sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Amor e música


           Quando o assunto em questão era amor sempre tive muita certeza do não. Eu não os amava e ponto final. Não amei aquele garoto da sétima série, que me entregou uma carta escrita a mão e carregou os meus livros, durante todo o ano, da escola até em casa e disse, mais tarde, com todas as letras e sem gaguejar, mesmo sem saber ao certo o significado, aquelas três palavrinhas quase mágicas que derretem o coração de qualquer mulher do universo. Eu não amei aquele outro menino, que apareceu um ano depois, cheio de brincos e com o cabelo roxo, cujo qual o meu pai detestava, tentando me ensinar a andar de patins e dizendo, após três dias de namoro, um “eu te amo” com lágrimas nos olhos. Eu sei, é difícil imaginar um cara de cabelo colorido e com peças de metal por todo o corpo falando de amor com os olhos úmidos, mas foi exatamente assim que aconteceu. Acho que ele conseguiu me amar rápido e então eu surtei. Fugi do coitado e nem sequer dei uma explicação. Eu não o amava e não tinha muito que dizer, também.

          Todos os outros rapazes que surgiram posteriormente foram calados pelas minhas mãos pequenas quando tentavam contar sobre os seus sentimentos mais profundos. Eu não queria ouvi-los porque não retribuir magoava-os e, de certo modo, me magoava também. Cheguei a pensar que tinha alguns problemas. “Psicopatas são desprovidos de sentimentos, então, talvez, eu seja um deles”, pensava eu, nas noites mais paranóicas. No dia seguinte caia na real, claro. Eu amava os meus familiares, amigos e me amava. Os psicopatas não amam ninguém, não é mesmo? Então, pronto, não sou um deles, não.

          Depois daquele garoto de óculos e meio metido a músico, definitivamente, não sou um deles. Quando nos vimos pela primeira vez, eu não o amava. Quando nos beijamos gostava um pouco dele, mas ainda não era amor. Então me mudei, voltei, não o procurei. Pensava sempre em nós, no que teria nos acontecido se eu não fosse quase uma cigana. Fui embora mais uma vez e outra e outra. Não era amor, mas estava aqui, em mim e nele também. Nos sinais que deixamos. Nos pequenos bilhetes. Adormecido, esperando um reencontro. E aconteceu, por acaso, do nada, reacendendo em mim o gostar pouquinho e fazendo a chama, antes de vela, se transformar numa labareda inapagável. Estávamos mais maduros, dispostos, lembrando das minhas idas e vindas, tentando entender porque eu me afastei tanto. E mesmo sem entender, não nos deixamos. Estava ali, em nós, o que eu pensei não ser amor, mas nunca apaguei da história. Foi então que ele disse que me amava. Calei-me. Não o calei, mas também não fugi. Fiquei intacta, feito pedra, nem um pouco preciosa, creio eu. Diferente de todas as outras vezes, também, nesta não me senti triste por estar magoando-o. A possibilidade de que fosse recíproco era tão grande, entendem? Tão grande que não cabe em mim e transborda.

          Depois de ouvir os dizeres dele, fui atrás de descobrir o que, afinal, é o amor, porque, até então, a minha única certeza era a do não. Não é amor e ponto final. Se for, já não sei. Passei dias perguntado às minhas amigas, todas disseram que é complicado demais explicar e não explicaram. Falei com a minha avó e, sempre pronta a ajudar e sem nenhum frio na língua, ela me disse que se o que eu estava sentindo não era amor, nada no mundo seria. “Você tem certeza do que não é, então, se sabe que não é, é. Não é?”.  Minha avó dá ótimos conselhos quando se consegue decifrá-los. Pensei, repensei. Lembrei-me de nós dois, do tempo, de não te esquecer, do reencontro, quase mágico. Ele me faz tão bem, tão bem. Não tenho medo de nada que não seja o nosso fim. “E que não chegue o nosso fim, nunca”, peço eu, a Deus, como raramente faço.  Depois paro e penso mais uma vez, com a ajuda de uma música maravilhosa, de uma banda histórica e bem conhecida: “Se isso não é amor, o que mais pode ser?”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Martelo



Hoje seria um dia normal se as coisas não tivessem acordado de cabeça para baixo. Sim, as coisas, todas as coisas. O sol e o vento gelado que quase nunca estão juntos e estavam; a falta das suas mensagens que já deviam ter apitado no meu celular há muitas horas atrás; o sapato sumido do nada; a ferramenta batendo e batendo uns trinta minutos mais cedo do que deveria. Tenho para mim que foi tudo culpa do martelo. Sabe, o meu dia de cabeça para baixo é culpa do martelo. O martelo do vizinho que estava arrumando eu sei lá o que, culpa de você martelando o meu cérebro dia e noite num mantra inesquecível que grita e repete algo parecido com “pense nele, não, espere, pare de pensar”. Acordei meio fora de mim, confesso. Ou dentro demais, talvez. Sonhei com você e o martelo me despertou. Será um sinal? Que tipo de pessoa recebe como sinal marteladas do vizinho? Eu? Com certeza, eu.

