. Eu ainda não consigo lidar com o nosso fim.

            Enquanto você estiver em meus sonhos, nós ainda estaremos aqui.