segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Papai Noel


          Eu tinha oito anos, na época. Meu pai 31. Faço aniversário em abril; ele em junho, ou julho, nunca me lembro. Julho, isso, tenho anotado aqui na agenda. Mas isso não importa, de qualquer forma, porque estávamos em dezembro, meados do último mês. Morávamos na cidade grande há uns dois ou três anos, e eu detestava aquele lugar, e o ar carregado, e o céu escuro; e as pessoas sem tempo para dar informações, sempre correndo, sempre sozinhas, sempre distantes.
            
          O sol estava tímido naquela manhã, vez ou outra víamos os seus raios ultrapassarem as nuvens espessas, mas nada muito significativo ou capaz de violar as barreiras de algodão no céu e finalmente dar as caras por inteiro. Meu pai foi ao banco bem cedo, retirou um pouco de dinheiro das nossas poucas economias, comprou bolachas, chocolates, guloseimas de todo os tipos, e alguns brinquedos singelos também; colocou tudo dentro de um grande saco de tecido vermelho e finalizou o dia numa loja de fantasias, experimentando uma roupa de Papai Noel.
            
          Quando voltamos para casa, a tarde já caia do céu - agora limpo, livre das nuvens que o cobriam mais cedo. Papai entrou no quarto carregando as sacolas e segurando a minha mão, despejou as compras na cama desarrumada, beijou a minha testa e começou a vestir a fantasia que havia adquirido pela manhã. Eu não entendia muitas coisas aos oito anos, ainda não compreendo aos vinte; sempre soube, no entanto, da inexistência do bom velhinho natalino. Tinha medo do personagem e, diferente das outras crianças, não queria sentar em seu colo gordinho e lhe escrever cartas coloridas pedindo presentes por ter me comportado bem no decorrer de onze, quase doze completos meses. Depois de vestido, faltando-lhe apenas a barba comprida, ele perguntou se eu estava sentindo medo. Levantei o dedo indicador e o balancei de um lado para o outro. Eu sabia que aquele era o meu pai de sempre, apesar da roupa esquisita.
            
          Voltamos para o carro, e o meu pai, agora Papai Noel, dirigiu até uma periferia perto de nossa casa. Paramos na frente de um bar e, quando olhei ao redor, haviam crianças por todos os lados. Abrimos as portas do automóvel, e os garotos se empoleiraram nas pernas do bom velhinho, abraçando-o e lhe desejando um "feliz natal", como se nunca tivessem visto nada parecido, como se em seus livros de infância ninguém nunca tivesse lhes mostrado uma foto do Noel e de sua casinha no Polo Norte, como se não houvesse contos de fadas e sonhos naquele lugar. As crianças, em sua maioria, estavam sujas, sem sapatos, com trapos em forma de roupa e o cabelo desajeitado. Suas casas eram pequenas, inacabadas, e amontoadas umas às outras. As mães sorriam, um pouco distantes do personagem natalino. Meu pai correspondia aos pequenos abraços, tirando do saco vermelho os doces e brinquedos e os entregando aos meninos que o cercavam. Eu sabia que ele estava fazendo algo bonito e, encolhida no banco de trás do carro, me orgulhava dele. Mas me senti estranha também, porque nunca havia visto outra criança, além de mim, chamando-o de papai.  
            
          Algumas horas depois, terminados os presentes, e abraços, e agradecimento; colocamos tudo o que sobrou de volta no carro e seguimos para casa outra vez. Disse ao meu pai que eu estava com medo; ele me encarou como se pedisse desculpas e rapidamente retirou a barba, a peruca e o gorro vermelho. "Sou só eu", disse. Depois sorriu. O meu medo, no entanto, não estava mais na figura do bom velhinho, mas no coração egoísta que nunca saberia dividir algumas coisas e iria querer, desde aquele dia, manter sempre uma distância segura do tão esperado Natal.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Origami


           Para me distrair um pouco dos estudos ininterruptos e de toda a tensão dos últimos dias, tiro de uma das gavetas do armário da cozinha um pano de prato velho, umedeço um pedaço do retalho na pia do banheiro e começo a limpar a prateleira de livros que tenho no quarto.
            
         O meu pai telefonou hoje, mais cedo; veio com uma notícia aparentemente ruim, falou algo sobre o seio direito de minha avó, alguma coisa que eu não ouvi direito ou simplesmente não prestei a devida atenção. Ele parecia triste do outro lado da linha; eu, no entanto, não fui capaz de demonstrar nenhuma compaixão, apenas repeti frases clichês deprimentes, como aquelas usadas por todos nós em velórios de quase-desconhecidos. Ficou alguns segundos em silêncio e depois perguntou se eu tinha certeza de que estava me sentindo bem; menti para não preocupá-lo, me despedi e desliguei o telefone.
            
           Saí do quarto depois disso, para comer alguma coisa, mas descobri que era melhor não ter saído. As meninas com quem divido a casa tinham pedido almoço no restaurante da avenida, e se esqueceram que talvez eu pudesse querer também, e não me perguntaram nada a respeito, nem sequer se deram conta de que o meu armário anda meio vazio desde que o fim do ano se iniciou. Olhei-as conversando e comendo, tirei do armário os pães que comprei na padaria da esquina, de manhã; abri a geladeira, peguei o último ovo guardado no suporte de papelão e coloquei-o na frigideira, com um pouco de margarina sem sal. Elas me perguntaram se estava tudo bem, menti outra vez. Passei a semana mentindo para os meus amigos, e alunos, e professores, e coordenadores de estágio, e até para aquele lagartinho que aparece no portão de casa todo santo dia, ao meio dia, quando estou voltando do trabalho.
            
          Nunca imaginei o mês de dezembro sendo tão difícil e enlouquecedor como esse tem se mostrado desde que deu as caras. As aulas parecem não ter mais fim, as crianças estão estressadas, os pais, os avós, os primos de terceiro grau. A cidade está muito mais quente comparada à época em que me mudei para cá, a saudade que eu tenho sentido de nós dois não diminuiu ainda, a casa silenciosa e solitária sufoca o pranto que de vez em quando eu não consigo esconder mais de mim.
            
          Em silêncio, lavo o prato, o garfo, a faca, a escumadeira e a frigideira que utilizei para preparar o meu almoço. Deixo escorrer uma lágrima tímida, enxugo-a com o dorso molhado da mão direita, antes que alguém veja, e volto para o quarto. Retorno às prateleiras empoeiradas, tiro os livros de lá, passo o pano úmido na base, espero secar e começo a colocá-los outra vez em seus lugares. Tento organizar em forma decrescente, mas desisto na metade do caminho, quando só alguns poucos centímetros diferenciavam um e outro. Puxo de dentro do Cortiço o marca-páginas de flor, que eu mesma fiz com aquele narciso seco e alguns pedaços de folha adesiva transparente, e vejo cair do meio daquelas páginas amareladas um papel colorido e dobrado em forma de coração, um dos milhares de origamis que andei fazendo nos últimos dias e enfiando em tudo quanto é canto pra não ficar olhando depois. 
            