Troquei-me às pressas querendo ir até lá para dizer a ele que ninguém tinha o direito de me despertar dos sonhos bons. Fui, mas comecei a espirrar e não o encontrei em meio a minha crise alérgica. Peguei a bolsa gigantesca que acompanha meus dias corridos desde que chegou, junto com a minha tia, de uma cidadezinha romântica e francesa e desci rumo ao trabalho. Enquanto caminhava, já há um terço de distancia de casa, descubro que havia esquecido a chave da minha loja. Não, eu não tenho uma loja, sou apenas empregada em uma. Disquei o número da minha avó, que é quase um S.O.S e ela, então, veio ao meu encontro para entregar o esquecido da vez , soltando fogo pelas ventas e repetindo sem dó nem piedade “você só não esquece a cabeça porque está grudada”. Ela sorriu, também, depois da bronca, beijou a minha testa carinhosamente e abanou a mão se despedindo enquanto eu corria, para não chegar atrasada, atropelando minhas próprias pernas.

Correr parece sempre ser em vão. Cinco ou dez minutos são de praxe quando o assunto é atraso na empresa. Inevitáveis cinco minutos nesse meu dia que começou de pernas pro ar. O cara do cigarro veio logo cedo e eu fiquei encarando-o por tanto tempo que ele se sentiu acuado e soltou rispidamente um “você ta bem?”. Acenei positivamente. Queria ter dito que não e emendado com a minha negação uma pergunta. Você não se sente mal por vender uma coisa que mata as pessoas aos pouquinhos? O meu pai fuma a mais de trinta anos e eu fico tão triste por ver os efeitos colaterais deste vício, sabe? Não, claro que eu não disse nada, apenas fiquei com uma expressão de maluca, encarando e assustando o coitado do moço, que saiu meio corrido e nem perguntou qual seria a quantidade do meu pedido. Desde que aprendi  que muitas das minhas palavras desenfreadas magoam, fico quieta mais do que falo. Penso bastante, porém raramente exponho aquilo que me toma a cachola. Com você não tem sido diferente. Eu penso um milhão de vezes para te dizer qualquer coisa que seja. Arrependo-me por guardar tudo sozinha, na maior parte do tempo. Agora, por exemplo, queria te ligar e dizer que a nossa briga foi ridícula, que aqueles meninos nada são além de amigos, que você me faz falta e, mesmo sem querer voltar, preciso que você me espere. Eu queria discar o seu número rapidamente e, antes de ouvi-lo do outro lado da linha, gritar em letras garrafais, se é que isso é possível, que não posso mais te dividir com outras. Eu não quero mais ser a outra. Quero-te para mim, inteiro para mim. Eu quero saber que você está sofrendo sem beijar na boca por não ter a minha boca e não querer nada além. Queria te ouvir, mesmo que pelo telefone, dizendo que a gente vai dar certo, sim, que eu preciso acreditar mais e que você vai lutar comigo, por nós.

Mas eu não ligo; você não diz e o meu dia termina do mesmo jeito que começou, de cabeça para baixo, sem você do meu lado, mas feito martelo no pensamento e no coração.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Calmaria


          Olhar de longe a sua casa revirada sabendo que essa bagunça é toda e somente minha não traz felicidade. Quando eu não me importava em arrumar a algazarra toda, trazia; mas agora que parei para observar você jogado no chão, sozinho, tentando entender o porquê eu sempre preciso ir embora, não traz. Há alguns anos, foi divertido vir feito um tufão a cada estação mudada, virar e revirar suas gavetas, medos, segredos, esbaldar-me em sua cama, te fazer escutar teorias malucas de quem nunca encontra felicidade plena e um lugar para repousar, depois deixar-te como se não fosses importante e abandonar o que poderia haver de mais bonito em nós, fugindo. Agora não é mais.

          Desde que estive em sua cidade, um dia também minha, para visitar parentes e amigos que ainda me restam por lá e resolvi ligar no seu antigo telefone, como quem não que nada, apenas para me distrair um pouco, não é mais. Descobri (ou recordei, quem sabe) o quão fácil foi e ainda é gostar de você e a segurança que sinto ao seu lado. Onde já se viu furacão, feito tu, querendo segurança? Não sei. Não sei o que me deu, mas é bom. Não ter medo de afundar é bom, saber que o mundo pode desabar desde que estejas com as minhas mãos em suas mãos é bom. Ter-te calmaria nesse meu eu tão cheio de dúvidas e nenhum limite é bom. Como naquela música “na sua calmaria eu ia ser vulcão”, é bom.

