domingo, 25 de dezembro de 2011

Reticência


            Não começarei este texto com a frase clichê de que o ano se foi rápido demais e eu nem notei. Ah não, isso seria ilusão. Eu notei cada segundo deste 2011 passando. Cada conquista, cada fracasso. Cada nova pessoa que conheci e cada antiga que precisei esquecer. Os caras por quem me apaixonei e os que eu abominei com todas as forças.  Os mínimos, mas não menos importantes detalhes de 360 dias (porque os outros cinco são contagem regressiva) lembrados um a um numa retrospectiva cheia de altos, baixos, uma independência sem tamanho – ainda que tenha sido mais simbólica do que sólida - e muita saudade.

2011 foi um grande ano. Eu acredito que foi. Tem coisas que conquistei aqui e que antes imaginava ser incapaz de conquistar. Os 18 anos que demoraram uns 30 para chegar. O emprego que por ser primeiro não poderia ser melhor. A quase autonomia de morar com a avó ao invés de com o pai. Os salários torrados em livros, roupas, sapatos e presentes, e ninguém para reclamar. A conta de telefone paga por mim – ainda que só por uma vez. A sensação de ser livre, de poder ir e vir dando satisfações porque gostava de dar e não porque era necessário. Eu me permiti sonhar depois de tanto tempo enfiada numa areia movediça que me arrastava pra longe do que sempre almejei. Pude ser o que eu sou e descobrir quem não quero ser.

E, agora, ao contrário da maioria das pessoas, eu não preciso mais recomeçar. Eu não quero. Recomecei uma vez e é só essa a nossa necessidade. Se desfaçam de listas, ondas, sementes de romã, roupas brancas e douradas. A única coisa de que realmente precisamos é coragem para seguir os planos que de tão bem organizados em papel acabaram ficando presos na memória. É preciso arriscar e acreditar que vai dar certo. Nós fazemos o ano bom ou ruim. É uma escolha. Eu escolhi recomeçar em 2011. Escolhi, e não escrevi. Não esperei a vida me mostrar que estava certa ou errada, não contei com a sorte e muito menos com superstições. Decidi que seria, assim, feliz. E foi.  Acreditar funciona mais do que todas as mandingas nas quais ficamos presos.

Junte todas as forças que ainda lhe restam - depois de tantos recomeços mal feitos e frustrantes - e faça de 2012 um grande ano. Eu farei, sem recomeçar. Pela primeira vez vou continuar. Finalizar algumas coisas que ficaram pendentes, por em prática todos os sonhos que ficaram um pouco perdidos, viajar, me mudar, de novo, quem sabe. Vou proceder, conquistar, continuar tirando aprendizado daquilo que não dá certo. Carregarei um pouco de 2011 para 2012 e farei dele um ano ainda maior que o anterior. Vou continuar do jeito certo depois de tanto tempo recomeçando do errado. Usar reticência depois de anos pondo pontos finais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Vilania


Eles são malvados, trapaceiros, mentirosos, manipuladores e, na maioria das vezes, também são inteligentes e elegantes. Você encontra exceções em filmes infantis e comédias, claro; mas nos clássicos e séries dramáticas eles são exatamente assim. Podem perder a guerra, mas vencem um bocado de batalhas. São prepotentes, confiantes e solitários. Loucos de pedra esculpida e tudo mais. Não medem esforços para conseguir o que querem.

Confesso: sou fascinada por vilões. Adoro sorvete, chá gelado, temperaturas baixas. Vingança, dizem por aí, é um prato que se come frio. Eu te amo, mas não vou te poupar, sinto muito. Você prometeu que me levaria para ver aquele filme e não levou. Você não me levou e eu não questionei a causa, mas sei exatamente qual foi. As conseqüências? Serão sofridas, óbvio. Já estão sendo, se é que você me entende. Nada muito sério, eu diria. Apenas indiferença.

Você é magro demais, amado demais, e eu odeio pessoas assim. Nós te odiamos. Os vilões odeiam tudo aquilo que soa falso. Gente que distribui amor como se vivesse, constantemente, em um comercial de margarina, que sorri e usa maquiagem como se o ser humano precisasse ser imutável, que fala alto demais fingindo simpatia e não faz sexo fora da cama, soa falso. Você é assim, a maioria das pessoas é. Por isso, então, a solidão de outrora nos tomou e se tornou amiga intima. Mas, de certa forma, antes ela do que você.

O bem sempre vence o mal, eu sei. É em felizes para sempre que terminam os contos de fadas os quais ouço desde pequena. A minha maldade é apenas válvula de escape num mundo dominado pela mentira de gente que se diz boazinha e apunhala pelas costas. Meu lado perverso é protesto contra estes sorrisos que distribuem ao mesmo tempo em que desejam o mal. Minha malignidade vem do cansaço que sinto dessa simpatia aleivosa partilhada por vocês. Prefiro a sinceridade de me jogar na cara o que não suportas em mim, do que fingir que somos amigos. Isso sim é maldade.

Tenho um pezinho no lado negro e não escondo de ninguém. Não depois deste texto, pelo menos. Mas, mil vezes melhor ter um pé na maldade e usufruir deste mal, do que fingir o bem e decepcionar. Quem me conhece, conhece de imediato o meu lado ruim e sabe exatamente o que esperar de mim. Mas e você? Você que se faz de benévolo pra conquistar, mas quebra em pedaços irreparáveis a confiança de alguém com uma fofoca? Bem pior, eu diria. É fácil controlar a enfermidade quando se tem o remédio certo. É assim com a maldade: se você sabe que ela existe em mim, saberás também como evitá-la.