            Encaro a prateleira finalmente organizada e tenho a sensação de que muita coisa mudou desde a primeira vez em que saímos juntos e eu fiz um origami de coração em um guardanapo de bar para entregar a você. Entreguei a merda do coração assim que nos vimos, mas, diferente dos que eu perco em meio aos livros, esse nunca vai voltar da mesma forma como foi. Muita coisa mudou. Dezembro, inclusive, nunca mais será só o último mês depois que você desistiu de nós. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Carmim


           Quartas-feiras são dias vermelhos, sempre foram e sempre vão ser. Ontem, apesar do feriado, não foi diferente. Não trabalhar e não ter aula me fez revirar na cama o dia todo, ao som do vídeo antigo de Andy Williams cantando Moon River, uma das dezenas de músicas tristes que estão salvas no computador. Eu nem sequer tive coragem de mexer nos textos da faculdade e colocar a matéria atrasada em ordem, ensaiei mil afazeres importantes, porém não comecei nenhum, nada além de passar o dia atualizando minha caixa de mensagens esperando estupidamente por um recado seu. Imaginei que nós dois estaríamos com o dia vazio e que talvez você quisesse me fazer companhia em casa ou fosse me levar para fazer coisas que nunca fizemos antes, como Paul Varjak e Hollly Golightly em Bonequinha de Luxo, mas me enganei. São sete da noite e a única mensagem que recebi foi a da minha mãe dizendo: “o botão morreu antes de desabrochar, mesmo com todos os meus cuidados”.

           Há dez dias eu estive em um casamento com a minha mãe, na cidade vizinha. Fiquei encantada com os lírios brancos da decoração da festa, passei a noite maquinando um plano para pegar um deles sem que ninguém sentisse falta depois. Ela, comovida com o meu desejo inquieto, pediu para uma das pessoas responsáveis pela organização do evento se podia ficar com algumas das flores que enfeitavam, principalmente, a mesa de doces. Deu-me os ramos de presente assim que a senhora, baixa e de cabelos grisalhos, autorizou. Em cada uma das mesas havia um vaso com água e rosas, tirei as flores de lá, enfiei os lírios no lugar e abracei-a, agradecendo. Cuidei deles no dia seguinte, limpei os galhos e troquei a água do recipiente por uma mais nova e mais fresca, passei tanto tempo admirando as flores que quase me esqueci do horário gravado em minha passagem. Peguei o vaso, joguei as malas dentro do carro do meu padrasto e o fiz correr o mais rápido possível até a rodoviária. Correr contra o tempo, no entanto, é sempre inviável, os minutos passados são irrevogáveis e invencíveis. O ônibus estava saindo quando nós chegamos e, com os bagageiros já fechados e minhas mãos repletas de malas, não houve outra escolha senão deixar os lírios para trás. Não tive tempo de me despedir, nem um abraço nem um recado. Recebi, alguns instantes depois, apenas uma mensagem de minha mãe, que prometia cuidar das flores e me enviar fotos do botão aberto depois. Porém ele não sobreviveu, as fotos não vieram e as quartas-feiras ainda são vermelhas longe das minhas amadas flores brancas e da companhia que você não se deu ao trabalho de fazer.

Alguém bate na porta do meu quarto, esfrego os olhos já cansados e estico o braço até o interruptor acendendo a lâmpada no alto do teto. Uma das garotas que mora comigo estende o telefone em minha direção assim que abro. “É um tal de Alan”, diz ela, curiosa por nunca ter me ouvido falar do rapaz. Alan e eu nos conhecemos numa festa da faculdade, eu estava podre de bêbada e ele segurava um potinho de tinta alaranjada, daquelas que brilham na luz negra; perguntou se podia fazer um desenho em mim, pintou um coração na minha perna, depois riscou a minha bochecha e me beijou a boca. Alan é um bom moço, gentil e romântico; envia uma mensagem bonita todos os fins de semana, desde então. Nós conversamos um pouco sobre coisas banais e, então, ele pergunta se pode dar uma passada. Olho o lençol revirado em minha cama, respiro o cheiro de espera que me fez companhia o dia todo, te procuro em alguns cantos do meu quarto mesmo sabendo que você não veio. “Posso?”, repete ele do outro lado da linha. Balanço a cabeça antes de dizer que sim. E peço que compre algumas flores. Não vai ser você deitado do lado direito de minha cama, não serão os lírios brancos a decorar o meu quarto azul-piscina, mas já é melhor que não ter nada, bem melhor que se sentir sempre sozinha nesse vazio carmim que é não saber quem somos nós. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Avião de papel


            O domingo nem parece domingo; levanto da cama antes das dez, tiro o short largo e clarinho, visto a calça jeans escura que nunca uso aos preguiçosos fins de semana; penteio os cabelos com pressa e saio. Recuso-me a esticar o lençol cor de rosa da cama, não ajeito os sapatos dentro de suas determinadas caixas nem dobro as roupas que acabei de tirar. Passo na padaria, na esquina de casa, compro um suco cítrico industrializado e corro até o ponto de ônibus. Bem, na verdade, eu não corro – o sedentarismo não permite essas estripulias -, apenas caminho a passos largos, os contando enquanto conto também o tempo. Mandei você embora há dois dias. Um, dois. Um, dois. E você se foi sem compreender os porquês, porque talvez não existam motivos reais, nada além do coração ainda vazio mesmo com você do lado.

           Olho para o outro lado da rua, há um carro prata estacionado ali, com os vidros abertos. Dentro dele, uma garota ouve músicas tristes no fone de ouvido ligado ao celular moderno; o irmão mais novo se equilibra, de joelhos, no mesmo banco. Ele deve ter uns quatro ou cinco anos, inocentes quatro ou cinco anos. Tem às mãos um folheto de supermercado dobrado em forma de avião, uma linha na ponta o transforma em pipa. Enquanto vê o seu brinquedo dar pequenos solavancos com a ventania singela do domingo de manhã, o menino sorri pra mim.

        Eu não queria ter me incomodado com os segredos que me contou; com as manias que precisava ter guardado numa caixa bem distante de mim, mas não guardou. Gostaria que a sua beleza grega de família japonesa tivesse sido o suficiente; que o meu coração tivesse pertencido a você tanto quanto o lado direito da minha cama de solteiro, o meu quarto escuro, a minha cortina azul-piscina, a literatura machadiana que você nunca leu. Queria que as suas filosofias me parecessem bonitas, que as suas músicas preferidas fossem as minhas preferidas, que a sua risada fora de hora me fizesse rir também. Eu queria ter me apaixonado perdidamente por você, mas não me apaixonei.