          E pensar que o que você era antes não importava. Coitada de mim! Eu simplesmente fazia os meus estragos e saia de fininho, sem dar explicação. Chegava sem avisar, cantava feito sereia para te trazer até mim, derrubava-o quando mais perto, fazia-te esquecer os quase amores que surgiam e ressurgiam entre minhas idas e vindas, tornava-te só meu e ainda mais meu do que em todos os tempos de colégio. Não tinha hora nem lugar, era você que meu furacão vinha devastar e apenas você seria devastado. Era assim. Foi até que os resquícios desta aniquilação me atingiram o peito e eu vi você. Eu vi seus olhos brilharem enquanto me pediam, juntamente com os lábios e a voz, num conjunto orquestrado, que ficasse. Senti os seus abraços nos meus braços que há tempos eram tão meus e não se dividiam.  Deixei você me tomar e acalmar toda essa loucura impetuosa e repentina, de vento.

          Dessa vez, ao invés de ocupar os seus espaços tive, então, os meus todos ocupados. Vi você entrar em lugares que eu nem sequer sabia existir. Fez-me ter vontade de ficar para recolher os destroços, organizar os seus pertences, dizer (e bem dito) que seriamos dois, de nós. Nunca houve nós, mas, naquele momento, desejei incessantemente que houvesse. E chorei por precisar partir, porque, juro, não queria tanto quanto das outras vezes. Precisava, porém não era de minha maior vontade. Dessa vez, depois de destruir você me encontrei também destruída e ao juntar os seus escombros, carregando os meus tão cheios de culpa, percebi que a minha cura era o seu amor. Cuidar de você acaba com a tempestade devastadora que há dentro de mim e traz de volta o tempo límpido. É tudo mais claro e calmo com você aqui.

          O furacão se vai quando tu és o afetado e eu, logo, junto os nossos pedaços num só lugar. Aquela ventania turbulenta e inesperada morre em mim para você viver. E eu vivo mais calma, calmaria. Por você.

sábado, 4 de agosto de 2012

De rua


Passei a mão no dinheiro sobre o criado mudo, peguei um cigarro no bolso da calça dele, jogada no pé direito da cama, olhei o pequeno espelho que havia sobre a velha penteadeira, coloquei os óculos escuros e voltei para rua. Óculos escuros, além de diminuírem os impactos solares, escondem tristezas.  São raras as garotas que viram puta porque gostam, eu mesma nunca conheci nenhuma, todas das minhas companheiras de calçada vieram para essa vida estúpida por necessidade. Lisbela, a negra, tem filho pra criar, mas faltam-lhe dentes e estudo. Certa vez, disse-me Lisbela que para as mulheres sem dente e estudo restam-lhe o mundo e os homens de lá. Os homens de lá não são de todo o ruim, como falam por aí, no fundo estão todos à procura de amor. De forma errônea, às vezes, confesso, mas estão. As ruas me são agora por falta de amor, por isso uso roupas tão curtas e apertadas e me deito com homens dos quais nem gosto. Na maioria das vezes, não tenho tempo sequer de conhecê-los um pouco. Se der sorte, o que raramente acontece, eles me contam seus verdadeiros nomes. Descubro vez ou outra que são casados porque mexo em suas vestes enquanto dormem. Juro, nunca roubei, são apenas cigarros, dois no máximo; então passo um batom vermelho, beijo o espelho, pego a grana que me é por direito e vou embora. Cobro por hora, faço de tudo, só não beijo a boca. Ninguém entende porque abrimos as pernas com tanta facilidade, mas não entregamos os lábios ao outro. A explicação é simples e poucos vão entender: beijo é intimo demais. Não, não é regra, já vi puta que beija. Eu não. Não mais. Beijei uma vez e nem homem foi. Não foi nem por dinheiro, sabe?

Ela entrou de supetão aqui no meu quarto, era linda, pequena, frágil, quase porcelana. De neve. Os cabelos louros caiam-lhe sobre o ombro num misto de curto e longo. Contara-me que era repicado quando questionei intencionada em copiar. Os olhos grandes e expressivos me fizeram acreditar, quase de imediato, que por detrás daquelas ruas sujas e homens suados existia amor. A menina viera disposta a se transformar numa coisa que macho adora e a sociedade apedreja num silêncio ensurdecedor. Eu amei-a desde o primeiro momento em que a vi tentando entrar numa vida que não pertencia a ela. É vida minha, de puta, querida. Essas ruas estão imundas para os seus pés; esses homens não a merecem, assim, tão sã e pura. Eles precisam das loucas, de pedra, como eu. Fiz a pequena desistir da estupidez que é entrar num buraco d’aonde não se sai, deixei-a ficar, apenas uma noite. Conversamos, por horas, contei-lhe os motivos de estar ali há tanto tempo, escutei os seus por aparecer a essa hora. Ficamos amigas, de anos em segundos. Perdi clientes demais, mas não me importei. A menina tinha de mim e eu não podia me perder, de novo. Enxuguei o seu rosto e nós nos beijamos. Sem açúcar, naturalmente adocicado, leve, meio nuvem, de algodão, beijo de menina moça que só beija a boca quando ama. Sorri enquanto movia os lábios e a segurava pela cintura. Ela sorria também, mas então me soltou de repente, olhou-me profundamente e disse “não tenho grana!”.