Portanto, preocupe-se mais com quem está ao seu lado sorrindo o tempo inteiro e se fazendo de príncipe encantado, ou princesa em apuros, que seja. Isso sim é perigoso. É doença não diagnosticada e, consequentemente, não tem como impedir. Impossível lutar contra um inimigo que você nem sabe que existe. Inimigo Oculto.

Por isso, então, me mostro, mostro-me vilã por pior que isso seja, pois só merece o meu melhor quem o meu pior aceita.  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Não mais


Quer saber, pode ficar com ela. Isso, vai, se apaixona por aquela raquítica sem sal, beija aquela boca infestada de brilho e olha aqueles olhos já borrados de tanto delineador. Eu não me importo. Definitivamente, não me importo nem um pouco. Vocês se merecem. São igualmente desprovidos de assuntos. Trabalho. É só disso que vão falar: trabalho.

Tudo será controlado por ela. Aquele programa tosco que você assiste todos os domingos de noite e tem mais mulheres seminuas do que reportagens engraçadas, por exemplo, não será mais conveniente. Ele não é bom o bastante para a princesinha de cabelo ralo. O sexo será regrado para que a maquiagem fique intacta. As comidas serão verdes e somente verdes, todos os dias. O seu cabelo, antes desgrenhado, precisará estar constantemente encharcado de gel e penteado para o lado esquerdo – sincronizado com a franja da moçoila, claro.

O que? É disso que você gosta, não é? É por isso que você escolheu a ela e não a mim. Não é? Pois bem, será assim. Porque ao contrário de mim ela depila as pernas todos os dias, passa batom a cada quinze minutos - e faz questão de te manter bem longe dos lábios melados pela coloração vermelho gritante -, come pouco e não fala de boca cheia, diz “caramba” ao invés de “caralho” e anda de salto-alto como se estivesse flutuando. Porque diferente de mim ela é extremamente educada e nunca ri alto. Porque ela escuta música clássica enquanto se prepara para academia e eu ouço rock pesado comendo pipoca de microondas. Não é?

Você escolheu e eu estou apenas descrevendo como serão os dias ao lado da boneca de porcelana - fajuta, só pra constar. Ela irá supervisionar todos os seus passos, roupas, cada fio da sua cabeleira que se encontra fora do padrão social do qual ela faz parte. Proibirá vídeo games e filmes pornográficos. Falará com a sua mãe sobre casamento e filhos, e tentará te fazer desistir de todos aqueles países maravilhosos cujos quais pretendia conhecer.

Será assim. Assim serão todos os dias. E vai virar rotina. E depois rotinas das bem chatas. Sim, é exatamente isso que ela é: uma chata. De galocha, eu diria. Galocha número 35 – que é pra não caber direito -, com pedra dentro e sujeira de cachorro na sola. E digo galocha número 35 porque aperta e gruda no pé, e pedra porque irrita profundamente, e sujeira de cachorro por que... Por que... Ah, porque ela é o tipo de mulher que os seus amigos chamam de cocô.

Mas vai lá, fica com ela, perde todo o seu tempo com uma patricinha genérica que a principio parece a namorada ideal, mas que dará um chilique dos grandes caso você saia com o camisão do time para beber com os amigos. Fique com a garota do cabelo arrumado milimetricamente (e ralo, repito) que te julgará por aquilo que você aparenta e não pelo que realmente é.

E não, eu não estou com ciúmes. Estou apenas prevendo como será a vida de alguém tão inconstante ao lado da rainha do controle. Ainda há tempo para que possas arrebentar todas as cordas que envolvem o seu corpo e te transformam, aos poucos, em uma marionete barata. Mas, quer saber? Não arrebente não, sério, vai lá, fica com ela. Fica com a outra. Eu não me importo mais. Assinei a sua carta de alforria, ou melhor, a minha. Quero mais é que vocês se explodam. E, depois de tudo, nenhum fragmento desta explosão será capaz de me atingir. Não mais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Deveria ser contra a lei


           Você anda me fazendo um mal tão grande. Deveria ser proibido fazer mal a alguém, assim, como você anda fazendo comigo, mesmo sem saber. Mal desconhecido pra você, inimigo intimo pra mim. Deveria ser proibido, é só isso que sei.

Eu odeio ficar perto de você e perceber que os barulhos do mundo inteiro desapareçam e a única coisa que eu, agora, sou capaz de ouvir é a sua voz ecoando no silêncio de um lugar o qual, obrigado pelos meus pensamentos, se calou.

Odeio que todos os membros e órgãos do meu corpo se descontrolem com o calor do teu e comecem a tremer como se sentissem frio no deserto do Saara. Tenho aversão a mim mesma por pensar tanto e tantas vezes em alguém que ainda não diminui o meu nome de Daniele pra Dani, que faz careta quando me vê – como se eu fosse algum tipo de criança chata no banco de trás do carro -, alguém pra quem eu escrevo textos, que procuro numa balada qualquer, que eu imagino me beijando e conversando comigo sobre como a grama anda castigada pelo frio.

Você tem ideia da infinidade de diálogos para os quais andei treinando caso você viesse falar comigo? Eu ando falando sozinha na rua. Você tem idéia do quão maluco isso soa? Muito. Mas é a mais pura verdade. Eu fico formulando frases e perguntas que você nem me fez - e que talvez nem faça -, mas que eu gosto de acreditar que fará. Eu preciso estar preparada e parecer misteriosa o bastante para não deixar você ir. Então, gesticulo, falo, brigo sozinha, eu interpreto o meu e o seu papel neste teatro infantil criado pela minha fértil imaginação enquanto você não vem.