        Olho de novo para o garotinho a minha frente e o vejo encarando o pneu do carro. Seu avião de papel ficou enroscado lá depois de uma ventania um pouco mais rude que as anteriores. Triste, ele me olha e eu consigo enxergar, em seus olhos pequenos, algumas lágrimas leves, quase sopro de mãe em arranhado no joelho. Guardo o celular na bolsa preta, de franjas, que eu comprei anteontem, depois de me despedir de você. Atravesso a rua, paro em frente ao carro esportivo e me abaixo desenroscando o brinquedo da roda metálica do automóvel. O menino sorri como da primeira vez em que nos vimos; entrego o avião a ele enquanto a irmã se ajeita no banco e agradece. Ela é bonita, tem prováveis doze ou treze anos, não tão inocentes doze ou treze anos.

        Volto para o ponto e o ônibus passa logo em seguida. Da janela, avisto o garoto acenando pra mim e jogando outra vez o brinquedo improvisado para fora do carro, segurando, agora, com mais força a linha presa a ele. O vento está mais calmo. O tempo também. Todos nós estamos, porque é domingo de manhã. E no fim de semana o coração de todo mundo é uma pipa solta no vento, um avião de papel que a gente pode devolver sem ressentimentos, pra acalentar o choro alheio, como se não amar fosse uma coisa boa, um favor.

        Ou, pelo menos, deveria ser.

Pés cansados


           São quase três da tarde quando ele liga avisando que está no portão de casa, me esperando. Tem os cabelos mais curtos do que dá última vez em que nos vimos, a barba bem feita, os olhos mais tristes; o cheiro, porém, ainda é o que reconheci, por muito tempo, como sendo parte de mim. Desmarquei todos os compromissos de hoje para recebê-lo. Todos, sem exceções. Ele me abraça forte eu fecho os olhos me aninhando em seu ombro; conversamos um pouco e entramos juntos no carro clássico com bancos de couros de cor clara. Andei reclamando da minha comida ruim e ele veio até aqui para me levar a um restaurante e me poupar, pelo menos por um dia, da comida congelada de sempre. Dirige calmamente, me conta sobre os seus dias corridos no novo emprego e se desculpa por não poder dormir aqui essa noite. Seguro a sua mão, compreensiva. Eu entendo tudo o tempo inteiro apenas para não forçá-lo a uma condição de amor presente que nunca foi de seu feitio. Passamos a tarde caminhando no shopping, depois de almoçarmos juntos. Vez ou outra, seguro o seu braço me esquecendo de que nós já não somos os mesmos; ele beija o alto de minha cabeça recompensando o carinho. Apesar do tempo e dos erros, ainda caminhamos juntos quando necessário, mesmo que não exista mais amor. 

          Enquanto ele paga as camisas sociais que comprou, envio uma mensagem a uma amiga, conto sobre a visita rápida de meu antigo amor e ela – tentando consolar a carinha triste do bilhete virtual – me convida para um show cover de rock. Aceito o convite sem pensar muito nos calcanhares cansados da tarde toda andando pra lá e pra cá.  Passei o dia me esforçando para acompanhar os passos de alguém que há muito tem andado bem mais rápido que eu, e me esqueço como é difícil caminhar com os próprios pés quando chega a noite e ele não está mais segurando a minha mão.

           Chego à minha casa pouco antes das vinte horas; agradeço a companhia, me perco naquele abraço apertado por alguns instantes, e depois volto ao mundo solitário do amor que não deu certo; das festas vazias que eu nunca gosto de ir, mas sempre vou. Tomo um banho rápido, visto a roupa bonita que comprei na última viagem à cidade fria de meus avós, o salto agulha quase branco, e a maquiagem leve de sempre. Vou ao encontro de minha amiga, que está esperando ao lado de uma garota loira, q qual atende à todos os padrões de beleza impostos pela sociedade. Pegamos um táxi e vamos juntas ao pub combinado. A fila não está imensa, mas é demorada e os meus pés cansados começam a dar os primeiros sinais de um dia sem pausa.

          O lugar é fantástico, mas está lotado. Minhas companheiras, animadas, logo se ajeitam no meio da galera mais calorosa. Encosto num canto e fico torcendo para que as pessoas esvaziem logo aquele lugar e eu consiga respirar sem muito esforço. Multidões me sufocam. A colega loira de minha amiga dança de forma sensual uma música com a qual eu sempre apenas balancei a cabeça e toquei a minha bateria imaginária. Os cabelos compridos da moça, que gira a cabeça devagar e passa as mãos pela silhueta bem definida, me acerta por diversas vezes. Dou alguns passos para trás, para me livrar do açoitamento capilar, e acabo trombando com um rapaz embriagado que derruba parte de sua cerveja em meu short. Ele se desculpa olhando para um horizonte inexistente, cego pelo álcool em seu corpo. Minha amiga me envia uma mensagem perguntando “qual dos três é mais bonito?”. Ela conversa com um rapaz de camisa verde e é encarada por outros dois que esperam a desistência do primeiro para poder agir. Aponto o dedo indicador para cima, dando o meu voto ao número um como o melhor. 

            Saio à procura de um banheiro para limpar a cevada quente em minha bermuda e sou parada por um casal que me pede para segurar um prato com dois quartos de um limão, um vidrinho de sal e dois copos pequenos cheios de uma bebida amarela que eu suponho ser tequila. Eles bebem juntos e logo em seguida começam a se beijar. Levo o prato até o bar e faço um sinal ao garçom, que me agradece sem compreender o porquê ando recolhendo utensílios pela boate. Encontro o banheiro, abaixo a tampa do vaso sanitário e sento ali. Tiro os sapatos com cuidado, estico os pés na porta branca e estreita da cabine apertada e escrevo um novo torpedo à minha amiga: “encontrei um lugar pra descansar, não se preocupe, e divirta-se”. 

           Passo a noite sentada, sozinha, pensando em como tudo seria mais fácil se eu tivesse compreendido, antes de hoje, que é muito melhor caminhar sozinha que procurar companhia com os pés cansados.

domingo, 28 de julho de 2013

Um beijo



          Consigo enxergar, no teto do ônibus, o desenho abstrato de um beijo. Os furos minúsculos bem acima de minha poltrona, os quais deixam as curvas da representação mais claras que o restante do veiculo, lembram a pintura de um vaso, que era também o encontro de dois rostos, feito pela professora de artes da oitava série. Helena foi a primeira mulher por quem nutri certo interesse. Nunca contei a ela, nem a ninguém; mas sei que começou naquele instante, quando mostrou o desenho do vaso de flores e eu enxerguei o beijo que só ela enxergara. Helena era baixa perto dos outros adultos, tinha os cabelos pretos e curtos e olhos que sorriam; era casada com Eduardo, o único turismologo que conheci na vida. Ela viajava todo fim de semana para encontrá-lo e foi o estopim da guerra que acontecia dentro de mim, da estranheza que é abrir mão dos finais dos contos de fadas, sempre com um príncipe e uma princesa vivendo felizes para sempre.

          Sou despertada dos antigos pensamentos pela tosse discreta da senhora sentada ao meu lado; ela pede licença e caminha a passos miúdos em direção ao banheiro. Ana é viúva, tem 57 anos e viajou para visitar o filho mais velho, internado numa clinica de reabilitação para dependentes químicos há seis meses e dois dias. Ela é forte, apesar das madeixas fracas, já bem grisalhas; e das rugas ao redor dos olhos tristes; é educada e me contou a sua vida enquanto eu fitava o teto do automóvel. Ana não via um beijo, nem um vaso, nada além de seu filho perdido.