Não era dinheiro que eu queria, nem nisso pensará, mas a garota tinha razão. Você vai se tornando uma coisa da qual não gosta e, se não para na hora, quando vê, já é, não tem volta. Eu sou puta, de rua, batom forte e óculos escuros, feito máscara; escondo as tristezas e entrego-me em esquinas, dispenso o amor, sofro sozinha. É isso que eu sou, uma mentira, me vendo pra homens à procura de amor e acabo chorando, apaixonada, por uma menina.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Monstro


Quando o meu celular tocou, exatamente às 18 horas em plena sexta-feira e o número dela apareceu no identificador de chamadas, me assustei. Ela raramente liga nesse horário onde tarde vira noite de repente porque sabe que, na maioria das vezes, não estou disponível. Mal pude ouvi-la do outro lado da linha e, por isso, imaginei que a ligação estivesse ruim. Depois de alguns segundos percebi que me enganara, a ligação não estava com problemas, à mulher sim. Ela estava chorando e as únicas letras que me conseguiu dizer foram as de teu nome. Ouvindo-a aos prantos pensei no pior. Tentei fazer com que ela se acalmasse e me contasse, em detalhes, tudo o que havia acontecido. Enquanto não contava, pensei em um acidente trágico com você, imprudente que só, sem cinto de segurança, depois em uma overdose e, por último, em assassinato ou suicídio. O ser humano é pessimista quando se trata de “adivinhar” situações.  Quando se trata da minha imaginação e da sua vida em risco o pessimismo torna-se três vezes pior. Assim que ela, finalmente, conseguiu dizer o que se passava fiquei intacta. Eu imaginara inúmeras coisas, porém, ainda que óbvio, jamais pensaria naquilo. Não soube o que falar, não saiu de mim nenhuma palavra que se pudesse aproveitar, balbuciei qualquer estupidez e decidi ligar mais tarde. Devo ter dito “calma, te ligo depois” ou algo bem parecido com isso.

Naquele momento, a única coisa em que consegui pensar foi na nossa infância, você com nove anos, eu com oito, as risadas fora de hora e sem motivo que acabavam por nos causar castigos desnecessários, as palhaçadas feitas por você que me proporcionavam uma leve dor no abdômen por causa das gargalhadas ininterruptas, as brigas em que eu arrancava os seus cabelos e você se punha a chorar. Lembrei-me de quando eu quis fazer pedidos demais e você arrancou a metade dos seus cílios para me ajudar. As vezes que andávamos de bicicleta nas ruas calmas de nossa antiga cidade, sua gana pelos meus cremes com cheiros de fruta, as danças malucas e piadas sem graça que inventavas para me animar foram as únicas coisas que vieram a minha cabeça. Desejei ter você com treze anos, de novo, em casa, sem gente ruim por perto, sem maldade no coração. Quem te vê hoje, agora principalmente, não acredita, mas, eu sei, ela chorando do outro lado da linha sabe, você foi uma das pessoas mais amorosas já existentes neste mundo. Quem me vê hoje, agora pra ser mais exata, depois desta ligação, te matando dentro de mim, não acredita que, há um tempo, te amei mais que a mim mesma. Ninguém que me vê tentando te tirar do coração a força acredita que, um dia, fomos inseparáveis. As pessoas que estiverem me lendo e não se lembrarem de nós ou não nos tiverem conhecido acharão que minhas palavras aqui são uma chacota, que somos opostos completos que jamais se completaram. Eu mesma não consigo acreditar, não há santo, anjo, Deus nesse mundo que me faça estar certa do que está acontecendo. Parece sonho, pesadelo.

Conheço dezenas de garotos com a sua idade e quanto olho para eles fico tentando entender o que te aconteceu. Eu queria que alguém se sentasse ao meu lado e dissesse os porquês, ou como ajudar, ou quando isso vai passar - se é que passa. Porém ninguém diz, não ouvi nenhuma frase melhor que “calma, tudo vai se ajeitar”. Eu queria uma data para tudo se ajeitar, um culpado, alguém para caçar, uma cura palpável que se pudesse comprar, eu te queria como pássaro para por na gaiola e não precisar ver indo embora nunca mais.

Já perdi as contas das vezes que chorei por você ou tentei consolar esta mulher que me ligara a pouco, chorando também por sua causa. A gente se cansa. Por mais amor que exista em mim a gente se cansa. Lutei por você, sim, esperei anos pela sua melhora, sonhei com a sua volta e os dizeres de que tudo não passara de um momento ruim. Só que esse tempo não chega; essa luta não acaba e eu ando tão cansada, sabe?