Eu te odeio tanto por me fazer parecer ainda mais maluca do que realmente sou. Minha insanidade já era bastante sem você aqui, sabia? Pra que mais? Você precisa parar com essa mania de me amar e me odiar em um mesmo dia, em um mesmo instante. Eu sei lidar com oscilações de humor, mas de sentimentos não, isso não, seria demais. Você precisa me dizer logo se sou mesmo tão intolerável ou se você, assim como eu, tem medo de amar.

Se você não me suporta, tudo bem, eu te odeio mesmo. Odeio cada centímetro excitante do teu corpo e cada batida rápida que o meu desatinado coração dá por sua causa. Odeio que as palavras erradas – e digo erradas porque não foram as do roteiro que eu meticulosamente escrevi nas entrelinhas do meu cérebro e sai dizendo, sozinha, pela rua - saiam da minha boca e eu pareça um tanto quanto rude quando estamos juntos. Odeio você e continuarei a odiar se me achas mesmo tão insuportável.

Mas, se por acaso, se por um acaso pequeno que seja, exista alguma chance de ser só medo, ou jeito, sei lá, de amar, me diz. Se houver uma chance em um milhão de você gostar de mim, me diz. E logo. Pode gritar pra todo mundo ouvir, ou falar baixinho só pra nós dois. Você escolhe. Eu não faço questão de como vai ser, só preciso saber.

Não saber anda me fazendo mal. Essa dúvida que me obriga a odiar - cada olhar descontraído teu, cada sorriso enigmático, cada palavra - anda me fazendo mal. E, sabe, isso deveria ser proibido. Deveria ser ilegal fazer alguém sofrer. Não saber, não dizer, tudo isso que mata a gente por dentro deveria ser contra a lei. É só isso que eu sei.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A cura

São 20 horas, mas você sente que já é tarde da noite. 23 no seu relógio psicológico. A semana foi dura, você trabalhou e estudou sem folga. Soube por uma terceira pessoa que o seu querido viajou e só volta daqui a três dias. Ele não disse nada além de tchau. Tchau. Não gosto dessa palavra.  Diga que nos vemos mais tarde, amanhã, quando der. Mande beijos e abraços. Sorria e fique em silêncio. Aceito qualquer sinal de que irá voltar. Menos tchau.

Aparentemente você está sozinho. Mas só aparentemente. Fecha a porta do quarto, depois abre, sai e entra de novo, esperando ser notado, esperando que alguém pergunte como foi o seu dia e se ofereça para esquentar a comida que se encontra sobre o fogão.  Ninguém. Fuça no armário, encontra um chocolate - daqueles que custa uma fortuna só por causa do brinquedo de dentro - e come tudo sem nem perguntar se era seu. Afinal, quem é que se importa com o que é ou não meu?

O brinquedo parece divertido, mas já são 21 horas e você ainda não decidiu se toma um banho daqueles que quase te levam embora pelo ralo com a água e o sabão, ou se cria coragem e esquenta a comida. Nem um, nem outro. Pega o telefone e liga para família que não vê há tempos. Eles estão ótimos, e para não estragar a felicidade alheia você simplesmente se cala e segura as lágrimas angustiantes que resolvem se formar em seus olhos.

Cria coragem - não sei de onde -, esquenta algo e come. Toma banho, se veste e olha no espelho. Quanta coisa uma pessoa é capaz de ver quando se olha no espelho? Você está vendo milhares. Confusão, tristeza, loucura, saudade, paixão. Tudo isso, ali, refletido de você para você.
                
A sessão nostalgia acabou. Você esfrega os olhos para limpar qualquer vestígio de lágrima que nem se quer chegou a cair. Pega o brinquedo que veio no chocolate, sobe na cama com ele plantado nas mãos. O joga para cima, pula e ri descontroladamente, como se essa fosse a única alternativa capaz de manter no lugar a máscara de está-tudo-bem.
                 
Você pula o mais alto que consegue, tentando aos poucos alcançar o forro não muito alto. Joga o brinquedo com força esperando que ele se quebre e acabe com toda essa fantasia de que é preciso rir quando se quer chorar. Pula, gargalha, bagunça o cabelo ainda molhado por causa do banho recente, joga o brinquedo com ainda mais força. Nada, ele ainda está intacto. A lucidez de precisar estar bem já está beirando a loucura e você sabe, mas continua. O brinquedo não quebra. Você, cansado, cai.
                 
Não, não foi no chão, e não foi sem querer. Você caiu porque toda essa façanha de ter de parecer forte não faz sentido. Caiu por causa dessa sua fortaleza que anda beirando a insanidade. Você chora, desesperadamente, porque descobre que rir nem sempre é o melhor remédio. A cura da vez é o choro e o riso forçado só faz piorar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O melhor

Sinto falta do olhar caído e sempre lacrimejante, mesmo quando feliz. Tenho olhos de gente triste assim como ele e por isso ainda me olho no espelho: para lembrá-lo. Ouço barulhos de violão que não vem do instrumento, vem do coração. Penso nos dedos calejados com as unhas meio sujas de tinta - de um carro qualquer que ele anda pintando - apalpando aquelas seis cordas e fazendo sair de lá um som capaz de acalmar a alma mais agitada do mundo.

Quase consigo ver em minha frente o sorriso amarelo de quem fuma a mais de trinta anos e insiste em não me escutar quando digo que aquele embrulho de papel faz um mal irrevogável. Bom, me escutar até escuta, concorda comigo e tudo mais, dizendo que tenho razão e que tentará parar, mas, no fundo no fundo, sei que só diz isso para me deixar despreocupada. Ou menos preocupada, que seja. Aquele sorriso de quem diz odiar refrigerante, mas toma um litro de Fanta Uva fácil, fácil.