          Encaro o relógio digital a minha frente, na parte superior esquerda do ônibus. Há menos de vinte e quatro horas atrás nós ainda estávamos deitadas em minha cama, eu mexia nos botões pretos de sua blusa de lã e ela me contava sobre a briga que teve com uma ex-quase-namorada ciumenta e controladora. Mudo o canal da televisão para um de músicas modernas e ela me pede um beijo.

          Malu tem os cabelos louros e compridos, olhos grandes e silenciosos e um sorriso arrebatador. É lobo em pele de cordeiro, de traços sutis e sobrancelhas decididas. Nós nos conhecemos nas férias de inverno do ano passado, nessa mesma época, com a cidade cheias de turistas e os termômetros marcando sempre menos que o suportável.  Ela já havia beijado outras mulheres antes de mim. Passou alguns segundos brincando com o cordão do meu capuz, depois acariciou e ajeitou o cabelo que caia em meu rosto, e então encostou os lábios nos meus. Senti a sua pele macia, o cheiro doce de menina, a boca leve de encontro ao meu desejo disfarçado de indecisão. Retribui o beijo. E me apaixonei.

          Ana retorna ao seu lugar, me despertando dos pensamentos distantes mais uma vez. Ela comenta sobre o espaço pequeno dos banheiros e como é difícil se equilibrar lá dentro enquanto o ônibus se movimenta. Cobre as pernas com uma manta azul clarinha e sorri pra mim. Retribuo o sorriso e volto a encarar o alto do veículo, tentando agora me imaginar com 57 anos, e sem filhos.

          Helena me disse, certo dia, que algumas histórias são irreversíveis, não importa o tempo que passe; é impossível não enxergar o que sempre esteve bem debaixo de nosso nariz. Não dá para se tornar alheio ao desejo de ver além do que se pode ver apenas pelo medo de nadar contra a maré. Uma vez que se enxerga o beijo, nunca mais se enxergará apenas o vaso. Nem que você resolva viver de olhos fechados.  

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Convite




Passei a semana sem comer em casa; hoje é exatamente o sétimo dia em que me aventuro nas gordices de um fast food de preço acessível. Não que a comida dos restaurantes não valha a pena, mas já que é pra comer na rua que seja comida de rua, rápida e ruim. Coloco minha bandeja na mesa com quatro lugares, no canto do salão. Comprei frango e batatas fritas e refrigerante de cola. Ao meu lado, um garoto narra à amiga as peripécias de seu fim de semana agitado com o quase namorado loiro e alto. Um pai almoça com a filha a minha frente e atrás de mim se senta um senhor robusto, de cabelos grisalhos e com uma blusa cacharel xadrez. Tem feito frio aqui, nos últimos dias, e isso me faz ter muita saudade de casa. Sinto falta de meu gélido e úmido lar da montanha, da comida de minha avó. Não tem dado tempo de cozinhar. E, de qualquer forma, eu cozinho tão mal que o crime nem chega a compensar. Melhor mesmo é ficar nessa mesa, destruindo o meu estomago com comida industrializada e acompanhada por gente que eu nunca vi. Sabe, se eu ainda estivesse em casa, e ele me convidasse para ir a sua e se oferecesse para ser o chefe da noite, eu não teria coragem nem sequer vontade de recusar. Se os tempos fossem outros eu estaria lá, comendo qualquer outra coisa que fizesse bem ao meu organismo, dividindo a minha presença com quem se importa de verdade. Ou se importou, um dia.

André era cozinheiro formado, estava cobrindo as férias de Sebastião, chefe do restaurante dos funcionários - que gostava mesmo era de ser chamado se Seu Tião -, um senhor bem gentil, o qual fazia das tripas coração (literalmente) para todos nós, e que me lembrava meu tão amado pai. Conheci Seu Tião na fila do consultório médico, eu iria fazer o exame admissional e ele checava a saúde para poder finalmente sair de férias em paz. André me conheceu num momento constrangedor, eu acabara de derrubar uma cuba com quinze cebolas bem picadinhas pelos estudantes de gastronomia do hotel-escola e todos eles me encaravam ferozes pelo deslize. Eu era aprendiz na empresa, fazia um tour de mais ou menos duas semanas em cada setor. Um deles infelizmente era a cozinha. André se sensibilizou com o meu desastre, foi logo amenizando a situação e acalmando os ânimos dos alunos; se ofereceu para me ajudar e me deixou ir até ao banheiro para lavar o rosto inchado com o choro causado pelo corte do tempero. Depois disso ficou ao meu lado o tempo todo, se certificando de que eu não faria nenhuma monstruosa besteira; rindo das minhas dúvidas básicas sobre molho de macarrão e tentando me convencer a jantar na sua casa. “Eu cozinho, juro”, dizia ele rindo de mim. Nós sabíamos que ou André cozinhava ou eu colocaria fogo em todos os ingredientes e utensílios. Mas nunca tivemos certeza, porque eu nunca aceitei o seu convite. Passei duas semanas cozinhando o garoto em fogo brando, mudei de setor e passei outras duas esperando esfriar, até que Seu Tião voltou e eu não o vi mais.

Não tinha pensado muito em André até essa semana terminar. Comer fora não era um problema até eu passar sete dias fazendo isso, ininterruptamente. Eu gostava dessas batatas, e desse frango, e desse refrigerante com gelo e sem gás, até perceber que só é divertido às vezes e faz um mal danado em excesso. Comida ruim é desse jeito, feito as paixões avassaladoras, você pensa que vai ser a melhor coisa do mundo até experimentar como rotina e descobrir que vai destruindo cada parte de você conforme passam os dias. Comida de rua é até que bonita, mas, assim como as paixões momentâneas, não sustenta. André conhecia bem essa minha história, uma pena eu não estivesse preparada o suficiente para o seu jantar à luz de velas, para o seu amor que poderia preencher muito mais do que um faminto estômago. André sabia disso e tentou me mostrar. Mas nós nunca tivemos certeza. ... Eu nunca aceitei o seu convite. 

sábado, 25 de maio de 2013

Promessas


Luana acordou assustada com o grito ininterrupto do telefone. Não era o habitual despertador forçando o corpo a se levantar para que ela pudesse se vender ao sistema, era diferente, o toque de alguém que a esperava, impaciente, do outro lado da linha. O celular da moça começara a dar os primeiros sinais de seu fim de vida e fazia isso não despertando no horário programado, às seis da manhã. No telefone fixo, o supervisor de seu estágio deseja saber onde foi que ela se meteu. A garota pensa em responder que, ultimamente, tem estado em muitos lugares ao mesmo tempo, mas “meter”, seja lá o que for e aonde for, não tem sido um ato muito sucessível em seus dias.
          - Perdi a hora, me desculpe. Chego em trinta minutos – diz Luana, já tirando a camiseta velha e larga, com uma lata de cerveja estampada na parte de trás.