Eu não queria muita coisa, não. Nada além de voltar no tempo e te afastar de tudo aquilo que o afastou de nós. Queria menos lágrimas, menos dor e você se tornando você de novo. Queria-te fora do monstro para ter de volta o meu amor. E só.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Azul



“Ele tem olhos claros”, dizia eu, aos seis anos, sempre que alguém perguntava sobre meu suposto namorado. Imaginava, antigamente, que as cores de nossos olhos iriam se misturar e se transformar em outra ainda mais bonita. Para mim, amor era isso, uma mistura das minhas cores com as cores de outro alguém. O verde dos meus olhos e o azul dos dele, juntos, formando uma coisa que nós não sabíamos explicar, mas já considerávamos importante. Naquela época não entendia bem o porquê pessoas grandes gostavam tanto de nos ouvir falar sobre os relacionamentos que nem sequer existiam. Hoje, compreendo perfeitamente. Além de ser engraçadíssimo ouvir crianças, que mal pronunciam uma frase corretamente, falando de sentimentos que nem nós, adultos, sabemos explicar, tem também aquele calor inocente nas vozes agudas e frágeis dos pequenos, contam-nos sobre um beijo no rosto como se o ato fosse mais valioso que qualquer outra pedra preciosa do universo. Seguram as mãos uns dos outros e estão no céu. Esse céu azul e idílico de agora, claro como os sonhados olhos de amor infantil, aquário, lagoa cristalina, caudalosa, quase mar, que afunda, aprofunda e faz a gente se perder. Claro que de branco não tem nada, era azul, meio água.

Certamente que depois de grande, não tão grande, só mais velha, deixei este portento um pouco de lado. Quando nos vimos pela primeira vez eu raramente sonhava com esta mescla de cores. Seus olhos eram os mais lindos que os meus já haviam sido capazes de observar, não nego, mas os devaneios de agora já não eram mais os mesmos de anos atrás. O amor aquarela foi deixado no passado e deu lugar aos estudos, trabalho e tudo o mais que a vida cobra da gente. Acenei para você e recebi em troca o mesmo sinal. Sentávamos um ao lado do outro e as conversas do dia a dia foram inevitáveis. Conhecemo-nos aos poucos, ficamos amigos. Tempos depois, muito amigos. Tão amigos que te amei. Você era o melhor de mim, sorria, fazia sorrir, funcionávamos de um jeito que não se vê mais nem em filmes hollywoodianos. Conversávamos sobre tudo, raramente tínhamos segredos. Suas mãos alisavam o meu cabelo bagunçado todas as noites, seus olhos guiavam os meus para o que havia de mais puro e límpido nos dias. Ao seu lado retornei aos seis anos, misturei as nossas cores, mesclei o que havia de mais bonito em nós. Éramos a aquarela de antes, agora. Desejei, mais do que qualquer outra coisa, que fossemos para sempre, como nos contos de fadas que ouvia quando criança. Acreditei que seríamos, durante um tempo, mas me enganei. Interpelo-me, todos os dias, aonde foi que eu errei. Tenho vontade de perguntar a você, também, às vezes, mas o medo de que a resposta seja a falta de amor me assombra. Eu não resistiria se fosse, então, prefiro não saber.

Nós nos separamos por necessidade, quero pensar (e penso). A lembrança das suas malas arrumadas, o adeus, o abraço quente que ainda não me deixou são, ainda, melhores que qualquer explicação plausível sobre o fim - se é que existe alguma explicação para este. Depois de tudo, do tempo, das crenças que você me fez voltar a ter, dos sonhos inocentes de antigamente, prefiro crer que não tem. Se tiver também, não importa, é você que habita o meu coração desde então, não há ninguém além, nada que ocupe o seu lugar e isso nunca vai mudar. Você pode ir e vir quantas vezes quiser. Eu estarei sempre esperando. Tem espaço na gaveta, na cama. Tem amor de sobra para nós dois, em mim. Amor cor de céu, de jardim, de nós dois, misturados feito caixa de giz. Amor da cor dos olhos, dos seus, inebriantes, maviosos, piscina. Azul.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sem você



Todos os significados encontrados por mim sobre a palavra orgulho, em sites de pesquisa, foram heteróclitos. Eu não sou incapaz de reconhecer que sofro sem você, não tenho uma auto-estima nas nuvens e também não me sinto plenamente satisfeita em ignorar as pessoas. Eu não sou nenhuma destas coisas que estavam escritas sobre a altivez humana. Pensei que sim, durante um tempo, mas talvez não seja. Não parei de te escrever aquelas cartas porque dar o braço a torcer seria como perdê-lo. Não me importaria de perder nenhum membro do corpo por sua causa. Soa exagerado, eu sei, mas não estava  mentindo quando disse que você era uma parte importante de mim. Parei de te escrever porque não te sinto mais. Tem ideia do quanto dói não sentir você? É mesmo como perder um braço. Bem pior que deixá-lo torcer-se.