Adora insinuar que este meu gênio difícil foi herdado da minha mãe, mas nem todo ele, afirmo. A petulância e a impulsividade sim, mas a teimosia, essa não, essa herdei mesmo foi dele, do papai. Porque não existe ninguém mais teimoso que ele, e eu. Se for pra ir no médico, adiamos o máximo possível porque estamos sempre bem até não conseguir parar em pé. Dentista então, é caro demais. Parar de fazer alguma coisa só porque o resto do mundo não acha certo, nunca, jamais.

É teimoso também quando se trata dos filhos, brigou por todos, criou todos. E não digo que criou sozinho porque teve ao seu lado uma mulher de solidariedade insaciável, minha ‘mãedrasta’. E também não digo madrasta porque soa como ‘conto de fadas’ e, mesmo sendo branca como a neve e tendo os cabelos escuros , graças a Deus, ou ao meu pai que tem um dedinho aguçado, não tive a infelicidade de vê-lo se casar com uma mulher que não o amava e/ou que mais tarde viria a caçar o meu coração. Acredito, desde então, que por trás de todo grande homem exista mesmo uma grande mulher.

Não deixou nenhum dos filhos, mas foi deixado por alguns. Eu o deixei, mas só fisicamente, quero dizer, porque o carrego todos os dias no coração e nas lembranças já meio fora de ordem. Carrego essa saudade imensamente pesada, que cresce em mim a cada dia, desde que sai de casa.

E não comecem a me perguntar o porquê sai se tudo era assim tão perfeito entre nós dois; porque é tão complicado, sabe, é uma busca de sonhos e de me encontrar que pouca gente consegue compreender. Ele entende, ou finge muito bem. Me aceita com todos os defeitos possíveis, sejam eles vindo de fábrica ou ocasionados ao longo da vida. Pode até não concordar, mas aceita e, por incrível que pareça, até ama; sabe amar aquilo de que menos gosta.

Esteve ao meu lado nos melhores e piores momentos; foi à minha formatura e buscou o diploma porque eu não pude estar presente; chorou como uma criança me olhando de fora do ônibus; defendeu-me dos outros e de mim mesma, e ainda defende, pode acreditar. Faixa marrom no karatê, só não ganhou à preta porque precisava me levar no curso de espanhol. Tenho toda razão do mundo pra ficar louca de pedra quando alguém – que não é nenhum dos meus irmãos – diz ter o melhor pai do mundo, não tenho? Ele sacrificou tudo para ser pai, longe ou perto, agora e sempre. Meu pai.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Adorno


             Acho - achei, e sempre vou achar - corpos coloridos a coisa mais linda do mundo.

Casa decorada é sempre mais aconchegante do que aquela toda trabalhada apenas em tons pastéis. Vocês não concordam? Pois bem, o meu corpo é a minha casa, é onde vivo, onde estampo o que sou e o que não quero ser. Então, deixem-me decorá-lo, deixá-lo com desenhos, palavras e cores pelas quais eu sou formada, deixe-me estampar aquilo que de tão importante mereceu ser eternizado.

Vemos pessoas iguais o tempo inteiro em todos os lugares, e isso cansa – me cansa, pra ser sincera. Nós devíamos gostar de quem tenta parecer menos blasé.

O diferente me fascina, me apaixona, me admira. O diferente deveria causar em você a mesma reação que causa em mim. Você deveria permitir que causasse, pelo menos.

Serei julgada por olhares e, talvez, por palavras corajosas também, mas estou disposta a correr este risco. Há quem diga que até Deus me julgará, mas o Deus em que acredito não condena corpos, mas almas e corações; ou talvez nem condene nada disso, apenas tente entender e perdoar. Essa é a essencial da minha fé: entender e perdoar. E além do mais, segundo a minha crença, não estou fazendo N A D A de errado, é só tinta na pele, entende?! São registros de algo que passou, mas ainda está guardado. E sempre vai estar.

Existem, sim, tatuagens chocantes e assustadoras, mas talvez tenham um significado importante para quem as fez, vai saber. Também não posso dizer que não existam aquelas clichês, as quais pessoas fazem porque simplesmente está na moda, mas paciência, a vida é delas. Não minha. Nem sua. Temos de respeitar uns aos outros, acima de tudo.

Aprendi em um livro, uma vez, que o essencial é invisível aos olhos e, sabe, creio piamente nisso. Pra mim, só se é possível enxergar com clareza quando se usa os olhos do coração. Então, desencane, pare de olhar para as pessoas como se elas fossem um espelho e tivessem o dever de refletir quem você é. Nós somos diferentes e é exatamente isso que nos torna especiais.

 Aceite o preto, o branco e o colorido. Aceito o papel limpo ou o todo rabiscado. A essência não muda só porque se tem um milhão de tatuagens. Eu ainda sou eu, você é você, e nós precisamos conviver juntos – quer você queira ou não.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Escudo

       A armadura foi tirada da gaveta, limpa e vestida. As garras mais afiadas estão ao meu alcance. Aquela expressão fria de quem não quer se apaixonar tomou conta do meu rosto, mais uma vez.

Ele é um dos homens mais interessantes que já conheci. Poliglota, morou nas cidades que costumo chamar sonhos de consumo. Formado em uma das escolas de gastronomia mais renomadas do estado – senão do país – faz a minha comida, antes não muito boa, parecer um lixo. É divertido e leve, naturalmente refrescante, eu diria, não tem sotaque e gosta de rock. Ele também é irritante; implica o tempo todo com a minha (falta de) organização e com o cabelo liso demais que, às vezes, escapa daquela toca higiênica horrorosa. Sorri como uma criança que acaba de deixar a mãe sem palavras perguntando sobre sexo, e sai cantarolando algo que não consigo entender.