Olha as horas na tela do computador, esquecido ligado desde ontem, depois de passar horas e horas fitando as fotos de Pedro. Apesar da camisa com propaganda barata que ele deixou esquecida em sua gaveta; do perfume masculino importado impregnado em alguns de seus lençóis; da caneca de chá, agora sem par; e de todas as outras lembranças que aparecem a cada arrumação desembestada, não sente saudades do rapaz. Não muita. Sente falta da companhia do moço, talvez. De qualquer companhia que traga uma caneca e deixe ali ao lado da sua, cor de rosa, com um coração vermelho e gordinho pintado no fundo, e uma lasca quase imperceptível na alça de cerâmica. Pedro já faz tanto tempo! Luana sente falta de alguém que lhe beije os olhos. E a boca. E bagunce a cama em sua companhia. E não vá embora antes do fim.

Pega a bolsa, as chaves de casa, do armário da escola e do coração, desliga o computador e sai às pressas. Encarando agora o relógio em seu pulso, constata que tem exatamente dezoito minutos para chegar ao seu destino. Pedro tinha dezoito anos quando apareceu a sua casa querendo ficar, trazendo caneca, camisa e o cheiro de menino que ainda vive com o dinheiro dos pais. Luana tinha vinte, mas era muito mais velha que isso; morava sozinha desde os dezessete; raramente pedia dinheiro à mãe, e se pedia devolvia depois, era só um empréstimo, um socorro, uma divida segura. Aprendeu a andar sozinha e andara desde então.

À passos largos caminha até o ônibus, entra no automóvel, se senta num banco grudado à janela e logo em seguida se ajeita ao seu lado um moço de pele lisinha e cabelos cacheados. A moça fita as mãos do garoto, muito bonitas e jovens. Ele sorri ao perceber seus olhares. Luana retribui e o rapaz, então, se apresenta. Embalam uma conversa descompromissada, sobre o clima ameno dos últimos dias e como isso poderia durar para sempre. Ele anota o número de seu celular no papel amarelo do bloco de notas em sua mochila e o entrega à garota. Ela sorri e pensa um pouco em como Pedro pediu seu número, na mesa de um bar, descarado, meio bêbado. E ligou, como havia prometido, no dia seguinte. Pedro cumpria todas as suas promessas e por isso nunca prometia ficar.

Luana se levanta, puxa o sinalizador do ônibus para solicitar a parada e, antes de descer, pede ao garoto que compre uma caneca. Ele franze o cenho, mas, depois de ver os olhos da moça brilhando em verdade, concorda. Ela acena, se despedindo, e promete ligar. Luana também cumpre suas promessas. Todas elas. E prometeu ao Pedro que não o deixaria nunca; iria guardá-lo para sempre, ainda que fosse dentro de uma caneca, na lembrança quente do chá que esfriou.         

terça-feira, 14 de maio de 2013

Instantes


          Passa um pouco do meio dia e, aos domingos, este é o horário mais movimentado do restaurante especializado em frutos do mar. O estabelecimento fica há treze quilômetros da cidade grande, num rancho cercado por quatro lagos em que se é permitido pescar em nome da diversão e um bosque repleto de seringueiras onde os visitantes deixam seus automóveis à sombra das árvores. No teto alto, ventiladores misturam as brisas de suas elicies às dos ventos matutinos da mãe natureza. Crianças correm em volta das mesas postas para o almoço, servido até as dezesseis e, vez ou outra, um funcionário é obrigado a desviar com cautela a bandeja bem equilibrada em uma de suas mãos dos pequenos corpos agitadíssimos e desatentos. A música ambiente vai de jazz à bossa nova e não é sempre que se consegue distinguir essa daquela, devido ao barulho dos falantes presentes.

          A porta principal se abre. Uma garota de aparentes vinte anos e longos cabelos castanhos claros, acompanhada de um casal mais velho e um garotinho, adentra o local sorrindo; arruma a alça dobrada do vestido claro e solto do corpo; dá alguns passos em direção a provável única mesa vazia do local; estica o pescoço a procura de outra mais afastada da entrada; coloca a bolsa vermelha na cadeira a sua frente e pede para que todos aguardem sentados. Ziguezagueando entre lugares ocupados, em busca de algum que não esteja e a deixe mais perto do lago, atrai a atenção do garçom jovem e de cabeça raspada que há pouco serviu conhaque para um senhor de cabelos brancos. Galante e lisonjeiro, ele a olha passar, mas a moça, distraída, não retribui e vai ao encontro dos parentes que a esperam.

          O homem a segue e assim que a vê se acomodar à mesa, se aproxima saudosamente oferecendo o cardápio às mãos pequenas da garota. Ele, que não nasceu em nossas terras, é rapidamente descoberto pelo sotaque latino-americano como um estrangeiro. Ela, encantada com a língua que os difere, finalmente o fita de olhos receptivos. Agora juntos, os olhos do moço, claros, quase verdes, reluzem o brilho dos da menina. Ela tem um rosto bonito, angelical, quase porcelana; ele se parece com personagens anti-heróis de filmes em preto e branco, que não envelhecem nem deixam de arrancar suspiros femininos. Encaram-se por longos segundos, até serem interrompidos pelos pedidos do senhor à mesa. O garçom anota tudo calmamente e, sempre que possível, com a caneta ainda apoiada no bloco de papeis azuis em sua mão, volta a olhar para a moça. Ela retribui os olhares sorrindo e só se distrai do rapaz ao seu lado para ouvir o que o garotinho em sua mesa cochicha com a mãe. O menino pergunta se pode brincar no escorregador perto dos carros estacionados e, com o consentimento da senhora, se afasta da família ao mesmo tempo em que o garçom, com os pedidos já escritos, se encaminha para a cozinha.

          O almoço, devido ao movimento ininterrupto do restaurante há essa hora, demora cerca de quarenta minutos para ficar pronto e é nesse tempo mesmo curto que a garota de sorriso fácil e o trabalhador estrangeiro se apaixonam sem saber. Fitam-se discretos e riem por dentro quando os olhos se encontram em meio às bandejas pratas, passando de um lado para o outro. Idealizam-se cientes do tempo contado. Amam-se em silêncio, em segundos, em sorrisos; amam o tom da pele, o jeito de andar e mexer as mãos, a fala distinta de quem não nasceu junto, mas pode ficar.