Quando nos conhecemos, juramos um ao outro que não seria assim, que distância nenhuma faria diferença, que os dias sem que nos víssemos passariam rápido e nos falaríamos sempre que possível. Sempre que possível tornou-se quase nunca, os dias têm muito mais de 24 horas desde então, a distância, antes física, ficou muito maior entre nossos corações. É por isso que eu não te escrevo, porque não há resposta. Nós estamos afundando, você vê, tem um bote nas mãos, mas não faz nada. Eu também não faço, confesso, mas é só porque me cansei de remar sozinha. Se fosse orgulho eu não estaria morrendo por dentro, existiria alguma satisfação em mim, eu teria uma auto-estima mínima, mas não, nada além de uma vontade exorbitante de deixar de existir. Lutar sozinha vai fazendo a gente perder as forças. Eu, sem você, sou apenas um rascunho de mim, quase sombra. Sem te sentir as coisas saem do lugar, perdem o sentido, não doem nem deixam sorrir, vegetam e, você bem sabe, eu odeio vegetais.

Esperava mais de quem sempre prometeu estar comigo. Esperava muito mais de quem, antes de amor, foi melhor amigo. Acreditei que ficaria ao meu lado quando o mundo resolvesse desabar. O mundo resolveu, desabou e nada de você por aqui. Tento, agora, renascer das cinzas sem o seu apoio. O apoio que passamos a vida prometendo um ao outro, que sempre achei que teria quando precisasse. Queria que você deixasse os seus amigos e ficasse horas ao telefone me ouvindo falar sobre essa droga de vida, sim. Eu deixaria, ficaria, abriria mão de tudo por você e não te ver fazendo o mesmo por mim é altamente destrutivo. Não adianta me dizer, ironicamente, que sua bola de cristal está quebrada, que não sabia de nada, porque eu disse, o tempo todo enviei sinais a você. E nada. Para alguém que me conhece e me ama tanto quanto diz - ou disse, que seja – nada foi decepcionante. Eu sinto a sua falta todo o santo dia, não vou mentir. Confesso que ainda penso na gente, mas me cansei de lutar por alguém que não faz questão nenhuma de estar ao meu lado. O meu erro foi ser plenamente sua enquanto você se entregava ao mundo. Aguardar o seu socorro, acreditar no seu amor, em vão.

Você precisa saber de um jeito ou de outro, ainda que não queira, que não te ter aqui destrói todas as minhas crenças, que só não te procurei porque perdi todas as forças e, diante das circunstâncias, de tudo o que vivemos, imaginei que viria me salvar. Você não veio. Tenho quase certeza de que não vem e esperar, neste caso, anda causando muito mais estragos que deixar tudo para trás e seguir sozinha. Você precisa saber que eu apostei todas as minhas fichas em nós, perdi e, agora, só me resta ir embora. Eu estou te deixando e não é por falta de amor. Pode ter faltado tudo, menos amor.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Encenação


O que mostro ao mundo nem sempre é verdadeiro. Apesar de mentir mal, finjo muito bem. Se alguém perguntar o quão feliz eu estou, direi que nem um pouco, mas se me pedirem para fingir, serão raras as pessoas não convencidas pela interpretação. Talvez seja esse o motivo pelo qual estou parada há duas horas em um ponto de ônibus escuro e frio, sem que ninguém ligue perguntando como me sinto. Certamente, acham que estou em um bar qualquer, enchendo a cara e rindo a toa, ou em uma danceteria com as muitas colegas que arrumei. O orgulho exorbitante não me deixa dizer que elas não passam de meras colegas, que nenhuma delas sabe o nome do cara de que mais gosto, da história difícil da minha família, das lágrimas que escorrem de meus olhos, todas as noites, encharcando o travesseiro. A altivez não me permite confessar que eu odeio bares e bebidas e quando estou lá, beijando algum desconhecido do qual nem gosto, é para fingir melhor. Os beijos que andei dando naquelas garotas, quase reflexos de mim, porém mais doces e felizes, foram para fingir. Eu vou dançar se o mundo me pedir, vou sorrir, gargalhar, cortar o cabelo de um jeito que fique na moda, vou simular certo apreço por todas estas coisas, se necessário, farei o mundo acreditar que sou feliz enquanto, ao invés disso, morro por dentro. Ficar aqui, sem ninguém, me fez desejar uma ligação ainda que por engano só para saber que alguém, em algum lugar do mundo, pode me ouvir mesmo sem querer falar comigo. Eu raramente desejo ser notada, mas hoje é um dia diferente.