E não, não é atração. Essa palavra (atração) soa tão cafajeste, vocês não acham? E o que estou sentindo não é nada supérfluo, nem chega perto de cafajestagem. Também não pensem que é por beleza, porque nem há tanta beleza assim. Se ele fosse um daqueles homens que mais parecem monumentos gregos de Apolo, haveria milhares de mulheres olhando pro mesmo lugar que eu. E não há, pelo menos parece que não. É bonito sim, mas nada muito notável. Os óculos escondem os olhos miúdos e a dólmã torna o corpo menos desejável. Eu estou encantada por ele conseguir ser tão frio e tão quente, assim, ao mesmo tempo - só isso; tudo isso.

Sinto raiva de mim por pensar tanto em alguém, por deixar que um homem tome conta dos meus pensamentos mais ocultos. Detesto-me por querê-lo aqui mesmo que o meu pijama seja broxante e o cabelo esteja preso em um coque.

Eu estou me apaixonando cada vez mais, e não posso permitir que isso aconteça. É preciso vestir aquele conjunto de defesas não tão metálicas e lutar contra tudo o que me transporta à paixão - possivelmente não correspondida. É preciso afiar a espada e inseri-la em meu próprio coração. Acabar com este ‘amor antes que ele acabe comigo.

Não é recíproco, eu sei que não; nós nos conhecemos tão pouco e há tão pouco, é impossível que seja. E não, eu também não quero descobrir se estou errada, porque se não estiver, ninguém além de mim juntará os meus pedaços por aí.

As pessoas me dizem sempre: ‘Atire-se. Você não tem o que perder!’. Mas eu tenho sim, tenho muito que perder. Posso perder a cabeça, o coração, o fígado, e todos os outros órgãos dos quais o amor costuma se apossar. Eu posso perder-lo sem nunca tê-lo tido.

Tão mais fácil afastá-lo do que fazer com que ele chegue mais perto sabe?! O escudo é uma arma usada para proteção, não fere ninguém – ninguém além de mim, pelo menos. É de minha natureza lutar contra aquilo que cativa rápido demais, e vocês bem sabem que não se revolta contra a própria natureza.

É egoísta e covarde não arriscar por esta, talvez, ser só uma história idealizada romanticamente (em tempos assim não tão românticos), eu sei que é. Mas tudo está tão perfeito só no papel. É como um lindo livro que você lê, e que depois procura não ver o filme com receio de que não seja a mesma coisa

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Da estrada

Eu preciso ir embora, às vezes. Quase sempre, pra ser sincera. Ao contrário da maioria das pessoas que costumam temer as despedidas, eu as provoco. Uma gana exorbitante de mudança. Arrumar malas é um dos meus hobbies favoritos; desarrumar nunca foi. Deixe tudo aí mesmo, já estou de saída, e talvez nem volte. Visitas rápidas não deveriam ser consideradas como retorno, afinal eu ainda estou distante. Não estou?

Está na hora de deixar a cama desarrumada e um bilhete breve de que voltarei quando puder. Senta aqui, tente ao menos entender, no começo era obrigação, agora é necessidade.

Quando você se aventura contra bruxas, seja pra salvar sua família ou o príncipe encantado, não mais se satisfará com um casamento e um felizes-para-sempre naquele velho palácio de muros altos. Quando se descobre que manter os pés no chão pode não ser a melhor maneira de viver intensamente, torna-se impossível permanecer. É preciso voar, desde então. Existe um motivo pelo qual contos de fadas terminam onde terminam, creio eu.

Aliás, já fiquei tempo demais, tenho de ir antes que saia tudo do lugar. Sabe aquele narciso bonito que você plantou, e há um tempo vem florescendo, graças à primavera? O Verão vai chegar, ele vai secar, e eu não quero estar aqui quando isso acontecer. Quero guardá-lo bem assim: bonito, florido, com cheiro de narciso novo. Para sempre. Eu preciso ir antes do caos. Ir, e ir de novo, até que encontre um lugar que me convença a ficar; um verão que não destrua minha flor preferida.

E não se engane: o meu adeus é escolha, mas não significa que doa menos que em você. Dói, sempre dói, machuca, e muito, mas é melhor do que se perder em um lugar que nem chegou a se encontrar. Eu nunca esqueço as pessoas que encontrei e deixei pra trás, nunca, não se preocupe. Sempre me lembro dos lugares, das situações, do tempo, sempre. Acabo levando um pouco de cada um a cada outro.

Eu sou nômade, cigana, circense, transeunte. Oscilação da mais difícil de calcular. Montanha-russa, roda-gigante, talvez chegue a ser um parque de diversões inteiro, um parque daqueles cheios de monstros; quem sabe até uma arquibancada repleta de gente, que cai, quebra e ainda machuca quem sentou na primeira fileira para assistir o espetáculo de pertinho. Conserto tudo o mais rápido possível e saiu, assim, de supetão, antes que as cortinas se abram. Eu sou um dragão, e os dragões ‘se esboçam e se esfumam no ar, não se definem’.

Nasci pra ser lembrança, não pra fazer parte. Não se culpe. Não me culpe. Ninguém tem culpa. Eu só não quero mais.

domingo, 16 de outubro de 2011

Um brinde às escolhas não feitas

É inconstante aquilo que se quer pra vida inteira. Eu, particularmente, nunca tive tanta dificuldade para escolher algo, como tenho agora. Decidir que faculdade fazer está sendo, sem sombra de dúvidas, a coisa mais complicada desde que sai de casa. Temos que pensar nos quatro, cinco, ou até mais anos gastos com isto, dinheiro, muito dinheiro e, claro, a sensação de que não se está no caminho certo.