          A tarde começa a cair e o restaurante, agora não tão cheio, é tomado pela brisa da chuva que virá em breve. A família da garota, já sem fome, se prepara para partir. Ela, ainda que queira, não os convence a ficar mais. O rapaz, ainda que anseie, não se aproxima para pedir que ela volte. Encaram-se pela última vez, se eternizando no brilho do olhar. Sabem, no fundo, que bom mesmo é amar assim, em instantes, sem ter tempo pra partir o coração um do outro. Oferecem, agora, o único amor que têm disponível, aquele que acaba antes mesmo de começar; aquele que, por nunca ter acontecido, é incapaz de machucar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

País das Maravilhas


Todo e qualquer tipo de poeira da face da terra tem algum tipo de atração cósmica fatal com os meus olhos fotofóbicos. Claro, as construções (que não são poucas) na minha cidade, neste momento, e a falta de chuva têm contribuído bastante, mas, de qualquer forma, não as culpo. Sempre foi assim, se existe alguma partícula perdida e não identificada por aí ela dará um jeito de encontrar meus claros olhos e se adentrar neles sem convite.
Hoje, enquanto caminhava, o vento soprou e toda a poeira do universo foi parar nos meus olhos, atropelando os óculos de sol e desrespeitando, na maior cara de pau, o seu espaço protetor. Fechei-os às pressas, em vão, e fiquei parada até toda a ardência provocada por aquele vendaval passar. Senti uma brisa leva bagunçar os meus cabelos e tive a impressão, sei lá eu, Deus, porque, de estar voando. Voei até a brisa me soltar e por de volta num lugar que não eram os meus olhos a poeira acumulada ali há tanto tempo. Sonhei acordada, por alguns instantes, como tenho feito desde os quinze anos, antes disso até.
Naquela época os sonhos eram palpáveis, mais materiais, se não me engano. Lembro que aos quatorze comecei a sonhar, assim como as amigas mais próximas, com a festa de debutantes. Contei à minha mãe que vestiria algo azul e rodado. As mesas seriam decoradas de garrafinhas pequenas e em seus rótulos estariam impressas as letras b, e, b, a, hífen, m, e. Nos bolinhos de xícara haveria bilhetes com um “coma-me” meio inclinado, dando a entender que o ato de comer poderia ser perigoso demais. Eu colocaria coelhos brancos pelos campos e o meu pai, vestido de chapeleiro maluco, ainda que não muito feliz com a ideia, recepcionaria os convidados. Minha mãe ouvia tudo em silêncio, distante desse planeta que vivemos e, também, daquele que Alice inventara e eu tanto gosto. Quando estava quase chegando ao fim de toda minha idealização festiva, ela olhou meio cabisbaixa para os meus pés descalços e me disse: “você sonha alto demais, menina”. Entendi o que minha mãe queria dizer, na verdade; nós não teríamos dinheiro para nem metade daquela festa. Mas, de uma forma ou de outra, eu não me importava se ela iria mesmo acontecer. Queria apenas sonhar e planejar e fingir que seria de verdade. Aquela festa poderia não se concretizar quando eu completasse meus tão esperados quinze anos, desde que acontecesse um dia, mais tarde. Preferiria que minha mãe dissesse que não tinha condições nenhuma de me dar toda aquela parafernália, ao invés de protestar que eu era pequena demais para tanta fantasia. Aquelas palavras foram a gota d’água em um balde que nunca precisou de muito mais que isso para transbordar.
Naquele dia, decidi que as pessoas poderiam palpitar sobre o comprimento da minha inseparável franja, a cor das minhas unhas, a quantidade de maquilagem nas pálpebras e muitas outras bobeiras, mas nunca, jamais receberiam o aval para opinar sobre o tamanho dos meus sonhos. As minhas idealizações não seriam mensuráveis, os meus pés não ficariam no chão quando o assunto em questão fosse fantasiar.
Eu vou sonhar, voando, porque não tenho medo nenhum de cair. Tenho medo é de viver para sempre conformada com o que vocês delimitaram permitido pra mim. O céu é o limite, meus queridos. O céu e o País das Maravilhas. E eu vou até lá, se preciso for, pra continuar sonhando.

domingo, 28 de abril de 2013

Eu nunca beijei ninguém de aquário


          A culpa dos relacionamentos que terminam antes do fim é toda dos signos, tenho certeza. Fico dizendo que não acredito na astrologia; que considero esta teoria de que a personalidade é determinada pelo mês de nosso nascimento a maior ilusão; que se as pessoas se amam fazem-dar-certo-e-ponto-final, mas, o mundo inteiro sabe, é nas páginas virtuais de Liz Alguma Coisa que decido se um relacionamento merece as minhas fichas apostadas em peso.
          Assim que soube, por exemplo, o dia de seu aniversário, fui correndo para internet combinar os nossos signos, segundo ela, incompatíveis. Foi por causa destas combinações que eu nunca beijei ninguém de aquário. Os tablóides virtuais diziam pra gente “não se envolver”, pois funcionamos “melhor como amigos”. Eu, humildemente e sem nunca arriscar, obedecia às dicas como se fossem regras. Fiquei amiga de todos os aquarianos que surgiram com a intenção de namorar; joguei-os no campo da amizade e nunca mais os tirei de lá. Fugi de alguns durante a puberdade, em que aperto de mão pode simbolizar vontade de beijar na boca. Esquivei-me de todas as investidas e, nunca, nunca me envolvi com ninguém deste signo. Não havia permitido, até então, que o meu fogo ariano caísse no mar aberto de uma pessoa que nasceu entre o primeiro e segundo mês do ano.
          Se eu tivesse acatado os conceitos de nossa combinação, como fiz com todos os signos do elemento água, não estaria, agora, com o ombro molhado de lágrimas suas. Você não se sentiria culpado por estar me deixando; eu não seria, realmente, a culpada por esse abandono. Não precisaria segurar o meu choro porque estou em uma praça pública se tivesse lido com calma as entrelinhas de nossa combinação astral e questionado com mais ênfase a tal da porcentagem que me fez acreditar que poderíamos dar certo. Nós não poderíamos dar certo. Mas, crendo que sim, burlei as regras do zodíaco e me neguei a te arrastar para zona amigável de onde ninguém mais pode sair. Eu resisti, achei (sei lá eu, Deus, por que) que com você seria diferente. Achei, apenas.
          Não foi diferente e nos culparmos pelo fim não vai adiantar. A culpa é dos signos. Do meu, principalmente; do primeiro e maluco Áries, meio carneiro, insolúvel, solitário. Culpa do seu, assim, tão doce e aéreo, descompromissado, sempre feliz. A culpa do meu rímel em seu ombro é dos signos. A culpa do meu coração apertado junto ao teu é dos signos. A culpa de nos afastarmos, de minhas malas arrumadas, das mudanças do ano que vem, tudo. Lembro-me de você, no começo, com medo de que eu não me apaixonasse e me sinto uma idiota por te ver, agora, chorando inconsolável porque acha que gosto mais do que podia de nós dois. Até isso, eu sei, é culpa dos signos.
          Eu deveria ter acreditado, como sempre, nos benditos dos astros e me poupado de machucar você; de ver toda essa gente me encarar, porque você soluça em meu ombro, como se eu fosse um monstro sem coração. Eu devia ter ouvido a Liz (que, recordei, tem sobrenome Greene e não Alguma Coisa) quando ela disse que as relações entre nós seriam muito mais intensas que o previsto, tornando-se, assim, catastróficas, independente do sentimento presente ser (ou não) bom e correspondido.
          Eu poderia, caso não tivesse passado por cima das regras astrais, estar indo para aula, às sete horas da noite, sem os óculos escuros me tapando a cara inchada do choro que deixei escapar depois que nos despedimos. Não tinha o direito de duvidar dos únicos elementos que conseguem dizer, assim que nascemos, quem vamos ou não ser ao longo da vida e, assim como nunca beijei ninguém de aquário, eu não deveria ter me apaixonado por você.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Despertar