O ponto de ônibus parece uma tenda de roupas, daquelas que vemos nas feiras paulistas. Encosto em um dos pilares, que suportam o telhado de metal, e tento esconder o rosto molhado. Estou com medo e nem sequer consigo rezar. Tem muito tempo que não tenho vontade de pedir nada a Deus. Proteção, dinheiro, paz, nenhuma dessas coisas. Eu não converso mais com Ele antes de dormir ou em qualquer outra hora do dia que seja. Quantas pessoas que dizem me amar realmente me amam? Talvez a metade, talvez nem isso.

Anda fazendo muito frio por aqui e, ainda assim, eu, imaginando que o sol poderia aparecer e que estaria em casa antes do anoitecer, trouxe poucas blusas.  Tenho mania de não perder as esperanças nesse tipo de coisa. Sou quase capaz de acreditar em contos de fadas, às vezes. O escuro toma conta do céu, agora, minhas pernas tremem e eu não sinto mais as pontas dos dedos. Penso na morte, em quando ela virá me visitar. Se fosse hoje eu não resistiria, iria com ela, ao som de Lana Del Rey, com um livro de Clarice Lispector nas mãos e um colar de pérolas sobre o colo. É assim que eu quero estar quando for embora daqui. 

Em casa, encontro as portas trancadas. Tenho as chaves dentro da bolsa, claro. Entro devagar, como se alguém em algum lugar pudesse ouvir os meus suspiros abafados e atrapalhar esse trajeto até o banho que é quase uma marcha fúnebre. Pego as roupas de dormir e ligo o chuveiro. Não sei se a água está me queimando ou descongelando o meu corpo, as lágrimas, inevitavelmente, começam a cair. Minha cabeça está doendo assim como os ombros, o nariz, os olhos e todos os outros espaços. Respirar dói. O vapor machuca a pele, o nó da garganta sufoca o coração. Fingir felicidade anda me deixando tão cansada que nem sei. Quando saiu do banheiro, minha família já está de volta. Beijo-os um a um, conto as novidades do dia que foi ruim, mas digo ter sido ótimo, esquento uma comida da qual nem gosto só para não preocupar ninguém com a minha falta de fome, depois sento no sofá e fico olhando para a televisão.

Eu fico bem, ou finjo que fico até acreditar na minha própria mentira. Volto a encenar felicidade mais uma vez, e outra, e mais outra, enquanto o mundo desaba a minha volta.

domingo, 24 de junho de 2012

Intacto


Eu seria incapaz de imaginar que o encontraria naquele lugar. Não que a gente se conhecesse antes, ou que eu já o tivesse visto alguma vez, mas, eu sei, foi ele a quem andei procurando nos romances espanhóis e filmes americanos sobre amor. Estranho encontrá-lo, antes presente apenas em sonhos, a pouco mais de duas horas de viagem da minha cidade fria e sei lá eu quantos mil quilômetros de distância da sua cidade quente e carnavalesca.  Vê-lo, assim, de verdade, tão perto e nítido, ainda que com a quase certeza de que só existiria em minha imaginação, foi no mínimo subversivo. Uma perturbação excitante de quem tem a sua frente o homem, literalmente, dos sonhos, o príncipe encantado que está mais para desencantado por fumar e tomar café a cada trinta minutos e ter aquele sotaque cujo qual eu sempre disse odiar. Tem defeitos em evidência, não esconde, mas, não importa, em nenhum momento imaginei-o perfeito.  Era exatamente desse jeito que ele aparecia todas as noites lá em casa, de calça Sarouel, camiseta de algodão, tênis surrado, barba por fazer, com uma cor de pele que não defino e aquele chapéu que, independente de quantas vezes me digam, nunca vou lembrar o nome. Ele parece o meu ator preferido, versátil, que se transforma em qualquer coisa quando está em cena, lembra-o sem fantasias e esse é um dos motivos pelo qual querê-lo se torna tão fascinante. Gosto do seu sorriso idílico, dos olhos expressivos e, ao mesmo tempo, insondáveis, das mãos grandes, do queixo bem desenhado. Difícil descrever algo de que eu não goste nele. Talvez nem exista. Resolvi, ali, que iria conhecê-lo o suficiente para não descobrir.