Sem contar na lista de coisas que pretendia fazer antes de seguir sua carreira: a carta de motorista que ainda nem tirou, o carro ou a moto que se afastam cada vez mais da sua condição financeira. A viagem para a Espanha que anda tomando um rumo mais Peruano. O cabelo vermelho que tanto sonhava, mas que continua no mesmo tom pastel de antes. Tem até tatuagens que se deixa de fazer porque a sociedade é preconceituosa e ninguém quer um advogado com desenhos pelo corpo.

Influência familiar e os palpites daquela tia de segundo grau que só sabe falar mal de você também não ajudam em nada. É legal ter apoio numa hora como essas, mas confusão nós já temos de sobra, não precisa mais. Dizer que vamos passar fome fazendo Moda ou Publicidade e Propaganda não é o melhor jeito de nos incentivar a fazer Medicina. Pressionar não nos fará escolher o que é certo. Sim, eu tenho 18 anos e ainda não sei o que fazer da minha vida, e não me olhe diferente por isso, por favor.

Pensei em Letras porque gosto das palavras, mas meu fim seria ensinando e, não, não daria certo. Depois de um três meses dando aula mataria todos os alunos em uma chacina. Drama total, claro, jamais mataria alguém (eu acho), foi só pra demonstrar o quão constrangedor seria. Cogitei turismo, mas não pra ser turismóloga, pra ser turista mesmo. Viajar sempre foi minha paixão. Cheguei a listar Jornalismo, afinal eu adoro escrever. Mas como seria, então, escrever por obrigação?

Depois de pensar, cogitar, listar, rasgar a lista e quase ficar louca, eu me encontro sentada vendo lugares que quero conhecer. Valencia, Buenos Aires, Delhi, Wellington, New York; o mundo, se Deus permitir. E a faculdade, carreira, ou vida profissional, o que você preferir, eu resolvi não decidir agora. Não quero escolher por escolher, depois olhar pra trás e ver que fiz gastronomia, mas tenho o maior talento para engenharia elétrica. Não perderei anos da minha vida para não me orgulhar deles mais tarde.

Eu não me importo se o mercado de trabalho está cada vez mais exigente, se o carinha da loja de roupas quer alguém com curso superior. Eu não tenho medo de que seja tarde demais para estudar - afinal de contas, nunca é -, tenho medo é de que seja tarde demais para viver.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Se for cômodo, que não seja

No começo, são feitos um pro outro, juras de amor-eterno pra lá e pra cá, é carinho que não acaba mais. Um não é nada sem o seu parceiro, os celulares vivem repletos de mensagens declarativas, os sites de relacionamento, então, gritam que eles são felizes e apaixonados, as fotos postadas brilham de tão perfeitamente tiradas e, mais tarde, escolhidas a dedo para estarem lá. Flores, chocolates, jantares à luz de vela – ou de lâmpada mesmo -, detalhes que não escapam aos olhos dos amantes.

O amor é lindo. É tudo muito lindo até que se passam anos assim – ou meses, apenas -, e essa lindeza toda se transforme em comodidade. Comodidade, segundo os dicionários da vida, é a qualidade do que é cômodo, vantajoso, agradável, confortável. E segundo os casais de plantão, ou já quase-não-casais, é a qualidade do que se torna viável fazer, tedioso, uniforme, cansativo, aquele tal de sempre-a-mesma-coisa.

E, pelo que eu saiba, amor não é sentimento cômodo, não. A quem previra guardá-lo na cômoda para, quem sabe um dia, entregá-lo a alguém que de fato mereça, mas de um jeito nada monótono, creio eu.

Amor é surpresa, é não esperar e receber, é não estar preparado e ver acontecer, é deixar livre sem soltar a mão. Amor que é amor não necessita coleira, não cansa, não se pode deixar que canse; tem que inovar, renovar, sei lá, vá viajar, deixe saudade. Existe coisa melhor do que sentir saudade? Sim, matar a saudade é bem melhor.

Parem de vez com essa mania de achar que se precisa encontrar o amor da vida inteira quando se tem só 15 anos. Ficar sozinho não mata, muito pelo contrário, é preciso antes ser uma ótima companhia a si mesmo para que se consiga acompanhar o outro. E depois, quando o amor resolver bater a sua porta – sim, porque sair por aí como um louco beijando todo mundo pra descobrir quem é que faz o seu estomago ter borboletinhas e seus ouvidos escutarem sinos que nem sequer têm na balada, não ajuda em nada-, atenda-o com calma, faça-o se sentir visita querida, faça ele ficar, surpreenda-o todos os dias e nunca, jamais o acomode.

Porque comodidade e amor são quase como vinho-tinto e vestido de seda branco, até se misturam, mas dá um trabalho do caramba pra remover o estrago.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Rock Girl

Quero e quero agora, anulo o depois, porque depois talvez nem haja. Quero muito e quero tudo, ou então nada; desde que não seja meio termo. Esse tal de meio termo não me agrada. Se for pra sair na chuva e correr atrás de alguém muito importante - que se foda a gripe, a maquiagem derretida, o cabelo desgrenhado -, eu saio. Se precisar de alguém às quatro da manhã pra falar qualquer bobeira, pode contar comigo, não acordo mal humorada.

Se arrume, mas não exagere, o tempo é curto e a minha paciência então, nem se fale. Goma demais, só de mascar. Música alta, pizza amanhecida, roupa bem solta e sapato confortável. Se você está querendo uma Barbie, se afasta de mim, porque eu não me encaixo nesse padrão, muito pelo contrário, sou totalmente Rock'n Roll.