          O meu despertador tocas às 8:45, em ponto. É um ritual que não sejam horas inteiras; programo-o para me acordar quinze minutos antes do previsto para estar realmente de pé; é um presente dado, a mim mesma, ao amanhecer; uma preguiça extra curtida entre meus olhos ainda inchados de sono e o travesseiro e cama quentes de encontro ao corpo mole de todo dia cedo. Ligo o chuveiro e, enquanto o vapor toma por inteiro o banheiro pequeno e frio, me dispo das poucas roupas de dormir. A água morna vai me despertando aos poucos e descendo das madeixas mais altas ao pé magrinho em frações de incontáveis segundos. Cheiro de shampoo e sabonete se misturam na espuma que desce o ralo. O espelho embaçado reflete um retrato fosco de mim. Fecho os olhos sob a fraca luz. Hoje me recuso a pensar na escassez do planeta e na economia necessária de água e energia. Daqui a pouco ele estará batendo a minha porta e o mundo não importa quando sei que ele vem. Não queria esperar tão feliz por aquelas mãos arredias de encontro às partes mais sensíveis de mim, pelo odor de menino em seu colo de homem, pelos olhos sempre distantes ainda que dentro dos meus. Mas espero. Espero porquê a minha vida só é este espetáculo quase divino entre o levantar e o estar pronta para receber visitas quando ele vem me ver. Nos outros dias sou apenas metade do que é ser; acordo sem relógio; levanto a hora que quero; acumulo trabalhos pra noite que parece não ter fim, não como, não bebo, não assisto aos filmes antigos que gostamos de ver juntos; passo a manhã dentro de um pijama verde claro, de algodão, arrastando os chinelos pelo chão escuro e pensando na porcaria de vida que tenho levado, quando sozinha, por causa da falta de um amor inseparável.

          A campainha soa. Enxugo a lágrima caída de meu olho esquerdo, ajeito as cadeiras da mesa de jantar, depois a colcha lilás da cama de casal em meu quarto e corro até o portão cinza, de espaçadas grades, que separa o meu apartamento no térreo da avenida movimentada. Removo o cadeado do fecho de metal e mantenho a passagem aberta enquanto ele tira suas malas do carro escuro. Meu amado está de jeans, camiseta azul e óculos de sol. O cabelo baixinho não traz o topete de meus namorados adolescentes. Sorrio e o vejo retribuindo. Seus dentes cerrados e sem falhas se destacam em meio a barba cobrindo-lhe bochechas, queixo e buço. Agarra-me a cintura antes de dizer qualquer coisa e me beija a boca devagar; encosta os lábios nos meus, com calma, como se estivesse de despedindo, não chegando. Sobe as mãos percorrendo minha coluna e as deixa em meu cabelo, perdendo seus dedos nos fios lisos e quase dourados. Solto meus braços de seus ombros e os coloco em suas costas, puxando seu corpo para mais próximo do meu. Beijamos-nos com mais vontade agora, com mais saudade; o beijo típico de um reencontro, do casal que ficou tempo demais longe, de quem não se via há muito, mas não passou um segundo sem imaginar como seria estar perto outra vez. 

          Seguro a mão de minha tão esperada visita e a guio para o meu quarto. Deixo suas malas no chão e o beijo outra vez. Entre um carinho e outro, ligo o rádio. Caetano envolve o nosso amor nostálgico. “Você é complexo o bastante; bom o bastante”. Apago a luz principal e acendo o abajur sobre o criado-mudo mogno ao lado da cama, também neste tom. Afasto-me um pouco de seu rosto, olho em seus olhos e sorrio outra vez. “Senti saudades de você”, diz ele, com a voz sussurrada em meio à respiração ofegante. Fico em silêncio. Eu também senti. Beijo-o intensamente e, pelo menos agora, apago de mim qualquer memória que não seja a deste rosto gentil me olhando.

          Acordo assustada com um ritmo sem letra e irritante que não vem de meu despertador e muito menos de um poema alla Veloso. Ele tira os braços envoltos ao meu corpo e se levanta rapidamente. Com as mãos cobrindo os olhos, espio entre os dedos o espaço a minha volta. Temos travesseiros e malas no tapete, roupas jogadas e o abajur ainda acesso. No meu relógio digital são 16 horas, mas o cômodo escuro dá a impressão de que já é noite do lado de fora. O barulho em questão foi o toque do celular de meu amado. Concentro-me em sua conversa; pelo tom comedido da voz, sei que é ela quem está do outro lado da linha. Ligou, provavelmente, porque ele “esqueceu” de telefonar avisando que chegou bem ao “hotel” e que as “reuniões empresariais” irão tomar muito o seu tempo no fim de semana. Em meio as palavras brandas dele, dirigidas à esposa, encolho o meu corpo na cama e diminuo o meu ser as aspas da traição. Algumas lágrimas correm involuntárias pelo meu rosto redondo.

          Quando o amor vem ao nosso encontro nada do que fazemos por ele parece ser capaz de ter um gosto errôneo, de se igualar ao perigoso e proibido, de ferir tão profundamente. Mas às vezes tem; às vezes é. E a ferida, que cresce, é irremediável a qualquer despertar.  

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Aos vinte

         
          Acordar sozinha no dia em que faço vinte anos foi só o começo do não conto de fadas que é crescer de verdade. Eu recebi algumas ligações pela manhã, mas nenhum abraço passou pela linha do telefone; ninguém beijou os meus cabelos, como o meu avô fazia; ninguém olhou nos meus olhos pra dizer que eu sou fantástica e que minha personalidade, ainda que extremamente forte, é das mais encantadoras; não havia um bilhete sob os meus livros nem um bolo de massa escura em cima da mesa. Eu levantei, arrumei as camas; lavei alguns pratos, talheres e copos que estavam na pia desde a noite anterior e sentei à mesa para estudar. 

          Quando o meu pai me ligou, eu chorei um pouco, porém não permiti que ele percebesse. Minha avó telefonou em seguida e eu ainda estava secando os olhos; ela me contou que minha bisavó, beirando os noventa anos, tem perdido sua lucidez conforme o tempo passa. Segundo ela, eu morri há quinze dias. Sua filha, que agora está comigo do outro lado da linha, não foi ao meu enterro; meu pai foi, mas não chorou muito. Minha mãe não consegue parar de chorar. Dizem que perder um ente querido para a inevitável morte é mesmo assim, sofre mais quem não aproveitou cada segundo de nossa viva presença. Coloco o aparelho no gancho e abro a página da rede social para ler as possíveis felicitações vindas de lá. Olho as mensagens mais longas com carinho, apago as das pessoas que não se deram o trabalho de escrever nada além do clichê “tudo de bom” e olho as fotos do meu último ano. Peca quem pensa que começamos a crescer com dezoito, o mundo se mostra mesmo é aos vinte. Aos vinte você descobre que os seus medos de criança não estão curados; que os amores antigos ainda não foram totalmente cicatrizados; que a casa dos pais é mesmo o melhor lugar do mundo, mas não é mais o seu lugar.