Estou, até agora, tentando entender o que nos aconteceu. Lembro de estar voltando para rodoviária depois da reunião, a chuva caia com força e em grande quantidade, os pingos destruíram o meu guarda-chuva em apenas duas quadras de uso e descobri, naquele instante, que tinha sido passada para trás. A mulher que o vendeu para mim, dizendo que era mais resistente que o antigo, equivocou-se, ou mentiu mesmo, vai saber. Ainda que em pedaços, persisti em segurá-lo acima da cabeça e continuar caminhando.  Ouvi uma buzina e o farol de um carro sendo direcionado em meu rosto. Não consegui definir a cor, o modelo ou o motorista a minha frente. Fiquei com medo, mas encarei, assim mesmo, alguém que mal enxergava. Pensei em sair correndo e gritar fogo. Minha avó sempre diz que pedir socorro pode ser em vão.  “Grite ‘fogo, fogo!’ e alguém vai te ajudar”, repete ela sempre que saiu de casa. Segundo a minha avó, as pessoas acham que os gritos de socorro só acontecem quando há brigas e quase ninguém se arrisca a apartar uma dessas. Quanto ao fogo, “todo mundo é meio metido a bombeiro”, diz ela. Como sempre, fiquei intacta esperando alguma reação do meu suposto seqüestrador. Aos poucos, a intensidade dos faróis foi abaixada e pude, então, notar que era ele. O homem dos meus sonhos estava com a cabeça para fora do vidro oferecendo-me uma carona. Não, obrigada, não quero atrapalhar. Em pensamento disse isso, mas fiquei tão apavorada com o susto que levara que só consegui assinalar negativamente com a cabeça. Ele insistiu, foi educado, fez questão da minha presença. Eu estava atônita, molhada e, então, pela primeira vez, não pensei em nada e entrei em seu carro. Podia ter pedido desculpas por molhar o banco de seu automóvel, mas não o fiz, apenas disse para onde estava indo. Depois de alguns segundos em silêncio perguntei as horas e ao ouvir sua resposta me lembrei de que os ônibus demorariam a passar. “Não vamos chegar lá antes disso”. É tão longe assim? “Um pouco”. Eu disse que não queria atrapalhar, me ofereci para descer do carro, mas ele não deixou.  “Está escuro, chovendo e é perigoso. Dá pra colaborar?” Olhei­-o seriamente e não respondi. “Você está bem?” Você está? “Estaria melhor se você não respondesse minhas perguntas com outras perguntas”. Soltei um riso doce e sem som. “Você não precisa se preocupar”. Eu sei, eu sei.

Sinceramente, não sei, mas digo que sim pra tentar me convencer. Se ele soubesse de todos os sonhos, de que estava aqui, em minha mente, todo esse tempo, antes mesmo de saber da minha existência, provavelmente, não me traria pra dentro do seu carro. Ele interrompe meus pensamentos e diz o meu nome. Ele sabe o meu nome? Obvio que sabe. Eu mesma o disse, naquela apresentação estúpida. Mordo os lábios tentando parecer sexy. Durante toda a minha vida, as tentativas de parecer assim foram em vão, mas, pelo jeito como ele me olha, acredito que esta pode estar dando certo. “Preciso ir ao banheiro”. Não dá pra esperar chegar até a rodoviária? “Tomei café demais. Já volto.” Ele estaciona o carro ao lado de um bar caindo aos pedaços, pelo que consigo ver, através do vidro meio embaçado por conta da chuva, não tem mais de dois homens lá dentro. Ele volta em pouco mais de dez minutos, entra no carro e se senta meio de lado, tentando ficar de frente para o banco do passageiro, onde eu estou. Olhamo-nos por alguns segundo e, então, passo a mão em seu cabelo molhado. Ele se aproxima de mim, coloca uma das mãos na minha perna, puxa-me pelos cabelos com a outra e me beija. O beijo é demorado e, diferente de todos os outros que já recebi, tem desejo sem pressa. Naquela hora, nenhum dos meus atos (antes inteiramente racionais) fazem sentido. Esqueci os vestibulares que andam fritando o meu cérebro, as amigas me pedindo para experimentar o sexo, os meninos da mesma idade que, a meu ver, são tão desinteressantes. Perco a noção de tempo, depois não ouço mais a chuva e então me esqueço de respirar. Afasto-o aos poucos e permaneço de olhos fechados. “Desculpe-me” Pelo que? Abro os olhos. Ele me observa confuso e não responde. Quando pensa em abrir a boca para falar algo, interrompo-o dizendo que posso me atrasar. Sem entender, se ajeita no banco, assim como eu, e recomeça o trajeto.
             
             Ao chegar à rodoviária, olho-o profundamente, como quem se despede sem dizer uma única palavra. “Você tem olhos lindos”. Continuo encarando­­-o sem abrir a boca. Ele me puxa pra perto e, mais uma vez, me beija. Seus lábios são macios e tem um gosto bom, mas, agora, o beijo é de despedida e tem em sua essência um pouco de desespero. Nós não vamos mais nos ver e, assim como eu, ele sabe disso. Não queremos dizer um para o outro que seja lá o tivemos durou só algumas horas, então nos beijamos assim, como quem se despede e diz que em sonhos, longe das explicações, da vida real, do dia-a-dia, tudo continua intacto. 

            Escolhi, escolhemos talvez, naquele dia, naquela chuva, naquele carro, manter tudo guardado ao invés de soltar aos quatro ventos e, quem sabe mais tarde, precisar esquecer.