Adoro um bom livro e admiro quem possa falar disso comigo; citar escritores, frases, músicas boas, que seja. É preciso saber falar bem num mundo dominado por massa muscular. É preciso ser você num lugar onde todos querem ser o que não são.

Não ligo pra tendências e muito menos as sigo – bom, sigo algumas inventadas por uma amiga, e futura estudante de moda, quem sabe. Sou fã número um do pretinho básico e olhar marcado. Intensa ao extremo, adotei o lance de ficar o máximo possível calada; tenho o mau costume de não controlar o que falo, nem pelo filtro do pensamento as palavras tem tempo de passar, saem assim, correndo feito cachoeira brava.

Desde criança rabiscava o corpo todo com canetinha preta pra dizer que era tatuagem. Num dia, usei uma tinta tão forte que fui pra escola cheia de estrelas empipocadas, e achando a maior graça. Sentia-me, e confesso que ainda sinto , capaz de alcançar o céu. Dramática que só, briguei sério em brincadeiras; perdi colegas, ganhei grandes amigos; chutei o balde e fui correndo ver se não tinha quebrado nada. Impulsividade é o meu segundo nome, prazer.

Nasci do Rock e não mudo por nada nesse mundo. E não me refiro só a música, não, falo de atitude, de quem quer 80 ou 80 e não se contenta com 8, nem adianta. Opinião, personalidade e caráter já montados desde pequena, vieram comigo e comigo se vão.

Digo sempre, e repito: Deus me livre de tudo aquilo que não for Rock'n Roll.

domingo, 25 de setembro de 2011

Por você, com você

Estar longe de você é estar também sem uma parte importante de mim, é como se me faltasse um membro do corpo. É como se me faltasse um dente da frente – dissera, certa vez, Clarice Lispector. E não, eu não estou falando de nenhum amor antigo, estou me referindo a mais do que isso: amizade.

Amizade é mais do que amor, acredito eu, porque é junção dos dois. Amizade que pode ser chamada de amizade sem nenhum constrangimento ou pé atrás, claro. Amizade destas que a gente cultiva por quase oito anos; que luta, todos os dias, para manter viva diante de tantas dificuldades. Amizade que a gente morre de medo de perder, morre só de pensar que se pode perder. E às vezes nem se pode, mas a insegurança, menina levada que é, matuta no cérebro já meio cansado e o faz pensar que sim.

O faz pensar por pouco tempo, só até aquele teu amigo, teu melhor amigo, teu irmão-de-alma-e-coração ou, no meu caso, irmã, perceber que algo bem paranóico está passando pela sua cabeça e escrever aquele recadinho meigo no Facebook, Messenger, ou email, que seja; só até ele te lembrar que está ali, mesmo que pareça não estar.

Porque amizade é isso: estar ao lado de alguém ainda que não esteja. É cuidar sem esperar nada em troca, e se por acaso houver reciprocidade, ótimo, pois neste momento saberás que é eterno.

Eu tenho alguém em que posso confiar de olhos fechados, inteiramente fechados, e se você aí também tem, sabe bem do que estou falando. Nós, amigas verdadeiras que somos, sobrevivemos há coisas que até Deus duvida. Submergimos de brigas, fofocas, idas e voltas.

E não pense que somos iguais porque, minha nossa, ela é perfeccionista que só vendo e eu desorganizada que é melhor nem ver. Ela mega controlada, eu com um impulso que só Deus controla (e olhe lá!). Mas, sabe, a gente se completa, diferentes ou iguais sabemos que fomos feitas para caminhar juntas ainda que uma distância de quase 800 km resolva querer atrapalhar. Querer, eu disse, porque não se pode destruir o que sentimos, se pode querer destruir, mas chegar ao ponto de fazê-lo não, nunca.

Eu já não sou mais eu sem ela, e creio que ela também não é ela sem mim. Confuso, não é? Mas o que é que a gente precisa entender quando existe algo tão bonito assim pra sentir? Nada, respondo eu mesma, não é preciso entender nada.

Você é a minha metade, TL, é a melhor parte de mim e vai ser pra sempre. E ainda que este tal de ‘pra sempre’ insista em não querer existir, eu o invento, eu me reinvento, eu vou com o vento, ou fico, é só me pedir. Por você, com você.

domingo, 18 de setembro de 2011

O que fica da despedida, ou que vai

Lembro-me de tudo como se hoje fosse o dia que o vi pela última vez. Lembro-me do tempo; fazia tanto calor naquela época. Eu estava de bermuda e sandália, ele de jeans e tênis, como sempre. Dizia não gostar do próprio pé e por isso só usava chinelos em casa. Nós conversamos durante quatro horas, sem pausa, sem nem ao menos perceber que o tempo passava. Éramos bons amigos, eu diria. ‘Ótimos’, diziam. ‘Mais do que isso’, murmuravam aqueles que há pouco nos conheciam.

Naquela noite ele sorriu para mim inocentemente, depois cantou quase que em um sussurro uma música do Charlie Brow Jr. e improvisou um poema sobre o meu cabelo bagunçado. Fazia-me rir de coisas assim não tão engraçadas, se é que vocês me entendem. Ele era bom. Com piadas, claro. Era divertido de um jeito que ninguém mais é.

As pessoas costumam satirizar coisas erradas em horas erradas: opção sexual, peso, altura. Elas só vêem graça à custa de desgraça. ‘Aparência não julga caráter’, ele acreditava, piamente. Suas anedotas eram sobre o seu grande nariz, ou sobre política – dá pra acreditar que poder legislativo fazia-me rir?-. Ele não precisava de mais ninguém, nem de nenhum circo ou fantasia para que eu soltasse a minha gargalhada mais bizarra. Era só ele, eu, e um quase nós.