          Olho para a mesa do jantar repleta de livros e penso que, apesar de estar exatamente onde queria, eu estou sozinha e, talvez por isso, minha bisa não esteja assim de todo errada ao dizer que morri nos últimos dias. Morremos um pouco a cada dia, de qualquer forma, sem nos darmos grande conta disso. Hoje, dezoito do quatro, uma data que a meu ver não combina muito - como doze do dois, ou três do seis -, eu completo vinte primaveras e, as vezes, ainda esqueço de como nossa vida passa rápido, de como a gente vai morrendo ao envelhecer. Esqueço o que os aniversários chegam para nos lembrar: que o tempo não para, que o tempo voa e escorre pelas nossas mãos sem que possamos escolher segura-lo com mais força.

          Há vinte anos os meus pais ainda estariam casados por mais dois; meus irmãos mais novos, hoje com dez e onze, não faziam parte dos planos de ninguém; meu irmão mais velho, agora casado, não passava de uma criança arteira que não queria dividir o quarto. Há vinte anos minha bisavó não completara nem setenta e ainda tinha vivo o marido que mais tarde me apelidaria de Baballo e me deixaria passar o dia brincando em uma bacia de alumínio com água.  

          Ao completar vinte anos eu descobri que ficar sozinha não é tão divertido quanto mostram os filmes americanos em que os pais deixam a criança em casa, depois de esquecê-la em meios às malas da viagem de férias, e ela se diverte mais assim a que se tivesse ido com eles. Aos vinte anos eu me vi chorando em uma cadeira estreita, como se tivesse dois e fosse esquecida pela família que, na verdade, está programando uma festa surpresa. Hoje, com vinte anos, eu não ganhei uma festa pela primeira vez na minha vida e, mesmo sempre dizendo que não gosto de fazer aniversário, senti a dor que é não ter ninguém ao meu lado comemorando o dia em que nasci. Aos vinte anos eu descobri que o preço por ter asas maiores que a vontade de ficar é precisar voar sem ter companhia.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A única salvação


“Eu deveria estar feliz”, sussurro baixinho, sem que ninguém me ouça. Metade das pessoas que estão aqui são apenas conhecidas; eu não sei os seus sobrenomes, os sabores de sorvete de que mais gostam ou suas flores preferidas. Ninguém nessa sala toda decorada de verde, vermelho e alguns velas perfumadas, sabe que detestei todos os presentes que ganhei; que não tinha desejado nada além de livros do Caio e do Gabito e um narciso como marca-páginas, talvez. Nenhuma destas pessoas que sorri pra mim e elogia os meus olhos sabe que há pouco o meu avô faleceu e eu não chorei assim que soube; apenas no outro dia e só porquê pensei que não tivesse um coração. Quando recebi a notícia, enviei uma mensagem ao meu pai pedindo desculpas por não estar ao lado dele e dizendo que eu sentia muito, que tiraria aquela dor de seu peito se possível; depois vesti as pantufas vermelhas de minha avó materna e dancei a música número um daquele cd melancólico que ganhei, há dois anos, na formatura do curso de espanhol. Chorei no outro dia, mas só porque dancei quando deveria deixar a tristeza fúnebre tomar conta de mim; porque não queria não ter um coração e sabia que o meu pai ficaria muito decepcionado se soubesse disso. Graças a ele, claro, sei que tenho, sim. E espero estar perdoada por chorar, mesmo que em atraso e não especificamente, a morte de um ente querido.
Esforço-me um pouco para não pensar tanto em bobeiras e parecer mais normal. Sento-me ao lado das pessoas mais falantes, daqueles que vão me olhar apenas para ter certeza de que rio de suas piadas e não a fim de perguntar o que acho disso ou daquilo outro. Para me certificar de que, ainda que haja interrogações eu não tenha condições de responder, coloco alguns salgados no prato e como bem devagar, sem nunca deixar a boca livre para palavras que, de uma forma ou de outra, não querem mesmo sair.
Observo, pela porta entreaberta do lavabo, minha prima de quatro anos e um amigo dela, com três, se não me engano, brincando com um barco que ele acabara de ganhar de seus pais. Ligam a torneira para molhar um pouco o brinquedo e desligam assim que algum adulto os repreende. “Nada de bagunça vocês dois!”. Eles dão aquela risada sarcástica de quem vai obedecer apenas por enquanto e continuar aprontando assim que todo mundo se distrair de novo em suas conversas supérfluas.
Fico olhando por um bom tempo, até perceber em minha prima um olhar de desânimo. Ela parece cansada daquela brincadeira tanto quanto eu dos diálogos alheios na sala de estar. Tenta arrastar o garoto para fora do cômodo frio, mas ele permanece imóvel e totalmente conformado com o divertimento presente em seu barco e na torneira ligada, pelas minhas contas, há uns cinco minutos sem que nenhum adulto grite. Rio por compreendê-la e desligo-me um pouco dos dois.
Levanto da cadeira para pegar mais salgados e continuar com esse silêncio forçado de quem se obriga a não esbanjar simpatia. Escuto, então, o garotinho aos prantos. Largo o prato sobre a mesa e corro até o banheiro com medo de que minha prima, um pouco maior, o tenha arrastado para sala à força. Ele continua parado e, com o rosto pequeno cheio de lágrimas, aponta para o vaso sanitário. Procuro minha menina, preocupada, e acabo que por encontrá-la debaixo da mesa, teoricamente escondida, ciente da bronca que vai levar, porém rindo. Rindo como se estivesse feliz sem poder estar. Aproximo-me do garoto bem menor que minhas pernas e, ao esticar o pescoço para decifrar o que ele aponta, vejo o seu brinquedo dentro da privada.
Começo a rir, enquanto o menino me fita assustado. Eu estou feliz, também, como a minha prima de quatro anos; exatamente como pensei, no começo desta festa chata, que deveria estar. Estou feliz porque descobri que a gente não abandona um barco só quando ele está furado; abandonamos também quando infelizes, quando revelamos a nós mesmos que pertencemos muito mais ao mar que aquilo que nos protege dele.
Tiro minha prima do suposto esconderijo e a abraço fortemente; olho em seus olhos pequenos, tão expressivos e claros quanto os meus, e sorrio sem mover os lábios. Ela corresponde, sorrindo também com o olhar. Fico feliz porque descobri que alguém tão pequena foi capaz de enxergar, assim como eu, que abandonar o barco nem sempre é sinônimo de fuga. Se jogar no mar, às vezes, é a única salvação.