No último dia em que nos vimos, ele me perguntou se eu o deixaria realmente; e eu disse que sim, que claro; dei um empurrãozinho em seu braço e me afastei. Eu precisava me afastar porque nós éramos amigos e não poderíamos ser mais, não mais do que isso. A necessidade de fugir antes de entregar sempre me acompanhou, felizmente ou infelizmente.  Apenas sinto em dizer que, neste exato momento, o da despedida, até amigos nós deixamos de ser.

O que antes era piada, inocência e amizade; hoje nós nos privamos de pensar. Os segredos que dividimos enquanto amigos; guardamos sozinhos, no mais obscuro lugar - um lugar da mente onde se guardam as coisas que se tenta esquecer. O olhar de antes já nem existe mais. As declarações feitas à base de brincadeiras nós deixamos pra trás. Os assuntos malucos de que falávamos, hoje não passam de previsões climáticas. E o que antes parecia amizade eterna se foi, se deixou, se guardou pra mais tarde, quem é que sabe.

domingo, 11 de setembro de 2011

XI . IX

Houve um dia em que a terra parou e colocou seus olhos em um único lugar: Nova York. Desde esta terça-feira, setembro nunca mais foi só setembro, talvez o mundo tenha deixado de ser o mesmo, as pessoas, os lugares. Naquele dia, exatamente às 8:46 da manhã, um atentado terrorista destruiu as torres gêmeas e, mais do que isso, matou milhares de pessoas, fez centenas de órfãos, pais sem filhos, famílias sem familiares, heróis em perigo constante; deixou o mundo paralisado e uma dor que se mantém viva por uma década. 

Desde a catástrofe, Nova York tenta se reerguer e seguir em frente. O mundo todo tenta. A quem acredite que, agora, nenhum homem de barba é apenas um homem de barba, nenhuma maleta esquecida em um banco de metrô é só algo esquecido, nenhum carro estacionado é só um carro estacionado, e nenhum avião voando baixo é só um avião aterrissando.  A quem acredite que os americanos tornaram-se mais frios e começaram a pensar, incessantemente, em vingança.

Porém, eu, e talvez mais um bocado de gente prefira pensar que depois da ‘guerra’ vem a ‘paz’. A vingança não trás de volta aqueles que se foram antes da hora, não faz o tempo voltar; só machuca ainda mais os que ficaram aqui, sem respostas. Reflito hoje mais do que nunca, o desespero que milhares de famílias passaram no instante em que aqueles aviões se chocaram com os prédios gigantescos de Manhattan. Penso na força que cada um deles precisou ter para continuar. Mando as vibrações mais positivas que me restaram e rezo, simplesmente rezo.

Eu, particularmente, acredito que depois de 10 anos muitas coisas boas aconteceram. Crianças que nasceram entre a fumaça negra da morte, puderam ser criadas com o intuito de melhorar o mundo, corações foram tocados e ONGs foram criadas para receber aqueles que perderam seus entes queridos no atentado; Cidadãos americanos, e do mundo todo, se juntaram para tentar esquecer, ou lembrar-se de um jeito menos dolorido, o dia 11 de Setembro de 2001.

E sim, por mais difícil que seja, nós podemos acreditar em algo melhor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Quando a fuga torna-se apropriada

Cuidado menina, preste bem atenção no que agora vou lhe contar. Guarde estas palavras assim como guardou, por anos, a história de teu primeiro beijo ou de teu primeiro amor; guarde o que lhe digo a sete chaves, oito se preciso for.

Se você tem aí ao seu lado um garoto lindo com fama de ‘pegador’, afaste-se, por mais difícil que seja, afaste-se. Se ele olha nos seus olhos e assim permanece por mais de dois segundos, se ele diz que vai mudar porque gosta de você, se ele arruma o seu cabelo como quem não quer nada e desliza, levemente, as mãos pela tua cintura a fim de te abraçar, fuja, afaste-se lentamente para que nem ele e nem ninguém perceba. Deixe-o sozinho, por mais que doa, por mais penoso que seja partir.

Não acredite em nada do que ele te diz. É tudo mentira, acredite em mim, mais cedo ou mais tarde você vai descobrir. Sei que o que este monstro mascarado de príncipe fala é bom de ouvir, mas acredite em mim, é tudo encenação, insinuação, ilusão, que seja; é mentira, mais propriamente dita, mentira na qual a gente pode evitar acreditar. É só querer que se pode. É só fugir.

Fuja dele, do monstro, do príncipe, do garoto que sorri pra você como se fosses única, mas que assim também sorri pra muitas outras, não tenhas dúvida. Esconda-se o máximo que puder, e quando não puder mais se esconder, maltrate-o, faça-o pensar que você o odeia, faço-o pensar em você como a garota que ele quer manter longe. Far away. E ainda mais distante.

Não deixe que ele te engane, não se deixe apaixonar, se levar. Não se arrisque, não nessa viagem onde sabes que o barco estará furado e terás de remar sozinha. Sozinha e com as mãos, porque nem remo ele irá te oferecer, não depois de te ter, de ter-te feito apaixonar, de te levar, de te arrastar feito águas caudalosas pro fundo do mar. Ele vai te deixar. Antes que possa dizer ‘adeus’, antes que tenha a chance de implorar pra ele ficar, o monstro, o príncipe - já nem sei mais - vai te deixar.

Não se entregue, portanto, não se afogue em vão. Corra enquanto há tempo. Esquiva-te dessas mentiras que te matam, que te fazem cair e andar na contramão. Escapa disso tudo para o teu próprio bem, e lembre-se sempre: Pessoas só valorizam aquilo que elas não têm.